Drummond e o "Diário Reinventado"

Drummond e o "Diário Reinventado"
Essa foto registra homenagem deliciosa e delicada do prof. Luis Carlos Maciel ao meu pai, Eduardo Cisalpino. O livro que o prof. segura nas mãos e que parece "comentar" com o poeta, é o "Diário Reinventado, de Eduardo Cisalpino.. Obrigado à Magda pela foto.

Jack Kerouac

Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O TAMANHO DA RUA - HISTORINHA INFANTIL

O TAMANHO DA RUA




Outro dia estava navegando pela internet, brincando com aqueles programas que nos mostram a Terra vista do espaço, por um satélite. A gente pode “mergulhar” na Terra, com esses programas, aproximando cada vez mais. A gente entra na atmosfera, começa a ver o traçado dos continentes e oceanos, depois a gente escolha um lugar qualquer do planeta. Eu escolhi o meu país. Depois a gente aproxima mais e identifica a posição do nosso estado. Aí, já dá pra começar a localizar a nossa cidade.
Com a minha cidade já no alvo, comecei a ampliar mais a imagem. Vi os bairros, as avenidas e ruas ainda pequenas. Aproximei mais, mais e mais: e lá estava a minha rua. Eu podia reconhecer a minha casa, a casa dos vizinhos, o comércio que existe no fim da rua. A minha vontade era “mergulhar” mais ainda e poder ver as pessoas, os animais, e até os buracos no asfalto que a minha rua tem. Mas a ampliação da imagem já estava no limite. Então, fiquei ali, olhando a minha rua com os olhos do espaço. Como se fosse um E.T estudando o belo planetinha que risca de azul o sistema solar em sua órbita.
Deixei aquela imagem ali e fiquei observando, como quem vê pela primeira vez algo que já conhece em detalhes. Então, não sei porque, me deu uma vontade danada de sair de casa e fazer na minha imaginação, já que não havia um foguete à mão, a viagem ao contrário: fui para a rua, parei bem em frente ao meu portão, olhei para a rua toda. Depois, olhei para o céu, e voei: decolei em direção ao satélite que pouco antes me mostrava as imagens do meu planeta.
Olhando pra baixo, vi as ruas diminuindo, as pessoas virando formigas. Vi toda a beleza da geografia da região onde vivo; vi o meu país se formando lá embaixo, vi o oceano aparecendo, vi o meu continente, os outros oceanos, os outros continentes... até sair da atmosfera e poder ver o meu planeta. Fui até o satélite, sentei em uma de suas antenas – com cuidado pra não quebrar nada (acho que isso deve ser de um gringo qualquer)... E suspirei diante da beleza da minha Terra, do meu lugar nesse imenso universo.
Se você está aí rindo de mim, ou se perguntando como é que eu posso suspirar e respirar no espaço, já que sua professora de ciências disse que no espaço não tem ar, por que lá existe o vácuo eu te respondo: na imaginação, a gente pode tudo. Pra te provar isso, vou dizer que, sentado na antena do satélite, ainda tirei meu canivete do bolso e chupei uma laranja (colhida de uma laranjeira que imaginei nos painéis solares da estação espacial internacional), enquanto tentava identificar se aquele traçozinho, aquela pequena cicatriz que via na superfície do meu planeta era a Grande Muralha da China ( será?)
Então, olhei pra trás e contemplei a Lua, ali pertinho, os outros planetas do sistema solar (não olhei para o sol porque não tinha levado meus óculos escuros nem meu negativo de filme fotográfico). Vi bilhões de corpos celestes: estrelas, cometas, meteoros... pensei ter visto dois discos voadores e um buraco negro... Vi também a quantidade impressionante de lixo espacial em volta da Terra... Pensei maravilhado: eu estou lá na minha casa, na minha rua, na minha cidade, no meu país, no meu continente, no meu planeta... MAS... Sou mesmo é um habitante do universo! Meu lar é tão grande, tão grande, mas tão grande, que a gente acha que ele é infinito. Isso me fez sentir estranho: muito pequeno, por ser apenas um euzinho minúsculo no meio desse imenso universo... e muito grande, por ser um euzinho que pode vir a conhecer esse mesmo imenso universo.
Recolhi todas essas imagens pra dentro da minha cabeça e do meu coração (a imaginação tem um duplo lar em nós) e voltei o olhar pra minha rua. Aquele cachorrinho que passava tranquilamente, já não era o mesmo. O menino, meu vizinho, que me acenava da janela, já não era o mesmo. A minha rua, a minha rua simples e comum, como outros milhões de ruas pelo mundo, não era mais somente a minha rua: era um pedaço do universo. Era, na verdade, um universo dentro do universo. E esse universo tão mais próximo, era igualmente complexo e deslumbrante. E eu decidi explorá-lo.
Comecei minha exploração pelo mercadinho do “seu” Alfredo, que fica lá na ponta da rua, na esquina com a avenida que nos leva ao coração da cidade. Podemos com certeza dizer que ver o mercadinho do seu Alfredo é a alegria de chegar em casa, pra quem vem da cidade, e a pontinha de saudade de casa, quando se vai pra cidade. É a esquina do meu cotidiano, o mercadinho.
O mercadinho funciona em uma antiga garagem, convertida e ampliada para loja pelo dono que está morando nos EUA há dez anos – manda dinheiro de lá para os pais, que moram no andar de cima do mercadinho, e vivem da renda do imóvel. Tem verdura na porta, fresquinha, logo de manhã. Tem pão e leite. Tem aquela mortadela que eu adoro. Tem uma maquininha de balas. Tem uma caixa registradora antiga, mas que ainda funciona. Tem macarrão, farinha, feijão, arroz e carnes congeladas. Tem caderno, lanterna, sabão, limão, CD-Rom gravável, ração, alpiste, pimentão, leite condensado, batata chips. Tem também botina “rangideira” e fumo de rolo. Nos rótulos dos produtos tem: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Buenos Aires e São João das Roças Lindas (que fica aqui pertinho).
E tem o seu Alfredo. Seu Alfredo é um mulato de olho verde, filho de um negro nordestino com uma loura francesa, neto de portugueses, índios, escravos e poetas. Seu Alfredo era o Brasil, era o mundo em forma de gente. Seu Alfredo falava mineirês (não sei se disse, mas moro em Minas Gerais, um “Mar de Morros” afogado em gente hospitaleira e gentil) com sotaque brasileiro, o que lembrava de longe o português. De vez em quando, recitava poetas franceses ou cordéis nordestinos: seu preferido era “A chegada de Lampião no Inferno”, que era muito engraçado.
Seu Alfredo nunca tinha viajado mais longe que alguns poucos quilômetros, mas trazia o mundo na alma, na pele. Sabia de Áfricas e Quilombos e Paris.
Entrou no mercadinho a Dona Rosa, pra comprar umas verduras pro almoço. Fui com ela, caminhando até sua casa, pra carregar a sacola. Dona Rosa já coleciona muita vida nos ombros, seus olhos são oásis de vida e quando ela olha pra gente um sorriso nasce em nossos corações.
Dona Rosa morava no outro extremo da rua, do lado oposto ao mercadinho, em uma casa antiga, mas bem conservada, com uma jardineira de margaridas na janela da frente. Dona Rosa, a primeira moradora da rua, diz que já viveu quase de tudo: nasceu em uma fazenda, cresceu cozinhando e lavando, casou na cidade, trabalhou em fábrica e em loja, viu a primeira locomotiva e viu também a primeira transmissão de televisão chegarem à sua cidade. Viu em preto-e-branco, o primeiro homem na Lua; e comprou o primeiro telefone celular da rua. Dona Rosa à vezes tem um tom de tristeza na voz: tem saudades do marido, que já se foi. Tem saudades dos filhos, que moram longe. Tem saudades dos netos que lhe mandam retratos e e-mails (Dona Rosa ganhou um computador do filho mais velho e aprendeu a usá-lo com o neto mais novo, que tem uma paciência danada com ela).
A casa de Dona Rosa tem muitos retratos e cheiro de memória.
Deixei as sacolas de verduras na casa de Dona Rosa e vi o Marquinhos, meu amigo, sentado no meio-fio, fazendo bolha de sabão. Tinha um tempão que eu não via alguém fazendo bolha de sabão. E fui lá, furar umas bolhas, é claro.
Marquinhos é um menino franzino, de óculos, com rosto cheio de sardas, muito branco, muito pálido. Morava na terceira casa a partir da minha, bem no meio da rua. A casa do Marquinhos, na verdade, era um pequeno condomínio: a casa original, de seus avós, havia sido dividida em três residências independentes. Em uma delas, morava o Marquinhos e seus pais, nas outras, seus dois tios com as famílias.
O pai de Marquinhos era engenheiro da empresa mais importante da cidade. Havia se formado há pouco tempo. Começara como um simples operário, mas, apesar de já ter família, batalhou muito, trabalhando durante o dia e estudando à noite, até se formar. Agora, ganhava muito melhor e tinha o carro mais novinho da rua.
Já o Marquinhos, sonhava em ser especialista em computadores. Passava quase todo seu tempo livre fechado no quarto, navegando na internet ou aprendendo a usar os programas mais complicados que o pai dele tinha.
Do outro lado da rua, também observando o Marquinhos estava o Carlão, sujeito meio esquisito, que não fazia nada da vida. Já com seus trinta anos, vivia ainda na casa da mãe e se vestia como um adolescente. O tempo todo de boné, bermuda e chinelo. Passava os dias pelos bares, jogando sinuca e bebendo. A mãe do Carlão era costureira, uma das melhores do bairro. Fazia de tudo, até vestido de noiva. Era ela quem sustentava o Carlão.
A casa do Carlão era mal cuidada, o portão estava velho e solto, caia toda hora. O telhado estava lotado de folhas, que caiam do ficos que havia no pequeno jardim, em frente à casa. A mãe dele não tinha tempo para manter a casa arrumada, e o Carlão parecia não se importar com isso. De vez em quando, olhava pra casa e dizia: “Amanhã eu vou arrumar isso aí”. Mas, amanhã nunca chegava.
Caminhando em direção à minha casa, olhava pra minha rua: casa dos Pereira... Casa da Mônica... Casa daquele vizinho que não conversava com ninguém... O terreno baldio... O predinho onde mora o Paulo, meu amigo... Eu caminhava e pensava em toda aquela gente. Gente de todo lugar, gente de todas as idades, gente que ia e vinha. Eu caminhava e pensava que ali naquela rua, não havia limite para histórias, para vontades, para desejos, para alegrias e tristezas. Não havia limite para o futuro, para mudanças que ainda poderiam ocorrer, com o passar dos anos.
Olhei para a rua novamente, mas agora com meus olhos da imaginação: e vi que minha rua não terminava na avenida que levava à cidade. Minha rua se ligava a uma estrada invisível que levava ao infinito. Minha rua era pequena, é verdade, mas era uma parte desse mundo, estava conectada ao planeta e corria muito além, serpenteando pelo universo, entre os mesmos satélites, estrelas, cometas, planetas, galáxias que eu imaginara ainda há pouco...

E assim, olhando pra lugar nenhum e para todos os lugares, cheguei a uma conclusão: não há nada que possa limitar as pessoas. Nem casas, nem ruas, nem cidades, nem mundos. Nosso único limite está no tamanho que queremos ter.

Murilo Cisalpino

domingo, 1 de novembro de 2015

ODISSEIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 12 - NA ROLETA DA VIDA

NA ROLETA DA VIDA

Estava no ônibus, outro dia, de Timóteo para Ipatinga. Final de uma tarde do final de outubro. Mais um dia, tudo como sempre, inclusive as situações especiais: de especial, havia o fato de estar indo substituir um colega, que havia sido internado. Mas isso aconteceu muitas vezes, ao longo do ano, trazendo a dupla sensação de alegria, por poder ajudar e preocupação, com o estado de saúde do colega. E de especial, havia também a impressão de entrar em dois lugares, quando entro em Ipatinga: a entrada de Ipatinga me lembra muito Brasília e sempre penso nisso, quando entro na cidade. É sempre como se estivesse entrando em duas partes de minha vida ao mesmo tempo e as memórias se misturam, como se lambesse um sorvete napolitano feito de emoções e histórias.
Era um dia de sentimentos especialmente envolvidos pela normalidade. O sol ainda brilhava às 18 horas, devido ao horário de verão. Mais uma normalidade com sabor especial. Normalmente extraordinário, esse dia.
O ônibus seguia seu trajeto normal, com seus barulhos normais e eu, como normalmente faço, me distraia com o ir e vir da cidade, lá fora. A moça de chapéu, o carro caríssimo, o garoto suicida correndo entre carros, a flor do shopping, o cheiro da usina: tudo como sempre. E eu pensava que nada dessa normalidade ocorreria outra vez, na história da humanidade. Pequenos e banais momentos únicos do universo passando pela janela.
De repente, não mais que de repente, escuto um pequeno gemido, longo e doído, dentro do ônibus. Procurei ver de onde vinha aquela ruído anormal que invadia a minha normalidade: era o trocador. Quando olhei, ele dava um impulso para a frente, levantava a cabeça, tentava segurar-se nas barras laterais e emitia outro gemido, ainda mais gutural e doloroso. Em seguida, suas mãos e braços se retorcerem, suas pernas se esticaram. Ele começou a cair da cadeira, totalmente retorcido, debatendo-se levemente, e salivava profusamente.
As pessoas, no ônibus, se espantaram, imediatamente gritaram para o motorista que o trocador estava passando mal, pedindo para parar. Algumas se aproximaram, na vontade de ajudar. Mas paravam diante do quadro: um homem, adulto, todo contorcido, debatendo-se e "babando". Não é fácil dar o próximo passo.
Sem hipocrisias: não é fácil dar o próximo passo. O que lhe vem à cabeça? "Será contagioso"? Por mais que você seja uma pessoa sempre disposta a ajudar, é isso que você pensa. E contem, ainda que seja por segundos, o próximo passo. Somado a outras dúvidas, por exemplo: "como eu posso ajudar, não sei o que está acontecendo", ou "não sei o que fazer, melhor ficar quieto". É natural, é humano, é compreensível.
Não era o caso de uma jovem senhora, que se aproximou, com ares de quem sabia o que fazia: "Deixa, deixa..." e tomou conta da situação. Não era o meu caso também, já tinha visto aquele quadro diversas vezes. Eu disse a ela: "Você precisa de ajuda"?
E fomos seguindo os procedimentos indicados: afrouxamos a gravatinha, a camisa, o cinto. Desfizemos o "bolinho" e ganhamos espaço. Levantamos o rapaz, que ameaçava cair da cadeira e o colocamos em uma posição mais segura e confortável. Os dentes não estavam cerrados e ele não mordia a língua. Retiramos objetos pessoais que pudessem se perder, quebrar ou feri-lo: óculos, telefone, carteira, etc. Alguém ligou para o SAMU pedindo uma ambulância.
O trocador se debateu por mais alguns segundos e começou a parar...Deu um profundo suspiro e depois permaneceu quieto, olhos fechados...e ofegava. O cansaço e a confusão mental seriam os próximos passos esperados.
Mais alguns minutos e ele começava a voltar: abriu os olhos. A moça falou com ele, perguntou o nome e a idade. O olhar era vazio, olhava mas não entendia o que via. O cansaço era profundo e quase mais consternador do que a convulsão. Ele estava exausto.
Ficamos ali, ao lado dele, por mais alguns minutos. Ele foi voltando. Respondeu o nome, mas ainda não sabia a idade nem onde estava. A primeira resposta à pergunta "quantos anos você tem"? foi "13 anos".
Foi nesse momento que pude tomar pé do que acontecia em volta. O ônibus estava parado no canto direito da avenida, logo em frente a um posto de gasolina, depois do shopping do vale. Eu estava a uns 500 metros do ponto onde desceria para pegar outro ônibus para a cidade nobre. Poderia descer e caminhar um pouco, mas não queria deixar a situação inacabada. Esperaria o SAMU. Algumas pessoas desciam, atrasadas para cuidar de suas vidas. Outras olhavam angustiadamente. Outras contavam o caso pelo telefone. Outras ainda simplesmente esperavam um outro ônibus para seguirem o trajeto e a vida.
O trocador falou alguma coisa, muito baixo e com grande esforço. Nos aproximamos: ele queria saber onde estava. Contamos o que acontecera. Ele pediu que ligássemos para alguém. O motorista, colega de trabalho, apareceu e disse que já estava ligando. Ele então tranquilizou-se novamente, recostou a cabeça na cadeira. E o SAMU chegou.
Duas pessoas desceram da ambulância e entraram no ônibus. Descrevemos todo o acontecido. Me lembro do motorista comentando com o pessoal do SAMU que nunca vira o trocador passar por algo parecido ou mesmo comentar sobre alguma doença que pudesse lhe causar isso.Com o apoio desses dois agentes do SAMU, o trocador desceu do ônibus e entrou na ambulância.
Nesse mesmo momento, outro ônibus estacionou logo atrás, pra pegar o pessoal. Fomos descendo, lentamente, e entrando no outro carro. Seguimos viagem. Calados. Desci no primeiro ponto, logo à frente e caminhei até o outro ponto, na avenida Brasil.
O dia morria, suavemente, dando lugar à noite. A agitação aumentava em carros e pessoas, devido ao horário. Gente indo pra casa, gente indo pra escola, rush, enfim.
Olhei o relógio do telefone: se o próximo ônibus não demorasse, não chegaria atrasado. E, por sorte, ele chegou logo. Embarquei. Sentei. Olhei pela janela: um carro de polícia, uma senhora com carrinho de bebê, um garoto se equilibrando perigosamente em uma bicicleta muito maior que ele, um supermercado lotado, um banco em greve. Tudo normal.
Pensei no trocador. Pensei em como aqueles poucos minutos, dentro do ônibus, poderiam mudar toda a vida dele. Aquilo certamente teria muitas consequências no trabalho e em sua rotina diária. Ele teria que buscar outra normalidade. E isso não é nada simples, pode ser muito complicado: mudar hábitos, se acostumar com novos situações, novos olhares das pessoas, novos julgamentos é uma verdadeira via crucis para a maioria de nós. Ninguém passa incólume por isso.
Nós nos acostumamos com as coisas, nós nos acostumamos com o que chamamos de nossas vidas e geralmente esquecemos a fragilidade absoluta disso tudo. Tudo é, em nossas vidas, natural e normalmente provisório, temporário. Somos criaturas predestinadas ao fim, desde o começo. Qualquer segundo é definitivo.
Devíamos beber a normalidade com a consciência de que tudo o que está não será mais. Nunca mais, Aquele segundo do olhar, do sorriso, do gesto, do vazio...aquele segundo foi e jamais será, novamente. Essa, a nossa normalidade: a convivência diária com o imponderável, com coisas definitivas que simplesmente não podemos prever ou controlar. Alguns preferem que deuses se ocupem dessa condição, dessa fragilidade, desse imprevisível, já que têm tantos planos para hoje, para amanhã, para o futuro com os netos.
Outros preferem não pensar nisso, outros preferem se dizer ocupados demais para pensar nisso. E simplesmente, vivemos.
Enfim, somos apenas isso: seres vivos, organismos que perambulam por aí seu prazo de validade, seja ele biológico, acidental, conjuntural, ou seja lá o que for. A única coisa que podemos escolher é como passaremos por esse período. Essa talvez a grande lição que devemos aprender e pensar nela, a cada segundo. Como se fosse normal, e que de fato é.
Desci no meu ponto na Carlos Chagas, fui dar minha aula, tomando o cuidado de lavar bem as mãos e os braços antes de cumprimentar as pessoas, antes de entrar em sala. E trabalhei, normalmente.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

HISTORINHAS DE APRENDER - AS MEIAS E OS MEIOS

Era uma vez duas meias.
Na verdade, mais que duas meias, eram um par.
Uma delas, azul. A outra, também.
Ambas, de um azul celeste...Ou quase isso.
Acontece que uma das meias- e aí pouco importa qual das meias seria, já que eram meia e meia; meias, as duas.
Voltemos então: acontece que uma das meias, era meio verde. Azul, sim, azul era a meia.
Mas também meio verde a meia era.
À outra meia, a que não era meio verde, mas totalmente azul, perguntavam: não acha meio estranho, meia? Sua companheira assim, meio azul, meio verde. Isso não é coisa de meia azul. Isso é meio verde, meia.
Assim como o povo, as meias falam. E por vezes as meias são meio preconceituosas, quando o assunto é meia... e cor de meia - cor é coisa que atormenta as meias - é meio estranho, eu sei, afinal, todas elas meias são . Mas, fazer o quê, se outro meio não há?
A já citada meia, meio confusa ficava; meio preocupada a meia, e se perguntava:
Uma meia, meio verde, e nem tão azul, menos meia azul seria?
Teríamos uma meia a menos, pensou, meio triste...
Mas, ora, que importa, sendo mais azul ou menos verde, mais verde ou menos azul, nada a menos haveria, nem uma única vírgula a menos, e as dúvidas foram ficando mais amenas.
Meia e meia, então, compraram uma tinta amarela, à meia, e tingiram-se, em singela cerimônia, só para os de seu meio.

E assim, fizeram um par a mais... e um problema a menos.

As meias sempre acham um meio de serem menos complicadas. Elas são feitas para o par. Não para o impar. 



terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O VIÚVO VIRGEM


"Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista
O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece
Aquele que conhece o jogo, do fogo das coisas que são
É o sol, é a estrada, é o tempo, é o pé e é o chão"

C. Veloso


Para meu avô, Dagoberto Amorim Silva
Criador de Passarinhos no Jardim do Éden

O VIÚVO VIRGEM


   Ele nasceu em uma família de classe média, em Maceió, Alagoas. Ainda muito jovem, morreram-lhe os pais. Ele e a irmã, ainda mais jovem, foram morar com um tio. Estávamos então nos primeiros anos do século XX.
   O tio, homem muito tradicional e autoritário, era chamado pela esposa de "senhor meu marido". Durante as refeições, ela servia o marido e as crianças e só depois sentava-se à mesa. E todos, à mesa, esperavam que ele começasse a comer antes de fazerem o mesmo.
   Levantar-se da mesa antes dele? Nem pensar. Falar alguma coisa à mesa? Só se ele perguntasse ou se dirigisse à pessoa. Crianças então: silêncio total. E modos: o jeito certo de se vestir para as refeições, o jeito certo de sentar, o jeito certo de comer, etc, etc, etc.
   Certo dia, terminada a refeição, o tio pediu que trouxessem a sobremesa: um lindo cacho de bananas. O garoto não se conteve, ou nem percebeu que havia falado alto: "Que lindas bananas". Foi só isso que ele falou. E foi o que bastou. Pelo atrevimento de falar à mesa sem autorização, foi obrigado pelo tio a comer o cacho inteiro.
   O sacrifício para comer aquilo tudo foi enorme. Mas ele fez questão de não chorar, de não reclamar, nada. Terminado o cacho, continuou na mesa por mais uma hora, esperando autorização do tio para se retirar.
   A vida não era fácil ali. Nem pra ele, nem pra irmã. Era preciso fazer alguma coisa, e cabia a ele. Então, fugiu de casa. Foi para o Rio de Janeiro, aos 14 anos de idade, em busca de uma outra vida, pra ele e para a irmã.
   Sem profissão definida, com pouca ou quase nenhuma experiência de trabalho, menor de idade e sem formação escolar completa, foi trabalhar no cais do porto. estivador. E depois de algumas semanas na cidade, fez amizade com uma prostituta da região. E foi morar com ela, no quartinho que ela usava como local de trabalho, no bordel.
   Aprendeu muito ali, sobre a vida e sobre as pessoas. Aprendeu também a dançar. Um verdadeiro pé de valsa, que um dia dançaria um frevo, tendo a filha como parceira, para o Rei da Bélgica, em visita ao Brasil.
   Trabalhando e estudando, enfim conseguiu uma vaga no banco: Banco da Lavoura. E transferiu-se para Belo Horizonte. 
   A jovem e formosa capital mineira, recebeu o rapaz de braços abertos. Organizou a vida, trouxe a irmã para viver com ele. E foi ali também onde conheceu o amor: apaixonou-se por um jovem mineira. Funcionário estável do Banco da Lavoura, foi bem recebido pela família da jovem. Namorava como se devia: dentro de casa, no sofá, cada um num canto, guardados sempre por alguém da família.
   Planejavam o noivado e o casamento. Mas ela ficou gravemente doente: contraiu a "Espanhola". A moça definhava mais e mais a cada dia. Angustiado, queria ficar ao lado dela, o máximo que pudesse. Mas, uma moça solteira, de boa família, não podia ficar sozinha no quarto com um homem que não fosse seu marido.
   Ele, então, casou-se com ela. Casou-se para poder acompanhar sua amada em seus últimos dias. E esses dias foram poucos.
   A história correu: o rapaz, funcionário do Banco da Lavoura, que se casara com a moça no leito de morte. E ele ficou conhecido como o "Viúvo Virgem". Andava pela rua e sentia sempre o olhar e os comentários das pessoas. Todo mundo queria saber quem era o Viúvo Virgem. Gente saia de casa ou se atirava na janela quando ele passava. E ele passava, sereno e tranquilo com seu gesto de amor, do qual se orgulhava, Os outros pouco importavam.
    Leondina, era uma dessas jovens que se atiravam com curiosidade na janela quando o "viuvinho virgem" passava. Leondina se agradou dele, e ele dela. Primeiro os olhares, pontuais, da janela. Todo dia. Depois as conversas no portão de casa. Depois, foi à casa de Leondina, apresentou-se, e pediu permissão para namorá-la.
     Namoraram, casaram, tiveram quatro filhos. E viveram juntos, entre passarinhos, netos e bisnetos, por mais 60 anos.
    Um dia, ela adoeceu. Foram alguns anos ao lado da cama de "Dona Santa", como ela era chamada por todos. Até que ela se foi, como um passarinho.
   Não demorou muito para que ele a acompanhasse. Dizem que foi tristeza.

domingo, 30 de novembro de 2014

HAGIA SOPHIA: A SAGRADA SABEDORIA


HAGIA SOPHIA : QUE A SAGRADA SABEDORIA NOS PROTEJA

         A Mesquita Azul, era anteriormente conhecida como Catedral de Santa Sofia, que originalmente conhecida como Hagia Sophia, que em grego significa "Sagrada Sabedoria". 
O edifício foi construído entre 532 e 537, pelo Império Bizantino, também conhecido como Império Romano do Oriente.



            A história de Hagia Sophia (Ayasofya, no árabe), é marcada pela própria conjuntura de sua construção: uma civilização em transição. Separado de sua porção ocidental, que desmoronara diante das invasões germânicas que ocuparam Roma quase um século antes, o Império Bizantino era, nesse momento, um caldeirão de culturas: carregava as velhas tradições "pagãs" romanas, misturadas à cristianização crescente, especialmente a partir do século IV, quando Constantino estabeleceu o Édito de Milão, que possibilitou o culto legal e aberto do cristianismo, antes perseguido e restrito às catacumbas, aos subterrâneos do Império.
           O nome dado ao edifício, tempos depois da abertura proporcionada por Constantino, da oficialização do cristianismo como religião do Império e do fim da porção ocidental desse mesmo império, ainda reflete sua divisão cultural: construída para ser a catedral de Constantinopla, seu nome santificava a sabedoria, sutilmente, tanto ao passado romano quanto ao presente cristão.
         Entre 1204 e 1261, ela foi transformada em Catedral Católica, pelo Patriarcado Latino de Constantinopla, depois da invasão e do saque da cidade proporcionado pela Quarta cruzada.
       Em 1453, depois da tomada de Constantinopla pelos Turcos-Otomanos, episódio que põe fim ao  Império Bizantino ou Império Romano do Oriente e marca o início do domínio islâmico sobre a região, foi transformada em Mesquita.
       Finalmente, em 1935, o edifício foi secularizado: desde então, é um museu. Um museu que abriga tradições culturais diversas, que vão desde a religião mitológica dos romanos e dos gregos, passando pelo cristianismo - tanto católico quando grego-ortodoxo e finalmente chegando ao islamismo.
       Foi exatamente neste edifício, a Mesquita Azul, ou Catedral de Santa Sofia, ou Hagia Sophia, que o Papa Francisco, o líder católico, o líder de uma religião que congrega centenas e centenas de milhões de pessoas em todos os cantos do mundo, se encontrou com o Mufti de Istambul, o grande líder muçulmano da Turquia.
       Os dois líderes religiosos fizeram suas orações - ou "meditações" dentro do histórico e eclético edifício. O detalhe importante é que fizeram isso voltados para Meca, e com o Papa descalço, como manda a tradição islâmica.



        Não é a primeira vez que um líder cristão faz esse gesto. Anos atrás, o Papa Bento XVI fez a mesma coisa. Mas, neste momento, o gesto de Francisco e suas palavras, conclamando à tolerância e à união contra os radicalismos, de qualquer radicalismo, é extremamente importante.

       Grupos radicais ameaçam o mundo cristão e o mundo muçulmano. O Boko Haram, na África, o Estado Islâmico e o Levante, na Síria e no Iraque, assim como os mais antigos como o Hezbollah e o Hamas, respectivamente no Líbano e na Palestina, não são uma ameaça, hoje, apenas para os cristãos e os judeus. São uma ameaça também para todos os regimes instituídos no mundo islâmico. Somados às crescentes correntes ultraconservadoras no mundo ocidental, compõem uma quadro de radicalização que pode levar ao predomínio da insanidade e do fanatismo em todo o planeta.
       É sempre bom lembrar que a luta contra o radicalismo já levou algumas vidas, como a do Mahatma Gandhi, assassinado por um ultranacionalista hindu que acusava o grande líder de ser responsável pela divisão do país, pela separação do Paquistão da Índia. Separação que foi aceita pelos líderes do governo indiano na tentativa de por fim a uma sangrenta e infindável guerra civil entre Hindus e Muçulmanos na região.
       Custou, nos anos 80,  a vida também de Anuar Sadat, presidente egípcio assassinado por um radical muçulmano que acusava o presidente de ter "traído a causa árabe" ao aceitar o acordo com Israel que garantiu a devolução da Península do Sinai ao Egito em troca do reconhecimento da legitimidade do estado de Israel.
   Esse mesmo radicalismo levou ao assassinato de Ytzak Rabin, primeiro-ministro israelense, nos anos 90, por um ultranacionalista judeu, que o acusava de "trair a causa judaica" ao aceitar o acordo para a desocupação de Gaza e da Cisjordânia para a formação da Autoridade Nacional Palestina, embrião do Estado Palestino, cuja criação foi determinada pelas Nações Unidas em 1947.
     Hoje, assassinos travestidos de líderes políticos e religiosos, levam milhares de pessoas à morte na Palestina, em Israel, na Síria e em todo o Oriente Médio, principalmente. A cada dia, assistimos a decapitações, ao assassinato em massa de cristãos, à venda de mulheres e crianças como escravas por se recusarem a aceitar o deturpado e doentio islamismo pregado por esses radicais.
    Apesar de alguns tolos, que deixam seus princípios ideológicos e seus interesses políticos falarem mais alto do que o amor ao próximo, e propõem o "dialogo" com esses assassinos frios, os mais importantes líderes do mundo, tanto do mundo cristão, quanto judeu, quanto muçulmano, entenderam o perigo que a fermentação generalizada do radicalismo, do fanatismo, representa para a humanidade.
      Nesse sentido, venho congratular o Papa Francisco e o Mufti de Istambul, por essa iniciativa, como exemplo para os bilhões de muçulmanos e católicos de todo o mundo, os dois líderes procuram a inspiração para superar a ignorância e a violência - mãe e filha do radicalismo, no grande e histórico edifício da Sagrada Sabedoria.
         Hagia Sophia: que você prevaleça sobre a consciência humana.
    


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

SOBRE CRIANÇAS E ATUNS

SOBRE CRIANÇAS E ATUNS



Certa vez, fui surpreendido por uma solicitação da escola em que meu filho estudava, em Belo Horizonte: eu deveria comparecer assim que possível para que a coordenação me fizesse ciente de problemas com o garoto por lá.
E fui. O problema é que ele tinha ido à escola sem a camiseta da escola, que era de uso obrigatório. E além disso, havia discutido com os funcionários da escola sobre o direito que ele tinha de assistir às aulas, mesmo estando sem o dito uniforme. E mais: se recusava a usar o mesmo.
O coordenador explicou a obrigatoriedade do uniforme e o objetivo dele. Entre outras coisas, disse que o objetivo do uniforme era para maior controle dos funcionários sobre quem entrava e saia da escola. E na rua, para identificá-los como estudantes e coisa e tal. Claro que não comentou que era também uma forma de propaganda da escola - propaganda paga pelos pais. E muito menos usou um velho argumento que eu já ouvira em outras plagas: o uniforme escolar evita que os alunos transformem a escola num “desfile de modas”. Evita que alunos menos abastados se sintam constrangidos pelas roupas “de marca”, dos colegas montados na grana.
Conversando com o garoto, perguntei porque não estava com o uniforme. Respondeu que estava com o uniforme na mochila. Estranhei. Perguntei, já bastante curioso: se está com ele aí por quê não usou? Resposta: “Não sou lata de atum”.
Ao ouvir aquilo, conclui que o garoto tinha me pegado, e que demandaria tempo e saliva convencê-lo a usar o tal uniforme.
Acontece que, por trás da frase “não sou lata de atum”, estão alguns princípios e ideias com as quais eu concordo.
Quando eu era “o garoto”, e depois “o adolescente”, tinha ouvido, na escola em que eu estudava, também em Belo Horizonte, o argumento de que o uniforme, de alguma forma, evita que se estabeleça uma “luta de classes” na escola. As diferenças socioeconômicas, da “vida lá fora”, não seriam trazidas para o ambiente escolar, onde todos seriam “iguais”...
Ora, isso é uma besteira gigantesca. É uma daquelas mentiras confortáveis, que as pessoas gostam de contar e acreditar.
Se as diferenças sociais não vinham pelas roupas, vinham pelo material escolar, vinham pelo carro ou ônibus que levava os alunos depois da aula. Vinha pela casa dos alunos, quando íamos fazer um trabalho ou quando era o aniversário de alguém. Ou simplesmente pelos assuntos, pelos temas de conversa, e principalmente, pelas “rodinhas”, pelos grupinhos que se formavam a partir dos sistemas de identificação que os próprios alunos construíam.
Meu pai sempre fez questão que estudássemos “nos melhores colégios”. Educação, pra ele, que também foi professor, sempre foi assunto prioritário. Com seis filhos, o esforço que a família fazia para manter todos nos “melhores colégios” também era muito grande.
Fiz o correspondente ao fundamental em um colégio particular de BH, e me orgulho muito disso: tanto pelo esforço de minha família em me oferecer o que considerava o melhor, quanto pelo colégio, que me ajudou a construir a base de toda a vida escolar.
Mas o colégio tinha muita gente rica. E claro que nós, os mais pobres, não frequentávamos as rodas dos mais ricos. Me lembro do aniversário de uma garota, colega de turma: ela convidou a todos, mas era da turminha dos pobres, e as meninas mais ricas boicotaram o aniversário dela.
Meu pai me levou até a casa dela, no dia do aniversário. Cheguei, educadamente, com o presentinho nas mãos. A garota estava sentada na porta da casa. Sozinha. Chorando. Eu fui o único colega de turma no aniversário dela. Único.
Eu tinha muitos colegas, mas poucos amigos. Os poucos, eram os “pobres”.
Em casa, meus pais nunca deram muita importância a isso. Nunca deram valor ou destaque às pessoas pelo que elas tinham, em termos materiais ou financeiros. Meu pai me apresentava às pessoas que respeitava mais ou menos assim: “Este é o professor Fulano, um dos maiores pesquisadores do país”... Ou assim: “Este é o Sicrano. É uma das pessoas de melhor caráter que eu conheço”. Assim também: “Este é Beltrano, Toca um berrante como ninguém”. Algumas vezes, o sujeito em questão era também rico, mas nunca foi um valor por si só.
Aprendi a dar valor às pessoas, ao que elas eram. E não ao que elas tinham. Inclusive a dar valor a quem ficava ou era rico por seu esforço e talento: nunca me senti roubado ou menor do que alguém que tinha ou tem dinheiro. Aprendi que talentos são vários e valiosos: do pescador inventivo, do vaqueiro dedicado, do motorista confiável, ao empresário brilhante.
Há poucos dias, uma mulher me pediu dinheiro na rua. Respondi: “não tenho nada no momento, minha senhora”. Uma pessoa ao meu lado, riu muito e disse debochado: “senhora”? Tive pena do pobre rapaz, que não compreendeu que o meu respeito é dirigido às pessoas, não a sua condição social.
Ainda hoje, é assim que eu olho para as pessoas: elas me impressionam pelo talento ou pelo caráter. Dinheiro é só a capa. E ninguém lê apenas capas: o que importa está nas páginas.
“Ah, mas não é assim que o mundo é”: ora, se o mundo como ele é merecesse tanto respeito, não haveria tanta gente querendo mudá-lo, não é?
Enfim, as pessoas e as instituições dirigidas pelas pessoas, tentam mascarar o mundo para as crianças, enquanto elas estão inseridas nele, vivem nele, e reproduzem nele sua própria humanidade. Crianças cobiçarão o lápis com borracha de Mickey do coleguinha. Crianças invejarão a popularidade de outras, ou o cabelo das outras, ou a bola bacana das outras. Adolescentes cobiçarão o boné, ou a mochila. Invejarão o namorado ou a namorada. Ou a falta de espinhas de alguém.
Crianças, adolescentes, adultos: são todos pessoas, são todos humanos e não há como preservá-los disso ou daquilo. A vida não respeita os muros da escola porque ela é a escola. A vida não poupa quem esteja de uniforme. Não poupa ninguém: estamos mergulhados no mesmo caldo. A biosfera é nosso aquário. Não há onde se esconder. A escola não vai proteger ninguém. O estado menos ainda. São ambos construções humanas: pessoas controlam as instituições. Pessoas controlam pessoas. Por isso, prefiro eu mesmo definir meus caminhos e ter claras, para mim, as minhas opções – é isso que me torna mais ou menos livre.
Há como se preparar. Há como esclarecer os valores e as ideias que fundamentam nossas opções diante da vida, Há como explicar aos filhos, aos amigos, a quem quer que seja, quais são os seus valores, no quê você acredita, e que abrir mão disso é abrir mão da sua vida, da vida que você pode escolher – é abrir mão da sua liberdade de ser quem quer ser. Somos o resultado de nossas escolhas e de nossos silêncios – que também são escolhas.
Realmente, e definitivamente, não somos atuns. Não há rótulo ou embalagem que nos contenha. Somos contidos apenas pelas redes que nós mesmos tecemos.

Somos um coletivo de singularidades. Nossa grandeza e nossa tragédia reside em nossas diferenças.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

QUERO MUDAR PARA O MEU BRASIL

QUERIA MESMO ERA MUDAR PARA O MEU BRASIL



O rescaldo eleitoral, até o momento, tem sido pior do que a campanha em si. Ontem mesmo um amigo falava sobre sua esperança de que tudo isso tenha contribuído para trazer o debate político para o cotidiano das pessoas, para que elas percebam que a política e os políticos são fundamentais para seu cotidiano e sua vida. Acho pouco provável: já tem gente por aí dizendo que “vai voltar para sua vida normal”, como se as decisões políticas não fizessem parte de sua “vida normal”. Consciências de ocasião certamente não produzem posições politicas  sólidas.
O que se vê, é basicamente o mesmo país de sempre, pelo menos na minha leitura. Eu, votei em Aécio Neves e fiz campanha por Aécio Neves. Pela alternância no poder, fundamental para qualquer país democrático, especialmente os países presidencialistas, onde uma vez eleito, dificilmente se consegue mudar o rumo das coisas sem grandes traumas ou rupturas institucionais – fossemos uma república parlamentarista mudanças na composição do parlamento poderiam significar correções ou novas escolhas de forma mais eficiente.
Eu votei em Aécio Neves por discordar da condução da economia brasileira como um todo, e por discordar do modelo de políticas sociais – algumas pessoas acreditam que “inventaram a roda” e que esse modelo petista é o melhor ou único que existe. Isso não é verdade: existem outros modelos mais eficientes e que tornam os mais carentes menos dependentes de quem afirma lhes conceder um favor, quando na verdade isso é um direito do cidadão e um dever do estado, somente. Aécio Neves não representava o modelo que eu considero ideal, mas era um passo nesse sentido.
Eu votei em Aécio Neves para interromper a transformação da corrupção em prática de estado, contra a institucionalização da corrupção que vem, inegavelmente, sendo feita neste país. A afirmação de que há corrupção para todo lado é pequena demais diante do que vem acontecendo.
Eu votei em Aécio Neves contra atitudes autoritárias comuns ao partido no poder, e sua derrota poderia significar um retorno a práticas menos abusivas e ao desaparelhamento do estado brasileiro.
Enfim, votei por motivos políticos, nos quais acredito. E continuo acreditando.
Mas, é claro que nem todos que votaram em Aécio Neves votaram pelos meus motivos. Vejo propagandas, por exemplo, retomando propostas separatistas de São Paulo: curiosamente, o mesmo estado onde nasceu o PT. O mesmo estado que projetou Lula e seu partido no cenário nacional. Das grandes lideranças petistas, a maior parte é paulista ou teve sua vida política ligada a São Paulo. Outros, são representantes de famílias tradicionais da elite paulistana, como os Matarazzo e os Suplicy.
Vejo também a pregação de ódio aos nortistas e nordestinos, enquanto durante toda a campanha troquei opiniões e esperanças com os amigos nortistas e nordestinos. E o ridículo “vou embora do Brasil” - na verdade, seria ótimo que fossem. É um direito de cada um viver onde deseja, e a nós, que nos preocupamos de fato com nosso país, a nós que desejamos construir um país melhor para todos nós, essas pessoas realmente pouco acrescentam.
Vejo também eleitores do PT indignados com essas atitudes. Estão certos, é de se indignar. Mas, acredito que deveriam se indignar também com os petistas que chamam os eleitores de Aécio de “filhinhos de papai”, de “fascistas”. Deveriam se indignar quando petistas destilaram seu ódio contra São Paulo, no primeiro turno. Deveriam se indignar ao afirmar que quem vota em Aécio “só pensava em si mesmo e não nos mais humildes”: o PT não tem o monopólio da sensibilidade social, sinto muito. Só há quem pense nela de forma diferente.
Deveriam se indignar quando petistas sugeriram que Rachel Sherazade deveria ser estuprada. Deveriam se indignar quando petistas fizeram ameaças de morte à família de Aécio Neves. E muitas coisas mais.
Não acredito na indignação destes diante da estupidez que vemos sobre o nordeste e outros temas: é uma indignação política, e não uma verdadeira defesa da tolerância e do respeito. Estes, foram tão preconceituosos, desrespeitosos, “fascistas” e intolerantes quanto aqueles.
Mas, felizmente ainda posso receber um abraço de meus alunos e amigos petistas ou não petistas mas que votaram em Dilma, por seus motivos tão válidos quanto os meus: apenas discordo deles. E isso não dói em nenhum de nós. Nos respeitamos de diversidade, que é a única coisa que existe de fato, entre as pessoas.
Portanto, declaro que continuo preferindo morar no meu Brasil, no Brasil onde moramos todos os que votaram em Aécio e todos que votaram em Dilma, e todos que votaram nulo, e todos que preferiram ir pescar do que perder tempo com candidatos que eles acreditavam que não iam mudar coisa alguma no país.
No meu Brasil, que luto pra construir e continuarei lutando, cada um vai poder fazer as opções políticas que quiser, por seus motivos, por seus valores e ideias, e os outros, que não compartilham deles, poderão sagradamente discordar . Discordar não faz ninguém mais ou menos inteligente que o outro: só diferente.
No meu Brasil, seremos diferentes alegremente. Só concordaremos que é proibido não tolerar a discordância. A diversidade é isso: conviver com a certeza de que ninguém é como nós, e não a tentativa de igualar todos nós.
O mundo é feito de diferenças, não de igualdades. Ideais que impunham igualdades aos desiguais já produziram tragédias demais na humanidade. Se formos dividir o país em função de nossas diferenças, construiremos um país com 200 milhões de ilhas.

E certamente eu sentiria falta de alguém que me dissesse: “eu discordo de você”. E morreria no tédio, na solidão das verdades absolutas.