Drummond e o "Diário Reinventado"

Drummond e o "Diário Reinventado"
Essa foto registra homenagem deliciosa e delicada do prof. Luis Carlos Maciel ao meu pai, Eduardo Cisalpino. O livro que o prof. segura nas mãos e que parece "comentar" com o poeta, é o "Diário Reinventado, de Eduardo Cisalpino.. Obrigado à Magda pela foto.

Jack Kerouac

Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas

domingo, 29 de dezembro de 2013

BOM DESCANSO, AMIGO!



BOM DESCANSO, AMIGO

Sentamos aqui os dois, no sofá da sala, bebericando alguma coisa e relembrando todos os momentos que vivemos juntos. O papo é fácil, corre tranquilo, como é comum aos velhos amigos e irmãos. Olho pra ele, entre uma risada e outra, e reparo como ele envelheceu. Não parece cansado, mas em seus olhos pude perceber o quão intensa tem sido sua vida.
Na verdade, sendo filho de quem é, imagina-se, ou ainda, depreende-se essa intensidade, esse misto de fugacidade e permanência: tudo passa tão rápido, mas é para sempre. Deste segundo, para a eternidade. Um rabisco, um átimo, um piscar de olhos, um leve sorriso: tudo isso se inscreve nos ossos do universo.
Nem sempre percebemos essa dimensão de nossas vidas. Muitas vezes nos tornamos reféns dos grandes gestos, dos episódios monumentais, das grandes emoções; e não percebemos que a vida está acontecendo aqui mesmo, neste bebericar em que ficamos, no doce olhar que encontro no meu cãozinho ao lhe dar um petisco. Na lembrança de minha avó, quando frito um bife. No cheiro de dama da noite que vem com a brisa, neste momento.
Eternos, todos eles eternos, o imenso e o comum, irmanados pela singularidade da existência e, portanto, igualmente fundamentais e inesquecíveis. E por isso igualmente belos e caros.
Meu velho amigo brinca com suas próprias lembranças, e conta de tantos lugares que conheceu neste mundo, que eu provavelmente só verei por suas palavras, e eu me lembro de Louis Armstrong, enquanto ele conta.
E enquanto ele narra seus dias, me lembro dos meus dias com ele.
Com ele, conheci centenas de novas pessoas. Pessoas lutando, muitas vezes contra o cansaço, contra as dificuldades econômicas e muitas vezes deixando os filhos em casa e tendo que lidar com a saudade e a culpa. Muitas vezes carregando a esperança de uma família inteira. Pessoas em busca de si mesmas, com seus olhos famintos, brilhantes de vontade e energia. Gente que carrega o próprio futuro, dentro de olhos tão jovens.
Com ele degustei um vermelho-laranja, salpicado de dourados e prata, regato a vento no rosto, no céu desta cidade. Carrego aquela beleza, desde de então, nos meus olhos, feliz de saber que todo o firmamento pode caber, tantas vezes, dentro de mim.
Com ele chorei partidas e chegadas. Com ele me surpreendi com gestos terríveis dos seres humanos, e refletimos sobre a capacidade que temos de levar a maldade e o egoísmo ao mesmo extremo em que levamos a caridade e a solidariedade.
Aprendi como a irresponsabilidade e o deslumbramento dos outros pode afetar sua vida, mas que é preciso continuar fazendo o seu melhor, mesmo assim.
E relembrei, com ele, que você é ninguém, sem sua família e seus amigos.
Tantas manhãs, tantos dias... tantas vezes, o mesmo sol surgiu, como nunca surgirá mais, na história do universo. Abençoada rotina que os deuses nos permitem.
Tantas noites quentes, embaladas pelas conversas com a minha companheira, com meus cachorrinhos, tecendo a teia dos meus dias no aconchego de casa. Costurando o dia que foi, planejando os pontos e desenhos futuros: e nada melhor que fazer isso onde você se sente mais seguro e querido.
Relembro um dos nossos dias mais divertidos, juntos, e ele sorri, acrescentando detalhes dos quais já não me lembrava.
Guerras, mortes, nascimentos, heroísmo, hipocrisia, nobreza...vimos muita coisa juntos, amigo. O melhor e o pior da humanidade. E o que somos é apenas o que filtramos disso tudo. Simples assim: façam suas escolhas.
É hora de ele me deixar sozinho, com as escolhas que eu fiz. É hora de outro amigo chegar, para as escolhas que farei. E um dia nos sentaremos também, eu e este velho novo amigo que chega. Seu olhar de criança não me engana: ele também é um filho do tempo. E essa “gente” arrasta milênios entre os dedos das mãos.

Mas, hoje, é dia de agradecer. Obrigado, 2013. Levo você comigo, assim como espero ter deixado algumas lembranças em seus dias. Um dia voltaremos a nos ver no colo do pai, meu irmão.

domingo, 8 de dezembro de 2013

A MOÇA DOS ÓCULOS

A MOÇA DOS ÓCULOS

Da janela embaçada do ônibus ela observava a cidade espreguiçando sua manhã molhada. Carros levantavam pequenas esteiras de água, chiando em busca de seu destino. O velho encurvado sobre o fino paletó resmungava talvez pelo esquecimento do guarda-chuva.
Ela tira os olhos da rua por um momento e acompanha os dedos até a pequena sombrinha japonesa florida. “Tia Aparecida”? “Aniversário do ano passado”?
Volta a cabeça novamente para a janela. Fecha os olhos por um momento e recosta a fronte no vidro. Depois brinca com o vapor da janela, desenhando corações.
Tem os cabelos compridos e trançados, de um negro profundo como o asfalto. Os óculos de armação amarela estão colados, na haste direita, com fita adesiva transparente. Talvez ela esteja indo até uma ótica, no centro da cidade.
O solavanco do ônibus em mais um buraco faz com que os óculos saiam do lugar. A mão, rápida em tentar segurar-se no banco da frente, acerta a nuca do passageiro que olha e sorri: ela abaixa a cabeça e ajeita os óculos. Ele certamente não ouviu o murmúrio de desculpas.
Sua blusa de malha verde contorna os seios pequenos sem entretanto revelar seus detalhes. A gola está desfiando na frente. Talvez ela esteja indo a uma das liquidações, tão comuns nesta época, no centro da cidade.
Seu olhar agora se volta para o outdoor gigantesco onde um cidadão em seu terno elegante vende as virtudes improváveis de um banco do Estado. Ela observa o anúncio mas parece não vê-lo. Seus olhos desfocam-se em devaneios e sua alma parece flutuar sobre os prédios.
Ela talvez esteja pensando no trabalho, em como será seu dia na... loja? escritório? Escola ? supermercado?
Maria das Tranças será Maria da Glória ou Renata ou Roberta ou Letícia ou Cinara ou Lorena Leocádia ou Estela Maris ou Geralda Magela ou Marta Márcia Marina Melissa Morena dos Óculos Amarelos...
O ônibus entra na grande avenida e ela acorda do transe profundo. Um olhar para a quadra seguinte e procura a campainha. Com o ônibus ainda em movimento, ela levanta-se, ajeita a blusa e a saia, joga uma das tranças para trás, abraça a bolsinha de plástico e prepara a sombrinha primaveril. Chovia e chovia.

Com seu andar tímido e quase flutuante, como quem não quer ser vista jamais. Como quem quer desaparecer de si mesma, ela desce do ônibus e rapidamente se perde no labirinto urbano. Se perde do meu olhar, talvez para sempre, no vendaval de concreto e carne da cidade.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A BLUSA AZUL

A BLUSA AZUL

Para Minha Avó Materna, Dona Nair
Para Dona Terezinha, com quem tive pouco tempo para conviver por aqui, neste planeta, mas que foi suficiente para construir um grande respeito e amizade

"Time is on my side (Yes, it is!)"
                          Rolling Stones

A velha senhora costurava sua vida ao tilintar sutil e frágil das agulhas de tricô. A sala vazia conspirava em móveis, louças e rendas, prenhe de personagens, plena de memórias.
Na cozinha, o silêncio do fogão dizia das tardes de sábado, ocupadas de filhos e netos e bifes e sonhos e desejos em espirais perfumadas inspirando a vizinhança e o mundo.
Na sala vazia e guardada em histórias ela tecia um inverno por vir. Como sempre fez, procurava agasalhar, aconchegar, proteger. Um arrepio, que percorreu-lhe a espinha dorsal da família, trouxe a certeza de que era inverno há décadas nas veias da vida.
A sombra de uma árvore centenária, sobre a qual os micos da praça procuravam sustento, rompeu a distância entre a sacada do apartamento e a rua, trazendo consigo a brisa ingênua da manhã, ainda virgem dos fatos. Os olhos insistem, o corpo resiste, os óculos são ajeitados seguidamente, espantando o cansaço, o frio e o frio. A cabeça curva-se ainda mais, as costas respondem, mas as agulhas retornam à dança dos nós.
Rostos povoam seus movimentos: ela é muitos. Filhos a se meter em más companhias, tombos de bicicleta, novos valores morais, velhos valores morais, casamentos, descasamentos, reconstruções, livros, amigas, amigos, maridos, minisaia, um tio alcoolista, a mulher do tio, um acidente de carro, a fazenda, os lucros, as perdas, reconstruções, mágoas, um certo natal, um anel de brilhantes, aquela música, um amor impossível, a família, as famílias, as mortes, os nascimentos dos netos, novas tecnologias, velhos remédios, um rosto sem nome, aquela fotografia, as viagens, as partidas, um que não voltou, e a saudade de um bicho de estimação.
À sombra da árvore onde os macaquinhos divertem crianças, recostada aos joelhos que esfriam à brisa da manhã, uma blusa toma forma. Assim como a Terra, é azul, segundo o oficial soviético. Uma blusa de lã azul vai entrar pra família, em breve.
Tanto passado passa pela lã da blusa futura. A velha senhora previne o frio por vir, nó a nó, enquanto a memória tece sua vida.
Um dia na praia, um botão de madrepérola, um sorriso de um moço no corso, uma revolução, uma prima brincando na chuva, uma surra, o colo do pai, uma carta, uma escola, duas professoras, um piano, um dia na capital, uma rosa entre as páginas de um caderno, uma fruta madura, uma receita de família, um corte no dedo, uma decepção.

A vida movia as agulhas de tricô na sala vazia. Mais um inverno por vir. A velha senhora observa modelos na revista alemã. O relógio de pêndulo ritma o silêncio. O apartamento levita: a velha senhora carrega a ampulheta do tempo na cestinha de costura.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

UM ABRAÇO NA LADEIRA TIRADENTES


"A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace"

Vitor Hugo





      Quando menino, o nome do meu pai, pra mim, era um "Mistério"... Olhava pra ele sempre a procurar...e não sabia o quê. Era uma sensação estranha, que por ser estranha, desconhecida em causa e consequência, flutuava do medo ao encantamento: se bem que em todo encanto há um sabor de medo.
       Pensando nisso, de encantos e medos, ou dos medos que existem nos encantos, ou ainda dos encantos que existem nos medos, penso, quase naturalmente no meu crescer. Mais especificamente, penso em como, na medida em que crescia meu pai crescia em mim. E, enquanto crescíamos - eu crescendo e ele crescendo em mim, o mistério se desnudava.
        Aí pelo final da adolescência, o mistério começa a se traduzir em palavras e ideias: eu admirava nele um olhar quase visionário, uma habilidade de enxergar nas entrelinhas, além da neblina das possibilidades, por sobre as serras gerais (para usar uma imagem que nos é cara). E eu pensava: como é que se consegue isso? Novamente, "mistério"...
         Já adulto, também pai, também colecionando já os ossos dos dias, também nas manhãs do Capão Verde, enquanto traduzíamos a entrada de cada pássaro na sinfonia do dia, à medida em que o sol se erguia de trás do morro.
     Hoje, lendo as crônicas de meu pai, o "mistério" se desfaz em toda sua grandeza e confirmo todas as suspeitas. O olhar curioso e sensível, o homem ilustrado construído sobre doces e sólidas raízes.
        Não há mistério: é o mistério da vida bem vivida, dos dias degustados, da sabedoria de quem sabe ler, na profundidade maior da leitura, que é aprender que nunca se leu tudo, que nunca de compreende tudo, que tudo está sempre por ser lido.
        Um homem, com a trajetória e a experiência de vida de meu pai, que ainda se deslumbra com as pequenas aranhas de edifício, com os pequenos  e imperceptíveis segredos de existir: é o "mistério". Um homem que percebe a passagem dos dias, que se adapta a eles para que ainda possa tirar o melhor desses mesmos dias, olha ainda com o olhar do menino da Ladeira Tiradentes. O homem experiente e culto que vê a vida com o deslumbre do menino que conhece, pela primeira vez, um sapato.
        Me acalentei no tapete mágico das palavras do meu pai. Sorri, chorei, refleti...me orgulhei.
         Eu também corri pela Ladeira Tiradentes, em Barbacena. Ainda trago na lembrança a casa do tio Vate. E a pastelaria Mexicana, onde aprendi a comer pastel com molho vinagrete.
           Eu que também conheci a Ladeira Tiradentes, conheço agora o Eduardo, a jogar bola de meia, rua abaixo...Dou-lhe um doce abraço e digo: que maravilhoso "mistério" é a vida, meu pai!

(Texto escrito para o prefácio do livro "Diário Reinventado", de Eduardo Cisalpino)
           



sexta-feira, 29 de abril de 2011

ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 11

SEGUINDO A PROCISSÃO, MAS NEM TANTO...

Mama, take this badge from me
I can't use it anymore
It's getting dark too dark to see
Feels like I'm knockin' on heaven's door
(Bob Dylan)


Moro a poucos metros de uma igreja. Como sinal dos tempos, eu acrescento: moro a poucos metros de uma igreja católica. Digo isso porque, quando criança, igreja e católica eram praticamente sinônimos. Dificilmente se via outro templo, outra igreja. Quando alguém dizia: “lá na minha igreja” era apenas uma questão de paróquia, não de religião.
Me lembro de apenas duas igrejas não católicas na minha infância: uma igreja anglicana e uma igreja metodista. Ambas em Belo Horizonte e ambas muito distantes, em termos culturais, para mim. Ser protestante era alguma coisa que pedia explicação. Evangélico era algo que não existia.
Se for puxar pela memória, então, o primeiro templo não cristão que conheci, acho que foi uma sinagoga, em Nova Iorque – ficava próxima ao hotel em que estávamos. A primeira mesquita que conheci foi em São Paulo, há uns vinte anos atrás.
Mas, não é nada disso que eu queria escrever. Pois então, retomo: moro a poucos metros de uma igreja católica, aqui em Timóteo. Simpática igreja, construída em forma de cruz, como a catedral de São Pedro, em Roma. Não a conheço por dentro, acredite se quiser. O que já nos dispensa dizer que não sou um bom católico, e muito menos uma pessoa religiosa – pelo menos não do jeito tradicional.
Tenho lá minhas pequenas e sagradas crenças, compondo um emaranhado de influências que vão do católico ao candomblé, passando por esquinas ainda mais exóticas, por estas terras, como a Cabala, o Sufi, o Zen-Budismo e outras mais misteriosas e imprecisas que é melhor nem comentar.
Novamente me desvio do tema desejado, portanto, volto ao ponto de partida: moro a poucos metros de uma simpática igreja católica, aqui em Timóteo.
Estamos na Páscoa e, como é comum nessa época, passou aqui pela frente de casa, uma procissão. Ou melhor, algumas procissões. A mais interessante delas foi a chamada Procissão do Senhor Morto: acontece na sexta-feira da paixão, no início da noite, à luz de velas.
Em casa, da pequena janela da sala, pude ver e ouvir a procissão passar, acompanhando os passos com seus cânticos, centenas de pontos de luz borboleteando na noite. Os sons, o ritmo, as velas: tudo aquilo me conduziu como um rio de luz pelo tempo, levando-me por outras procissões, vida adentro.
Quando garoto, em Barbacena, cidade natal de meu pai e onde passava preferencialmente as férias, convivi com esse universo. Era um verdadeiro teatro. As pessoas incorporavam seus papéis, representando as figuras importantes do cristianismo. As ruas da cidade eram preparadas ao longo de dias de muito trabalho, dedicação e arte: quilômetros de tapetes de serragem colorida e pétalas de rosa. Imagens eram lavadas e vestidas.
Os séquitos saiam de diferentes igrejas da cidade, reunindo centenas e centenas de pessoas, durante o dia e à noite.
Ano após anos, convive com elas. E o papel delas na minha vida foi mudando. Mas, nunca deixei de ter por elas um respeito silencioso, de quem procura, se não entender, pelo menos admirar o fenômeno da fé e seu efeito nas pessoas.
Menino, elas eram uma festa colorida e divertida. Adolescente, elas eram uma oportunidade muito boa para a paquera: em Barbacena, quase todo mundo se envolvia com as procissões, participando direta ou indiretamente. Era a oportunidade para ver e encontrar as meninas, com imensas possibilidades de fugir da atenção das famílias.
Adulto, elas eram um pequeno obstáculo a vencer para tomar uma cervejinha e jogar sinuca. Nas cidades pequenas e tradicionais de Minas, as procissões – especialmente da semana santa, são um episódio extremamente respeitado, são o auge da expressão de fé e devoção das pessoas. E os padres são pessoas temidas. Não se deve irritá-los ou afrontá-los, sob o risco de uma repreensão pública. Portanto, é preciso usar de criatividade e estratégia.
Certa vez, estávamos em Cordisburgo, passando uns dias na fazenda, durante a semana santa. E bateu aquela vontade de tomar umas e outras. Entramos no carro e fomos para a cidade, como se em Belo Horizonte estivéssemos e fossemos encontrar estabelecimentos comerciais abertos em um Sábado de Aleluia.
A cidade de Cordisburgo se resumia, nessa época, a três ou quatro ruas onde havia algum tipo de comércio. O mais eram ruas residenciais. Assim que chegamos, percebemos nosso erro de avaliação: tudo fechado. Como bons bebedores de cerveja, insistimos. Demos mais uma volta. E nada. Descemos do carro, sentamo-nos em um dos bancos da praça, para decidir o próximo passo: e agora? Claro que desistir ainda estava longe.
Fizemos um rápido levantamento das possibilidades: ir à outra cidade próxima, Paraopeba; ir ao posto de gasolina onde havia uma lanchonete que era também ponto de ônibus interestadual, às margens da BR 040.
De repente, percebemos uma movimentação curiosa: dois homens apontaram na rua e pararam diante da porta do bar, na esquina. Por uma fração de segundos, a porta se abriu, e eles foram engolidos pelo prédio, como se fosse um sapo de concreto e madeira devorando moscas.
Pensamos: eis aí o segredo do universo! Fomos até o bar. No caminho, pudemos ver a procissão que se aproximava- o motivo de estar tudo fechado. Aceleramos o passo. Batemos na porta do bar. A porta se entreabriu. Um homem, com olhar assustado disse: “Entra, entra, rápido, senão o padre vai ver”! Pulamos pra dentro e a porta se fechou atrás de nós.
O Bar estava lotado. Todo mundo tomando cerveja, ou uma pinguinha, e jogando sinuquinha, daquelas de ficha. Era o paraíso na Terra! E o paraíso estava completo: tira-gosto também estava rolando – frio, mas estava. É o que importa.
A procissão se aproximava. Um “olheiro” estava grudado em uma fresta da janela, atento aos fatos. Quando a procissão estava a alguns metros do bar, o dono bateu no balcão e ordenou: “todo mundo calado, nem um pio”! Ninguém falava, ninguém nem mesmo se mexia no bar. A cantoria foi se aproximando, lentamente. Em minutos, tomou conta do ambiente. Podíamos ouvir também o barulho dos passos das centenas de pessoas que seguiam a procissão. O silêncio e a imobilidade eram totais. Um homem olhava preocupado para o próprio copo de cerveja: parecia pensar que se a procissão demorasse muito a passar, a cerveja ia esquentar, mas ele não tinha coragem nem do breve gesto de levar o copo à boca.
Assim como veio, a cantoria foi se afastando. Até que o “olheiro” falou: “beleza, liberado”. E o bar inteiro, ao mesmo tempo, emergiu do silêncio. Copos tiniram, risos voaram soltos, tacos, bolas colidindo... mas a porta permaneceu fechada.
Na conversa com o pessoal, descobrimos que o maior medo de todos, era do padre descobrir. Disseram que ele criticava as pessoas, nominalmente, na missa, se a afronta aos costumes fosse grave. O que era considerado uma enorme vergonha.
O dono do bar saiu-se com essa pérola: “o mais difícil não é controlar a porta. O mais difícil é não deixar o cheiro dos tira-gostos “vazar” lá pra fora, porque aí o padre desconfia. Esquentar e fritar ou é muito antes ou depois da procissão. E ninguém reclama porque a coisa é séria”!
Voltamos pra fazenda no final da tarde, de barriga e cara cheias. Na época, a lei não era seca. Só a procissão. Para os que não sabiam abrir as portas do céu, claro...

domingo, 10 de abril de 2011

ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 10

BULLING: O NOVO QUERIDINHO DO BRASIL



Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

(Arnaldo Baptista/Rita Lee)

Quando eu tinha lá meus 13, 14 anos, o bulling já existia, mas, não tinha nome estrangeiro e, talvez também por isso, pouca gente ligava pra ele. Afinal, é muito mais bacana falar sobre bulling do que sobre zoação. Imaginem um desses psicólogos de plantão, ou o Globo Repórter falando sobre o tema: “Zoação”... Imaginem o Sérgio Chapelein, seríssimo, falando: “Hoje, no Globo Repórter, você vai saber tudo sobre... Zoação... Nem pensar.
Quando eu tinha 13 ou 14 anos, a zoação era tanta que dava até pra formar um time. Meu time da escola, por exemplo, tinha essa formação: Feijão, Meleca, Mancada, Preto e Minhoca. Na reserva, tinha ainda o “Deixa que eu chuto” (um garoto que tinha uma perna mais curta que a outra), o Montanha e o Zóio (um garoto meio vesgo).
Esses eram os famosos, os populares, já que levaram a turma por dois ou três anos a ser campeã do colégio. Pelo menos três desses aí foram também da seleção mineira de futebol de salão. Outros, como eu, eram também os feras da natação, que dava muito ponto nas épocas de jogos internos. Portanto, os apelidos eram verdadeiros troféus, eram o próprio bafo da fama.
Se fosse contar os outros, da minha sala e da minha série, mais os outros de outras séries que eu conhecia, contabilizaria pelo menos setenta por cento do colégio. Muita gente não era conhecida pelo nome, mas, pelo apelido. O Meleca, por exemplo, ficava puto da vida e dava porrada em quem o chamasse pelo nome. A sacanagem era dizer pros incautos o nome dele e dizer que ele detestava que o chamassem de Meleca. O cara ia lá e tomava uns tapas ao chamar o Meleca pelo nome.
Meleca, hoje, é músico de sucesso no estado. Feijão é advogado de renome. Montanha é comerciante, dono de várias lojas. Mancada é professor universitário, acadêmico de renome... e vai por aí afora.
Tive um professor de biologia que não tinha uma das pernas, do joelho pra baixo. Certa vez, viajamos com ele, para Parati, no estado do Rio. Na praia, ele tirou a prótese pra nadar e nós aproveitamos pra roubá-la e correr. Ele correu atrás da gente, pulando numa perna só, como um saci. Rimos muito, nós e ele. E ficou nisso.
Graças a Deus, nesse tempo, ninguém era “politicamente correto” e a gente tinha espaço para ser gente, simplesmente. O simples, ingênuo, cristalino, dificilmente tem “intenções”. São as intenções que ferem.
Tem um outro apelido de que me lembro, acho que era amigo de um dos meus irmãos: o “Cês Quatro”... Tinha esse apelido porque era muito gordo. Certamente foi um dos apelidos mais criativos que conheci. Reza a lenda que ele sentou-se sobre um cachorrinho “Pincher”, num sofá, e matou o coitadinho.
Não tenho notícia de nenhum deles por aí, matando os outros ou se matando.
Poderia ficar por aqui mais alguns parágrafos relacionando apelidos de toda espécie, como na área alimentar: Lingüiça, Salsicha, Presuntinho, Torresmo, Mandioca, Batata, Queijinho, Ovo Frito, etc, etc. Ou poderia ir pros mais clássicos: Rolha de Poço, Quatro Olhos, Mobby Dick, Baleia, Pintor de Rodapé, Salva-Vidas de Aquário, Jóquei de Minhoca, Espanador da Lua, Mão de Vaca, Casas da Banha, Troco, Dumbo, Orelha de Abano, Pixaim, Negão, Tiziu, Carvão, Macarrão da Santa Casa, Alemão, Galego, Omo Branco Total.....
Até o disciplinário do colégio e o padre que tomava conta da cantina, tinham apelidos. Eram, respectivamente, o Geraldo Jararacá – com a variação também para Geraldo Bigodão, e o Padre Coqueiro – usava de maneira doloridamente habilidosa sua bengala contra a cabeça da gente na fila da cantina, quando alguém “furava” a fila.
Claro que muitos não gostavam dos apelidos. Claro que, esporadicamente, algumas confusões aconteciam. Mas, nunca tive notícia de ninguém matando ninguém por causa disso. Pessoas infelizes? Com certeza haviam. Gente marcada por isso, ao longo da vida? Com certeza. Mas, nunca vi reportagem sobre isso, nunca vi psicólogo na TV falando sobre isso, nunca tive palestra na escola sobre o tema. Nada, nada, nada.
Não estou aqui querendo dizer que isso é “normal” e muito menos inofensivo. Estou querendo, na verdade, discutir o outro lado dessa história. Ou, colocando de outra forma: o que fez dos apelidos e zoações uma coisa tão séria?
Acho que há ingredientes novos nessa história, que muita gente não está considerando. Acho que esses ingredientes novos são muito mais contundentes do que as zoações. Eles fazem das zoações alguma coisa de insuportável, transpondo em muito os efeitos disso na minha adolescência.
Descendo pela rua onde moro, colho algumas pistas do que quero dizer: de cima abaixo, as casas ostentam cercas elétricas, muros altos e alarmes. Gente se tranca lá dentro, protegendo-se da violência dos nossos dias. Da casa-fortaleza, vão ao clube restrito aos seus iguais. Do clube restrito, vão ao Shopping e não às lojas da cidade, porque o shopping tem os seguranças de plantão. Põem os filhos nas escolas cercadas de muros, câmeras e portaria rigorosa.
Quando penso que eu, filho da classe média, brincava na rua e jogava bola na favela perto de casa, nos morros do bairro da Serra, em Belo Horizonte, penso também que pouca gente acreditaria nisso.
Tinha amigos ricos e amigos paupérrimos. Tive amigos bandidos, dos dois lados da bandidagem: traficantes e políticos (desculpem, não resisti à piada...).
O que estou querendo dizer, afinal, é que as casas-fortalezas de hoje refletem o estado de nossas almas, de nossos corações. Tudo é uma grande ameaça. Tudo pode nos matar, até os apelidos, até as zoações. E estamos ensinando isso aos nossos filhos. Ou não estamos mais sendo capazes de ensinar aos nossos filhos que isso não mete medo em ninguém, que isso é pequeno e não ameaça. Temos armas pra isso, temos imunidade contra isso, se quisermos.
Falamos, orgulhosos, sobre os preconceitos que superamos, sobre as desigualdades que diminuímos, mas, o fato é que construímos uma sociedade muito, mas, muito mais intolerante e cruel do que décadas atrás.
Se hoje há mais espaço para negros, índios, mulheres, homossexuais, etc, etc, há muito menos espaço para as pessoas, para as pessoas como elas são – não como querem que sejamos.
O que nos cerca parece ser um mundo da perfeição. Um mundo de gente bonita, magra, “bem sucedida”. E ninguém suporta o contrário. Adolescentes andam por aí fazendo operação de redução de estômago aos 14 anos – certamente com o consentimento dos pais que também não suportam ter um filho “com defeito” e dizem que estão procurando a “felicidade” deles. Que felicidade espera uma pessoa que aprendeu que a felicidade são os outros? Meninas andam por aí morrendo de inanição por causa disso.
Existe um negócio chamado “moda infantil”. Quando eu era criança, moda infantil era a roupa velha dos irmãos mais velhos ou qualquer bosta de pano que a gente pudesse colocar sobre o corpo o mais rápido possível pra ir brincar logo na rua.
Roupa certa, cabelo certo, orelha certa, dentes certos, sapato certo, barriga certa, mochila certa, lápis certo, celular certo, carro certo, nariz certo, colégio certo, amigos certos, emprego certo... É coisa certa demais pra quem é tão errado como nós.
Outro dia vi um cidadão falando na TV que era preciso que todo mundo se depilasse, por uma questão de higiene.... A humanidade sobreviveu com pelos por milênios, mas agora quem tem pelos é um porco. É o meu caso. Sou um porco cabeludo e não pretendo me depilar pra atender à vontade dos outros. Prefiro fuçar na minha laminha, tão cara e conhecida, a comprar como paraíso o chiqueiro dos outros. A minha felicidade não pertence nem a ele nem aos meus pelos. Pertence à minha alma. E ela não se incomoda nem um pouco com os “defeitos” externos dos outros. Ela quer ver quem eles são, não o que eles são.
Não importa ser um cretino, mal caráter, sacana, vendido, superficial, cruel... desde que você seja o ideal de uma sociedade irreal.
Muitos não suportam essa corrida louca pra lugar nenhum. E se matam. E matam. Por algo que só existe nos comerciais. Há quem acredite que esse mundo de photoshop existe de fato.
Acho que há um imenso despreparo das pessoas, de um modo geral. Quanto mais opções temos, menos opções fazemos. Quanto mais podemos, mais deixamos que nos digam o que fazer, o que pensar, e quem devemos ser, na aparência. Vivemos um mundo de vitrine de loja no qual somos os manequins.
Por vezes penso que uma entidade controladora usurpou nosso direito à humanidade, nosso direito a sermos nós mesmos e nos impôs uma cartilha de “como ser” que nós perseguimos, mesmo sabendo que é inútil, porque nós não somos perfeitos e sempre existiram os outros a nos lembrar disso. Sempre haverá alguém mais “perfeito”, mais “certo” que nós.
Conheci uma garota de 14 anos, magérrima, que chorava diante do espelho por causa de uma barriga que só ela via. Chorava e dizia: porque eu não sou magrinha como a “fulana” ? Essa nossa sina?
Tudo, hoje, quanto aos valores, é relativizado. Mas, quanto à aparência, não há concessões. Por isso, uma zoação toma essa dimensão sobre-humana. Porque vivemos um mundo de plástico, um mundo para-humano, onde a felicidade pertence cada vez mais aos outros e cada vez menos a nós mesmos.
Considerando que a busca pela felicidade é natural em nós, é parte de sermos humanos, extirpá-la de nós e deixá-la nas mãos dos outros – outros que são nosso inferno, é cruel demais... cada vez menos pessoas sobrevivem e sobreviverão a isso.
Bulling é muito menor que isso. Mas, ninguém quer ver. Implicaria em rever todas as nossas prioridades, rever todos os nossos objetivos, toda essa indústria do plástico e da plástica.
Eu, por meu lado, aprendi a me amar tanto e a conhecer tanto a pequenez de nós todos, que não me iludo com isso e insisto em considerar que a minha felicidade é o que EU quero pra mim, e não o que me dizem pra querer.
Ser feliz é tudo que queremos. E a sociedade está tentando nos convencer de que há uma fórmula para isso. É uma cruel mentira. Mentira que nós mesmos inventamos pra nós. E somos nossas próprias vítimas.

terça-feira, 8 de março de 2011

ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 09

AS PESSOAS

Há pouco tempo atrás, postei aqui um pequeno texto sobre uma árvore, aqui de casa, que foi podada porque suas folhinhas cometiam o terrível crime de cair nas plácidas e clorídricas águas da piscina do vizinho.
Considerando a situação que nós impingimos ao planeta, isso me pareceu revelador, quanto às nossas opções, como seres humanos, diante desse mesmo planeta e também reveladora das nossas idiossincrasias.
Pois tenho motivos para acreditar que as folhas, simples folhas, tem um imenso potencial idiossincrático. Eis que outro episódio se impõe, apenas duas casas abaixo, na mesma rua, com as pobres folhas, que inocentemente caem sem pedir opinião, sem escolher freguês. Acredito profundamente que elas não caem de caso pensado.
Acontece que duas casas abaixo vive uma senhora e sua família. Em frente à sua casa, há uma árvore. Pequena árvore, ainda jovem e, agora, mutilada. Até o tronco, pobrezinha. E qual foi seu erro, qual foi o pecado que lhe trouxe a serra? Deixou cair suas folhas sobre a calçada da dita senhora.Irada, a senhora podou a árvore e ainda arrastou sua funcionária até a calçada e afirmou, peremptória: “Fulaninha, a partir de hoje, não admito uma única folha na minha calçada”
Para muitos, essa é uma frase e uma situação absolutamente “normal”, corriqueira, cotidiana e não merece uma crônica. Os senhores que, por acaso, vierem a ler essa pequena crônica, talvez não concordem comigo, ou irão se espantar com o que vou dizer: para mim, é uma frase no mínimo surpreendente.
Senão, vejamos... Na primeira casa à direita, a pouquíssimos metros da calçada imaculável dessa senhora, há uma árvore. Sobre a qual a senhora não tem a mínima autoridade ou jurisdição. E não me parece que tenha autoridade também sobre o vento, a chuva e que dirá sobre as estações do ano.
E há agravantes: em frente à minha casa, que é a segunda à direita, há duas enormes e frondosas árvores. E, indisciplinas, como eu, liberam alegremente suas folhas – suas muitas folhas, em profusão, pra todo lado.
As “minhas folhas” e as folhas da vizinha certamente chegarão à calçada da desfolhada senhora, para desespero dessa e possível desemprego de sua funcionária.
O que dizer disso tudo? Eu, digo: como as pessoas são curiosas, não é?
Fico também pensando: como é que uma pessoa, ou, o que é que nos leva a complicar tanto a vida? O que é que nos faz criadores de cavalos com chifres? Pra ser mais direto: o que é que leva alguém a se incomodar tanto com algumas folhas em sua calçada? O que é que leva alguém a se incomodar com sua calçada, meu Deus do céu!
Acordo de madrugada com uma idéia monstruosa: imaginem um lustroso cocô de cachorro na calçada dessa senhora? Imaginem a angústia, o pavor, o desespero. Imaginem o grito seco rasgando a imensidão do universo da senhora ao vislumbrar a modesta contribuição do cãozinho à sua paranóia? ...
Como as pessoas são curiosas... Mas, vamos aprofundar ainda mais essas esquisitices... E considerem que vivemos, os personagens dessa crônica, em uma cidade muito quente, que fica num vale, a 400 metros, em média, acima do nível do mar. Some calor com pressão atmosférica e adicione o fato de ventar pouco por ser um vale e encontrará o clima por aqui, no verão. Sabendo disso, continuemos...
Acontece que essa mesma senhora, e seu marido, ritualmente, todas as manhãs, tiram o carro da garagem, muito cedo e estacionam o carro... advinhem aonde? Vai lá, dá um chute aí, amigo.
Se você pensou que eles estacionam o carro na minha porta, sob as frondosas e folhentas árvores, você acertou. E porque tão cedo? Para que ninguém lhes “tome” a vaga, sob a sombra das árvores... Folhenta sombra das árvores....Certamente aprecia a sombra, mas, não sei o que fazem com as folhas que caem sobre o carro... folhas que o carro conduz a sua garagem e a sua santíssima calçada.
Outro dia flagrei o marido da senhora olhando rabugento para um pacato cidadão que havia parado o carro, antes dele, na sombra “dele”. Faltou muito pouco para que ele fosse além, para que desse o passo da agressão (agressão que cometeu silenciosamente contra a árvore que, provavelmente, ele mesmo plantou): olhava, bravo, e balançava a cabeça, em desaprovação àquele gesto “abusado” do pacato cidadão... cometido na MINHA porta.
Como são curiosas as pessoas... O ódio ás folhas não se estende ao ódio à sombra que elas produzem. E pior: não sei se eles têm a consciência de que não há sombra de árvore sem folhas de árvore. Seu grande número, sua detestada profusão é o berço da sombra. Ou ainda podemos pensar: folha na calçada dos outros é refresco... Quer a sombra, mas não as folhas.
Como são curiosas as pessoas... Podemos estender essa experiência, esse episódio, a muitas outras situações da vida, em que nós queremos as coisas, queremos sempre o bônus das coisas, mas, raramente queremos pagar o ônus das coisas.
Quantos de nós conhecemos pessoas assim, principalmente hoje em dia, que querem realizar seus desejos, mas não querem arcar com as dificuldades que possam advir disso. Nós, professores, especialmente, vemos jovens adultos e adolescentes que querem, querem e como querem. Anseiam pelos frutos, mas não querem os sacrifícios de plantar a árvore que gera esses frutos. Querem colher, mas não querem plantar. Quantos pais angustiados já atendi, ouvindo deles a frase: “não sei de onde esse garoto tirou isso!”
Bom... nós sabemos, não é? E isso não é de “hoje em dia”. Isso, são as pessoas, isso, somos nós. Hoje, ontem e, provavelmente, sempre.
Como são curiosas as pessoas... Ainda hoje, ao guardar meu carro na garagem, observei a profusão de folhas na calçada, na rua, no carro... Olhei bem pra elas, buscando entender o ódio da tal senhora, mas, só consegui a tradicional simpatia, a velha sensação de apreço. Veja folhas e leio árvores, e pra mim elas significam aconchego, leveza, força, esperança, eternidade. Pois então, que venham as folhas, se elas significam árvores.
Como são curiosas as pessoas...O que será que nos leva a atitudes assim ridículas? Frustração? Será que a dimensão titânica dos problemas da vida, por vezes massacrante, nos faz redimensionar o nada e transformá-lo num problema para voltar a ter a sensação de que podemos superar, podemos controlar, “resolver”? Será que a impotência nos faz enxergar tudo com esses olhos ranzinzas, esse dia-a-dia cinza?
Me vem à cabeça a personagem da rainha vermelha, de Lewis Carrol: cortem-lhe a cabeça, cortem-lhe a cabeça. Minha vizinha, a rainha vermelha... e sua pobre árvore, a pagar contas que não são suas...
Me vem também um verso de Renato Russo: “É preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã” . E o verso me doeu, por vários motivos. Primeiro porque acho que realmente não há outra forma de amar as pessoas: acredito cada vez menos no amanhã, Renato...É preciso amar as pessoas, meu caro Renato, mas, confesso, que pra mim é mais fácil amar as folhas... Afinal, pra mim, as folhas fazem algum sentido...