Drummond e o "Diário Reinventado"

Drummond e o "Diário Reinventado"
Essa foto registra homenagem deliciosa e delicada do prof. Luis Carlos Maciel ao meu pai, Eduardo Cisalpino. O livro que o prof. segura nas mãos e que parece "comentar" com o poeta, é o "Diário Reinventado, de Eduardo Cisalpino.. Obrigado à Magda pela foto.

Jack Kerouac

Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas

terça-feira, 11 de março de 2014

O MAGO

O MAGO



O menino jogava futebol de botão. Concentrado, tocava habilmente o beque - o beque central, o “center-half”, como dizia o avô. Aquele beque era seu orgulho. Uma antiga e enorme lente de relógio de bolso. Amarelada pelo tempo, com pequenas rachaduras nas bordas, certamente já inútil como lente de relógio, mas de enervante eficiência para os adversários à frente da área do “Estrelão”.
Um passe perfeito colocou em jogo o meio-campista de matéria plástica, nascido de muito trabalho com pedaços de plástico, fogo, fôrma de empadinha e lixa d’água. Ajeitou... mais um toque para a direita... e avisou, solene: “pra gol”. Sacudiu os ombros, posicionando melhor as mangas da camisa do Cruzeiro e... “agarrrrrrrrrrra o golllleeeeiiiiiirrrrrooo”! Droga. O maçudo goleiro do adversário, uma caixa de fósforos recheada com pedaços de chumbo e revestida com durex, era uma verdadeira muralha.
Deixou a casa do amigo amargando uma derrota por 5 a 2. Pudera, o cara era campeão da rua, dono do “estádio”; jogava com um time de acrílico que tinha o escudo do Galo em cima... Troço de primeira, caro pra caramba... Tinha que ser atleticano o campeão da rua, porra!?
Foi até o bar. O bar, muito chique: balcão de pedra, granito cor-de-areia, banquinhos com acento em courino laranja; um baleiro de seis bocas, giratório, que rangia divinamente como um carrossel. Um carrossel musical de açucares rodando, rodando, à espera de uma decisão do freguês enebriado. Depois, a tampa de lata na mão do português, o dinheiro amarrotado no balcão e o equivalente em balas crescendo sob o olhar esgazeado e a voz contando: “cinco... dez... quinze... e uma de “pinga”.
Lugar de delícias aquele bar. Além dos doces, o menino era também freguês do “pão molhado” e da porção de farofa colocada pelo balconista num quadrado de papel de embrulho e degustada aos “tapas na boca” na escadinha vermelha do bar.
O menino passava o fim de semana com os avós. Ele, o avô, bancário, do Banco da Lavoura: camisa “Volta ao Mundo”, gravatinha preta com prendedor prateado. Criava pássaros. Criava, especialmente, um curió afamado no bairro. Um curió que valia ouro. E o avô limpava-lhe a gaiola, balanceava cientificamente a ração, proteinizando-lhe o canto. Atentava também para o estado emocional de sua jóia, dispensando ao pássaro algumas horas diárias de boa e amigável prosa. Eram como um ourives e sua pepita rara.
A avó fazia sonhos recheados com doce de leite, contava casos de Pirapora e de Nova Era; e lia Agripa Vasconcelos. À noite, sentava-se em frente à TV e ao lado da pequena caixa acústica, encantadora obra de engenharia eletrônica do marido, para acompanhar a crescente degradação moral da televisão brasileira. Ela não escutava bem, mas tinha olhos muito críticos.
Tarde da noite, o menino assistia sozinho ao seriado “Combate” e pensava que o dia seguinte era um domingo. Pensava que domingo era dia de feira e que o homem estaria lá. Pensava que o homem, amanhã, lhe faria uma faca, logo cedo, na feira, como prometera o avô.
Então, domingo. Um domingo azul como os desejos infantis. Ele e o avô. A sacola de feira colorida.
O menino tentava, debilmente, controlar a ansiedade brincando de contar carros a caminho da feira. Passaram pelo bar, subiram a rua, passaram pela sapataria. O avô conversava, da portinha minúscula, com um homem lá dentro. O menino sentia o cheiro de couro e graxa que vinha do outro lado do balcão de madeira amarelo. E via, na rua, outras pessoas, com outras sacolas coloridas, também a caminho da feira. A feira logo ali, a poucos metros. E a conversa interminável do avô com aquela voz antiga que vinha do cheiro.
Distraiu-se observando a “joaninha” da polícia civil que parou em frente ao bar. O “polícia” que estava ao volante desceu, entrou no bar, voltando pouco depois com um maço vermelho de “Capri” nas mãos.
- “Passo na volta, então, “Seu” Geraldo”.
Caminhavam outra vez. Cada vez mais gente. O burburinho aumentando, o ar agitado. A feira estendia-se por mais de três quarteirões, no alto da rua. Lá, do final, na esquina onde havia um armarinho, podia-se ver o viaduto, com seus arcos feito costelas expostas de um animal gigantesco.
Onde será que o avô iria primeiro? Onde? Caminhava e aguardava, o coração aos pulos. Uma alegria quente ganhava o menino na medida em que adivinhava nos passos do avô a barraca do homem, daquele homem.
Sorria como só os meninos quando pararam em frente à barraca. Lá estava ele: o mago. O homem que respirava desejos e exalava realidade.
O mago deixou de lado a madeira que encantava para cumprimentá-los. O avô perguntou pela gaiola que encomendara. O avô encomendara uma gaiola nova para sua jóia canora. Encomendara uma gaiola ao mago da madeira; encomendara, portanto, uma gaiola mágica.
O homem, o mago da feira, disse : “Aqui está, mas o senhor me dê alguns minutos para os últimos retoques”. “Claro”, respondeu o avô. E o mago iniciou a conversa tradicional, o ritual de passagem de suas criações, como sempre iniciava: “Imagine o senhor que”... E prosseguiu na mesma linha: “Agora, imagine o senhor se”...
O menino só via as mãos do mago e os pequenos pedaços de madeira sendo meticulosamente acertados, lixados, encaixados. Como era possível? - a alma do menino se perguntava. As lasquinhas e a serragem ganhavam o vento leve do domingo azul, como sementes da capacidade criadora humana; como pirlimpimpim da fada Sininho, no filme de Walt Disney.
A conversa seguia. A madeira parecia chamar pelo curió: “Pois o senhor imagine que”... Ziiiit, ziiiiit, ziiiit... E o olhar terradonunca do menino.
Terminada a gaiola, o avô e o mago voltaram-se para ele. Era chegada a vez do seu desejo. Uma faca, uma faquinha de madeira. Risos, um afago nos cabelos... “É pra já, meu rapaz”!
O mago escolheu, tateando com seus dedos gepetos, o toco de madeira adequado ao desejo proclamado na feira pelo menino. E começou a trabalhar, desta vez em silêncio. Ziiit, ziiit, zap, zap, ziiit: a madeira. Nascia a faquinha, a faquinha de madeira. Ele era menino; meninos não podem andar com facas. Mas, em breve, teria uma faca, de madeira, feita ali na feira, pelo mago, é claro.
Então, aquele homem, aquele mago azul do domingo, entregou-lhe a faquinha, sorrindo. Ele, menino, não disse nada, naturalmente: seus olhos encarregaram-se de transmitir a magia do momento.
Saíram, menino e avô, pela feira. Nas mãos, a faca, a faquinha. E já brincava. O avô comprava legumes, frutas e jiló tipo extra para o curió, enquanto o menino matava piratas, padres e professoras: só pra ficar no pê, que era uma letra que tinha uma língua inteira. Voavam membros, agonizavam vilões aos montes. O instrumento mágico deslizava pelos ares mortais nas mãos do herói em calças curtas.
Em casa, guardou, com cuidados de louça, sua faquinha. Bem junto ao beque de lente e ao meio-campista de matéria plástica.
Passou algum tempo, o menino, sem voltar à casa dos avós. Preparava-se financeiramente para realizar um novo desejo. E quando finalmente voltou, numa sexta-feira sombria, - vazia de cheiros, ventos estranhos, nuvens pesadas, crianças em casa - , recebeu a notícia: o homem, o mago da feira, “o senhor imagine”, havia morrido.
Morreu? O que é isso... morreu? Como assim, morreu? O homem da feira?... Ele morreu?

As crianças têm profundas decepções com o sobrenatural.


Murilo Cisalpino

domingo, 29 de dezembro de 2013

BOM DESCANSO, AMIGO!



BOM DESCANSO, AMIGO

Sentamos aqui os dois, no sofá da sala, bebericando alguma coisa e relembrando todos os momentos que vivemos juntos. O papo é fácil, corre tranquilo, como é comum aos velhos amigos e irmãos. Olho pra ele, entre uma risada e outra, e reparo como ele envelheceu. Não parece cansado, mas em seus olhos pude perceber o quão intensa tem sido sua vida.
Na verdade, sendo filho de quem é, imagina-se, ou ainda, depreende-se essa intensidade, esse misto de fugacidade e permanência: tudo passa tão rápido, mas é para sempre. Deste segundo, para a eternidade. Um rabisco, um átimo, um piscar de olhos, um leve sorriso: tudo isso se inscreve nos ossos do universo.
Nem sempre percebemos essa dimensão de nossas vidas. Muitas vezes nos tornamos reféns dos grandes gestos, dos episódios monumentais, das grandes emoções; e não percebemos que a vida está acontecendo aqui mesmo, neste bebericar em que ficamos, no doce olhar que encontro no meu cãozinho ao lhe dar um petisco. Na lembrança de minha avó, quando frito um bife. No cheiro de dama da noite que vem com a brisa, neste momento.
Eternos, todos eles eternos, o imenso e o comum, irmanados pela singularidade da existência e, portanto, igualmente fundamentais e inesquecíveis. E por isso igualmente belos e caros.
Meu velho amigo brinca com suas próprias lembranças, e conta de tantos lugares que conheceu neste mundo, que eu provavelmente só verei por suas palavras, e eu me lembro de Louis Armstrong, enquanto ele conta.
E enquanto ele narra seus dias, me lembro dos meus dias com ele.
Com ele, conheci centenas de novas pessoas. Pessoas lutando, muitas vezes contra o cansaço, contra as dificuldades econômicas e muitas vezes deixando os filhos em casa e tendo que lidar com a saudade e a culpa. Muitas vezes carregando a esperança de uma família inteira. Pessoas em busca de si mesmas, com seus olhos famintos, brilhantes de vontade e energia. Gente que carrega o próprio futuro, dentro de olhos tão jovens.
Com ele degustei um vermelho-laranja, salpicado de dourados e prata, regato a vento no rosto, no céu desta cidade. Carrego aquela beleza, desde de então, nos meus olhos, feliz de saber que todo o firmamento pode caber, tantas vezes, dentro de mim.
Com ele chorei partidas e chegadas. Com ele me surpreendi com gestos terríveis dos seres humanos, e refletimos sobre a capacidade que temos de levar a maldade e o egoísmo ao mesmo extremo em que levamos a caridade e a solidariedade.
Aprendi como a irresponsabilidade e o deslumbramento dos outros pode afetar sua vida, mas que é preciso continuar fazendo o seu melhor, mesmo assim.
E relembrei, com ele, que você é ninguém, sem sua família e seus amigos.
Tantas manhãs, tantos dias... tantas vezes, o mesmo sol surgiu, como nunca surgirá mais, na história do universo. Abençoada rotina que os deuses nos permitem.
Tantas noites quentes, embaladas pelas conversas com a minha companheira, com meus cachorrinhos, tecendo a teia dos meus dias no aconchego de casa. Costurando o dia que foi, planejando os pontos e desenhos futuros: e nada melhor que fazer isso onde você se sente mais seguro e querido.
Relembro um dos nossos dias mais divertidos, juntos, e ele sorri, acrescentando detalhes dos quais já não me lembrava.
Guerras, mortes, nascimentos, heroísmo, hipocrisia, nobreza...vimos muita coisa juntos, amigo. O melhor e o pior da humanidade. E o que somos é apenas o que filtramos disso tudo. Simples assim: façam suas escolhas.
É hora de ele me deixar sozinho, com as escolhas que eu fiz. É hora de outro amigo chegar, para as escolhas que farei. E um dia nos sentaremos também, eu e este velho novo amigo que chega. Seu olhar de criança não me engana: ele também é um filho do tempo. E essa “gente” arrasta milênios entre os dedos das mãos.

Mas, hoje, é dia de agradecer. Obrigado, 2013. Levo você comigo, assim como espero ter deixado algumas lembranças em seus dias. Um dia voltaremos a nos ver no colo do pai, meu irmão.

domingo, 8 de dezembro de 2013

A MOÇA DOS ÓCULOS

A MOÇA DOS ÓCULOS

Da janela embaçada do ônibus ela observava a cidade espreguiçando sua manhã molhada. Carros levantavam pequenas esteiras de água, chiando em busca de seu destino. O velho encurvado sobre o fino paletó resmungava talvez pelo esquecimento do guarda-chuva.
Ela tira os olhos da rua por um momento e acompanha os dedos até a pequena sombrinha japonesa florida. “Tia Aparecida”? “Aniversário do ano passado”?
Volta a cabeça novamente para a janela. Fecha os olhos por um momento e recosta a fronte no vidro. Depois brinca com o vapor da janela, desenhando corações.
Tem os cabelos compridos e trançados, de um negro profundo como o asfalto. Os óculos de armação amarela estão colados, na haste direita, com fita adesiva transparente. Talvez ela esteja indo até uma ótica, no centro da cidade.
O solavanco do ônibus em mais um buraco faz com que os óculos saiam do lugar. A mão, rápida em tentar segurar-se no banco da frente, acerta a nuca do passageiro que olha e sorri: ela abaixa a cabeça e ajeita os óculos. Ele certamente não ouviu o murmúrio de desculpas.
Sua blusa de malha verde contorna os seios pequenos sem entretanto revelar seus detalhes. A gola está desfiando na frente. Talvez ela esteja indo a uma das liquidações, tão comuns nesta época, no centro da cidade.
Seu olhar agora se volta para o outdoor gigantesco onde um cidadão em seu terno elegante vende as virtudes improváveis de um banco do Estado. Ela observa o anúncio mas parece não vê-lo. Seus olhos desfocam-se em devaneios e sua alma parece flutuar sobre os prédios.
Ela talvez esteja pensando no trabalho, em como será seu dia na... loja? escritório? Escola ? supermercado?
Maria das Tranças será Maria da Glória ou Renata ou Roberta ou Letícia ou Cinara ou Lorena Leocádia ou Estela Maris ou Geralda Magela ou Marta Márcia Marina Melissa Morena dos Óculos Amarelos...
O ônibus entra na grande avenida e ela acorda do transe profundo. Um olhar para a quadra seguinte e procura a campainha. Com o ônibus ainda em movimento, ela levanta-se, ajeita a blusa e a saia, joga uma das tranças para trás, abraça a bolsinha de plástico e prepara a sombrinha primaveril. Chovia e chovia.

Com seu andar tímido e quase flutuante, como quem não quer ser vista jamais. Como quem quer desaparecer de si mesma, ela desce do ônibus e rapidamente se perde no labirinto urbano. Se perde do meu olhar, talvez para sempre, no vendaval de concreto e carne da cidade.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A BLUSA AZUL

A BLUSA AZUL

Para Minha Avó Materna, Dona Nair
Para Dona Terezinha, com quem tive pouco tempo para conviver por aqui, neste planeta, mas que foi suficiente para construir um grande respeito e amizade

"Time is on my side (Yes, it is!)"
                          Rolling Stones

A velha senhora costurava sua vida ao tilintar sutil e frágil das agulhas de tricô. A sala vazia conspirava em móveis, louças e rendas, prenhe de personagens, plena de memórias.
Na cozinha, o silêncio do fogão dizia das tardes de sábado, ocupadas de filhos e netos e bifes e sonhos e desejos em espirais perfumadas inspirando a vizinhança e o mundo.
Na sala vazia e guardada em histórias ela tecia um inverno por vir. Como sempre fez, procurava agasalhar, aconchegar, proteger. Um arrepio, que percorreu-lhe a espinha dorsal da família, trouxe a certeza de que era inverno há décadas nas veias da vida.
A sombra de uma árvore centenária, sobre a qual os micos da praça procuravam sustento, rompeu a distância entre a sacada do apartamento e a rua, trazendo consigo a brisa ingênua da manhã, ainda virgem dos fatos. Os olhos insistem, o corpo resiste, os óculos são ajeitados seguidamente, espantando o cansaço, o frio e o frio. A cabeça curva-se ainda mais, as costas respondem, mas as agulhas retornam à dança dos nós.
Rostos povoam seus movimentos: ela é muitos. Filhos a se meter em más companhias, tombos de bicicleta, novos valores morais, velhos valores morais, casamentos, descasamentos, reconstruções, livros, amigas, amigos, maridos, minisaia, um tio alcoolista, a mulher do tio, um acidente de carro, a fazenda, os lucros, as perdas, reconstruções, mágoas, um certo natal, um anel de brilhantes, aquela música, um amor impossível, a família, as famílias, as mortes, os nascimentos dos netos, novas tecnologias, velhos remédios, um rosto sem nome, aquela fotografia, as viagens, as partidas, um que não voltou, e a saudade de um bicho de estimação.
À sombra da árvore onde os macaquinhos divertem crianças, recostada aos joelhos que esfriam à brisa da manhã, uma blusa toma forma. Assim como a Terra, é azul, segundo o oficial soviético. Uma blusa de lã azul vai entrar pra família, em breve.
Tanto passado passa pela lã da blusa futura. A velha senhora previne o frio por vir, nó a nó, enquanto a memória tece sua vida.
Um dia na praia, um botão de madrepérola, um sorriso de um moço no corso, uma revolução, uma prima brincando na chuva, uma surra, o colo do pai, uma carta, uma escola, duas professoras, um piano, um dia na capital, uma rosa entre as páginas de um caderno, uma fruta madura, uma receita de família, um corte no dedo, uma decepção.

A vida movia as agulhas de tricô na sala vazia. Mais um inverno por vir. A velha senhora observa modelos na revista alemã. O relógio de pêndulo ritma o silêncio. O apartamento levita: a velha senhora carrega a ampulheta do tempo na cestinha de costura.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

UM ABRAÇO NA LADEIRA TIRADENTES


"A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace"

Vitor Hugo





      Quando menino, o nome do meu pai, pra mim, era um "Mistério"... Olhava pra ele sempre a procurar...e não sabia o quê. Era uma sensação estranha, que por ser estranha, desconhecida em causa e consequência, flutuava do medo ao encantamento: se bem que em todo encanto há um sabor de medo.
       Pensando nisso, de encantos e medos, ou dos medos que existem nos encantos, ou ainda dos encantos que existem nos medos, penso, quase naturalmente no meu crescer. Mais especificamente, penso em como, na medida em que crescia meu pai crescia em mim. E, enquanto crescíamos - eu crescendo e ele crescendo em mim, o mistério se desnudava.
        Aí pelo final da adolescência, o mistério começa a se traduzir em palavras e ideias: eu admirava nele um olhar quase visionário, uma habilidade de enxergar nas entrelinhas, além da neblina das possibilidades, por sobre as serras gerais (para usar uma imagem que nos é cara). E eu pensava: como é que se consegue isso? Novamente, "mistério"...
         Já adulto, também pai, também colecionando já os ossos dos dias, também nas manhãs do Capão Verde, enquanto traduzíamos a entrada de cada pássaro na sinfonia do dia, à medida em que o sol se erguia de trás do morro.
     Hoje, lendo as crônicas de meu pai, o "mistério" se desfaz em toda sua grandeza e confirmo todas as suspeitas. O olhar curioso e sensível, o homem ilustrado construído sobre doces e sólidas raízes.
        Não há mistério: é o mistério da vida bem vivida, dos dias degustados, da sabedoria de quem sabe ler, na profundidade maior da leitura, que é aprender que nunca se leu tudo, que nunca de compreende tudo, que tudo está sempre por ser lido.
        Um homem, com a trajetória e a experiência de vida de meu pai, que ainda se deslumbra com as pequenas aranhas de edifício, com os pequenos  e imperceptíveis segredos de existir: é o "mistério". Um homem que percebe a passagem dos dias, que se adapta a eles para que ainda possa tirar o melhor desses mesmos dias, olha ainda com o olhar do menino da Ladeira Tiradentes. O homem experiente e culto que vê a vida com o deslumbre do menino que conhece, pela primeira vez, um sapato.
        Me acalentei no tapete mágico das palavras do meu pai. Sorri, chorei, refleti...me orgulhei.
         Eu também corri pela Ladeira Tiradentes, em Barbacena. Ainda trago na lembrança a casa do tio Vate. E a pastelaria Mexicana, onde aprendi a comer pastel com molho vinagrete.
           Eu que também conheci a Ladeira Tiradentes, conheço agora o Eduardo, a jogar bola de meia, rua abaixo...Dou-lhe um doce abraço e digo: que maravilhoso "mistério" é a vida, meu pai!

(Texto escrito para o prefácio do livro "Diário Reinventado", de Eduardo Cisalpino)
           



sexta-feira, 29 de abril de 2011

ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 11

SEGUINDO A PROCISSÃO, MAS NEM TANTO...

Mama, take this badge from me
I can't use it anymore
It's getting dark too dark to see
Feels like I'm knockin' on heaven's door
(Bob Dylan)


Moro a poucos metros de uma igreja. Como sinal dos tempos, eu acrescento: moro a poucos metros de uma igreja católica. Digo isso porque, quando criança, igreja e católica eram praticamente sinônimos. Dificilmente se via outro templo, outra igreja. Quando alguém dizia: “lá na minha igreja” era apenas uma questão de paróquia, não de religião.
Me lembro de apenas duas igrejas não católicas na minha infância: uma igreja anglicana e uma igreja metodista. Ambas em Belo Horizonte e ambas muito distantes, em termos culturais, para mim. Ser protestante era alguma coisa que pedia explicação. Evangélico era algo que não existia.
Se for puxar pela memória, então, o primeiro templo não cristão que conheci, acho que foi uma sinagoga, em Nova Iorque – ficava próxima ao hotel em que estávamos. A primeira mesquita que conheci foi em São Paulo, há uns vinte anos atrás.
Mas, não é nada disso que eu queria escrever. Pois então, retomo: moro a poucos metros de uma igreja católica, aqui em Timóteo. Simpática igreja, construída em forma de cruz, como a catedral de São Pedro, em Roma. Não a conheço por dentro, acredite se quiser. O que já nos dispensa dizer que não sou um bom católico, e muito menos uma pessoa religiosa – pelo menos não do jeito tradicional.
Tenho lá minhas pequenas e sagradas crenças, compondo um emaranhado de influências que vão do católico ao candomblé, passando por esquinas ainda mais exóticas, por estas terras, como a Cabala, o Sufi, o Zen-Budismo e outras mais misteriosas e imprecisas que é melhor nem comentar.
Novamente me desvio do tema desejado, portanto, volto ao ponto de partida: moro a poucos metros de uma simpática igreja católica, aqui em Timóteo.
Estamos na Páscoa e, como é comum nessa época, passou aqui pela frente de casa, uma procissão. Ou melhor, algumas procissões. A mais interessante delas foi a chamada Procissão do Senhor Morto: acontece na sexta-feira da paixão, no início da noite, à luz de velas.
Em casa, da pequena janela da sala, pude ver e ouvir a procissão passar, acompanhando os passos com seus cânticos, centenas de pontos de luz borboleteando na noite. Os sons, o ritmo, as velas: tudo aquilo me conduziu como um rio de luz pelo tempo, levando-me por outras procissões, vida adentro.
Quando garoto, em Barbacena, cidade natal de meu pai e onde passava preferencialmente as férias, convivi com esse universo. Era um verdadeiro teatro. As pessoas incorporavam seus papéis, representando as figuras importantes do cristianismo. As ruas da cidade eram preparadas ao longo de dias de muito trabalho, dedicação e arte: quilômetros de tapetes de serragem colorida e pétalas de rosa. Imagens eram lavadas e vestidas.
Os séquitos saiam de diferentes igrejas da cidade, reunindo centenas e centenas de pessoas, durante o dia e à noite.
Ano após anos, convive com elas. E o papel delas na minha vida foi mudando. Mas, nunca deixei de ter por elas um respeito silencioso, de quem procura, se não entender, pelo menos admirar o fenômeno da fé e seu efeito nas pessoas.
Menino, elas eram uma festa colorida e divertida. Adolescente, elas eram uma oportunidade muito boa para a paquera: em Barbacena, quase todo mundo se envolvia com as procissões, participando direta ou indiretamente. Era a oportunidade para ver e encontrar as meninas, com imensas possibilidades de fugir da atenção das famílias.
Adulto, elas eram um pequeno obstáculo a vencer para tomar uma cervejinha e jogar sinuca. Nas cidades pequenas e tradicionais de Minas, as procissões – especialmente da semana santa, são um episódio extremamente respeitado, são o auge da expressão de fé e devoção das pessoas. E os padres são pessoas temidas. Não se deve irritá-los ou afrontá-los, sob o risco de uma repreensão pública. Portanto, é preciso usar de criatividade e estratégia.
Certa vez, estávamos em Cordisburgo, passando uns dias na fazenda, durante a semana santa. E bateu aquela vontade de tomar umas e outras. Entramos no carro e fomos para a cidade, como se em Belo Horizonte estivéssemos e fossemos encontrar estabelecimentos comerciais abertos em um Sábado de Aleluia.
A cidade de Cordisburgo se resumia, nessa época, a três ou quatro ruas onde havia algum tipo de comércio. O mais eram ruas residenciais. Assim que chegamos, percebemos nosso erro de avaliação: tudo fechado. Como bons bebedores de cerveja, insistimos. Demos mais uma volta. E nada. Descemos do carro, sentamo-nos em um dos bancos da praça, para decidir o próximo passo: e agora? Claro que desistir ainda estava longe.
Fizemos um rápido levantamento das possibilidades: ir à outra cidade próxima, Paraopeba; ir ao posto de gasolina onde havia uma lanchonete que era também ponto de ônibus interestadual, às margens da BR 040.
De repente, percebemos uma movimentação curiosa: dois homens apontaram na rua e pararam diante da porta do bar, na esquina. Por uma fração de segundos, a porta se abriu, e eles foram engolidos pelo prédio, como se fosse um sapo de concreto e madeira devorando moscas.
Pensamos: eis aí o segredo do universo! Fomos até o bar. No caminho, pudemos ver a procissão que se aproximava- o motivo de estar tudo fechado. Aceleramos o passo. Batemos na porta do bar. A porta se entreabriu. Um homem, com olhar assustado disse: “Entra, entra, rápido, senão o padre vai ver”! Pulamos pra dentro e a porta se fechou atrás de nós.
O Bar estava lotado. Todo mundo tomando cerveja, ou uma pinguinha, e jogando sinuquinha, daquelas de ficha. Era o paraíso na Terra! E o paraíso estava completo: tira-gosto também estava rolando – frio, mas estava. É o que importa.
A procissão se aproximava. Um “olheiro” estava grudado em uma fresta da janela, atento aos fatos. Quando a procissão estava a alguns metros do bar, o dono bateu no balcão e ordenou: “todo mundo calado, nem um pio”! Ninguém falava, ninguém nem mesmo se mexia no bar. A cantoria foi se aproximando, lentamente. Em minutos, tomou conta do ambiente. Podíamos ouvir também o barulho dos passos das centenas de pessoas que seguiam a procissão. O silêncio e a imobilidade eram totais. Um homem olhava preocupado para o próprio copo de cerveja: parecia pensar que se a procissão demorasse muito a passar, a cerveja ia esquentar, mas ele não tinha coragem nem do breve gesto de levar o copo à boca.
Assim como veio, a cantoria foi se afastando. Até que o “olheiro” falou: “beleza, liberado”. E o bar inteiro, ao mesmo tempo, emergiu do silêncio. Copos tiniram, risos voaram soltos, tacos, bolas colidindo... mas a porta permaneceu fechada.
Na conversa com o pessoal, descobrimos que o maior medo de todos, era do padre descobrir. Disseram que ele criticava as pessoas, nominalmente, na missa, se a afronta aos costumes fosse grave. O que era considerado uma enorme vergonha.
O dono do bar saiu-se com essa pérola: “o mais difícil não é controlar a porta. O mais difícil é não deixar o cheiro dos tira-gostos “vazar” lá pra fora, porque aí o padre desconfia. Esquentar e fritar ou é muito antes ou depois da procissão. E ninguém reclama porque a coisa é séria”!
Voltamos pra fazenda no final da tarde, de barriga e cara cheias. Na época, a lei não era seca. Só a procissão. Para os que não sabiam abrir as portas do céu, claro...

domingo, 10 de abril de 2011

ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 10

BULLING: O NOVO QUERIDINHO DO BRASIL



Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

(Arnaldo Baptista/Rita Lee)

Quando eu tinha lá meus 13, 14 anos, o bulling já existia, mas, não tinha nome estrangeiro e, talvez também por isso, pouca gente ligava pra ele. Afinal, é muito mais bacana falar sobre bulling do que sobre zoação. Imaginem um desses psicólogos de plantão, ou o Globo Repórter falando sobre o tema: “Zoação”... Imaginem o Sérgio Chapelein, seríssimo, falando: “Hoje, no Globo Repórter, você vai saber tudo sobre... Zoação... Nem pensar.
Quando eu tinha 13 ou 14 anos, a zoação era tanta que dava até pra formar um time. Meu time da escola, por exemplo, tinha essa formação: Feijão, Meleca, Mancada, Preto e Minhoca. Na reserva, tinha ainda o “Deixa que eu chuto” (um garoto que tinha uma perna mais curta que a outra), o Montanha e o Zóio (um garoto meio vesgo).
Esses eram os famosos, os populares, já que levaram a turma por dois ou três anos a ser campeã do colégio. Pelo menos três desses aí foram também da seleção mineira de futebol de salão. Outros, como eu, eram também os feras da natação, que dava muito ponto nas épocas de jogos internos. Portanto, os apelidos eram verdadeiros troféus, eram o próprio bafo da fama.
Se fosse contar os outros, da minha sala e da minha série, mais os outros de outras séries que eu conhecia, contabilizaria pelo menos setenta por cento do colégio. Muita gente não era conhecida pelo nome, mas, pelo apelido. O Meleca, por exemplo, ficava puto da vida e dava porrada em quem o chamasse pelo nome. A sacanagem era dizer pros incautos o nome dele e dizer que ele detestava que o chamassem de Meleca. O cara ia lá e tomava uns tapas ao chamar o Meleca pelo nome.
Meleca, hoje, é músico de sucesso no estado. Feijão é advogado de renome. Montanha é comerciante, dono de várias lojas. Mancada é professor universitário, acadêmico de renome... e vai por aí afora.
Tive um professor de biologia que não tinha uma das pernas, do joelho pra baixo. Certa vez, viajamos com ele, para Parati, no estado do Rio. Na praia, ele tirou a prótese pra nadar e nós aproveitamos pra roubá-la e correr. Ele correu atrás da gente, pulando numa perna só, como um saci. Rimos muito, nós e ele. E ficou nisso.
Graças a Deus, nesse tempo, ninguém era “politicamente correto” e a gente tinha espaço para ser gente, simplesmente. O simples, ingênuo, cristalino, dificilmente tem “intenções”. São as intenções que ferem.
Tem um outro apelido de que me lembro, acho que era amigo de um dos meus irmãos: o “Cês Quatro”... Tinha esse apelido porque era muito gordo. Certamente foi um dos apelidos mais criativos que conheci. Reza a lenda que ele sentou-se sobre um cachorrinho “Pincher”, num sofá, e matou o coitadinho.
Não tenho notícia de nenhum deles por aí, matando os outros ou se matando.
Poderia ficar por aqui mais alguns parágrafos relacionando apelidos de toda espécie, como na área alimentar: Lingüiça, Salsicha, Presuntinho, Torresmo, Mandioca, Batata, Queijinho, Ovo Frito, etc, etc. Ou poderia ir pros mais clássicos: Rolha de Poço, Quatro Olhos, Mobby Dick, Baleia, Pintor de Rodapé, Salva-Vidas de Aquário, Jóquei de Minhoca, Espanador da Lua, Mão de Vaca, Casas da Banha, Troco, Dumbo, Orelha de Abano, Pixaim, Negão, Tiziu, Carvão, Macarrão da Santa Casa, Alemão, Galego, Omo Branco Total.....
Até o disciplinário do colégio e o padre que tomava conta da cantina, tinham apelidos. Eram, respectivamente, o Geraldo Jararacá – com a variação também para Geraldo Bigodão, e o Padre Coqueiro – usava de maneira doloridamente habilidosa sua bengala contra a cabeça da gente na fila da cantina, quando alguém “furava” a fila.
Claro que muitos não gostavam dos apelidos. Claro que, esporadicamente, algumas confusões aconteciam. Mas, nunca tive notícia de ninguém matando ninguém por causa disso. Pessoas infelizes? Com certeza haviam. Gente marcada por isso, ao longo da vida? Com certeza. Mas, nunca vi reportagem sobre isso, nunca vi psicólogo na TV falando sobre isso, nunca tive palestra na escola sobre o tema. Nada, nada, nada.
Não estou aqui querendo dizer que isso é “normal” e muito menos inofensivo. Estou querendo, na verdade, discutir o outro lado dessa história. Ou, colocando de outra forma: o que fez dos apelidos e zoações uma coisa tão séria?
Acho que há ingredientes novos nessa história, que muita gente não está considerando. Acho que esses ingredientes novos são muito mais contundentes do que as zoações. Eles fazem das zoações alguma coisa de insuportável, transpondo em muito os efeitos disso na minha adolescência.
Descendo pela rua onde moro, colho algumas pistas do que quero dizer: de cima abaixo, as casas ostentam cercas elétricas, muros altos e alarmes. Gente se tranca lá dentro, protegendo-se da violência dos nossos dias. Da casa-fortaleza, vão ao clube restrito aos seus iguais. Do clube restrito, vão ao Shopping e não às lojas da cidade, porque o shopping tem os seguranças de plantão. Põem os filhos nas escolas cercadas de muros, câmeras e portaria rigorosa.
Quando penso que eu, filho da classe média, brincava na rua e jogava bola na favela perto de casa, nos morros do bairro da Serra, em Belo Horizonte, penso também que pouca gente acreditaria nisso.
Tinha amigos ricos e amigos paupérrimos. Tive amigos bandidos, dos dois lados da bandidagem: traficantes e políticos (desculpem, não resisti à piada...).
O que estou querendo dizer, afinal, é que as casas-fortalezas de hoje refletem o estado de nossas almas, de nossos corações. Tudo é uma grande ameaça. Tudo pode nos matar, até os apelidos, até as zoações. E estamos ensinando isso aos nossos filhos. Ou não estamos mais sendo capazes de ensinar aos nossos filhos que isso não mete medo em ninguém, que isso é pequeno e não ameaça. Temos armas pra isso, temos imunidade contra isso, se quisermos.
Falamos, orgulhosos, sobre os preconceitos que superamos, sobre as desigualdades que diminuímos, mas, o fato é que construímos uma sociedade muito, mas, muito mais intolerante e cruel do que décadas atrás.
Se hoje há mais espaço para negros, índios, mulheres, homossexuais, etc, etc, há muito menos espaço para as pessoas, para as pessoas como elas são – não como querem que sejamos.
O que nos cerca parece ser um mundo da perfeição. Um mundo de gente bonita, magra, “bem sucedida”. E ninguém suporta o contrário. Adolescentes andam por aí fazendo operação de redução de estômago aos 14 anos – certamente com o consentimento dos pais que também não suportam ter um filho “com defeito” e dizem que estão procurando a “felicidade” deles. Que felicidade espera uma pessoa que aprendeu que a felicidade são os outros? Meninas andam por aí morrendo de inanição por causa disso.
Existe um negócio chamado “moda infantil”. Quando eu era criança, moda infantil era a roupa velha dos irmãos mais velhos ou qualquer bosta de pano que a gente pudesse colocar sobre o corpo o mais rápido possível pra ir brincar logo na rua.
Roupa certa, cabelo certo, orelha certa, dentes certos, sapato certo, barriga certa, mochila certa, lápis certo, celular certo, carro certo, nariz certo, colégio certo, amigos certos, emprego certo... É coisa certa demais pra quem é tão errado como nós.
Outro dia vi um cidadão falando na TV que era preciso que todo mundo se depilasse, por uma questão de higiene.... A humanidade sobreviveu com pelos por milênios, mas agora quem tem pelos é um porco. É o meu caso. Sou um porco cabeludo e não pretendo me depilar pra atender à vontade dos outros. Prefiro fuçar na minha laminha, tão cara e conhecida, a comprar como paraíso o chiqueiro dos outros. A minha felicidade não pertence nem a ele nem aos meus pelos. Pertence à minha alma. E ela não se incomoda nem um pouco com os “defeitos” externos dos outros. Ela quer ver quem eles são, não o que eles são.
Não importa ser um cretino, mal caráter, sacana, vendido, superficial, cruel... desde que você seja o ideal de uma sociedade irreal.
Muitos não suportam essa corrida louca pra lugar nenhum. E se matam. E matam. Por algo que só existe nos comerciais. Há quem acredite que esse mundo de photoshop existe de fato.
Acho que há um imenso despreparo das pessoas, de um modo geral. Quanto mais opções temos, menos opções fazemos. Quanto mais podemos, mais deixamos que nos digam o que fazer, o que pensar, e quem devemos ser, na aparência. Vivemos um mundo de vitrine de loja no qual somos os manequins.
Por vezes penso que uma entidade controladora usurpou nosso direito à humanidade, nosso direito a sermos nós mesmos e nos impôs uma cartilha de “como ser” que nós perseguimos, mesmo sabendo que é inútil, porque nós não somos perfeitos e sempre existiram os outros a nos lembrar disso. Sempre haverá alguém mais “perfeito”, mais “certo” que nós.
Conheci uma garota de 14 anos, magérrima, que chorava diante do espelho por causa de uma barriga que só ela via. Chorava e dizia: porque eu não sou magrinha como a “fulana” ? Essa nossa sina?
Tudo, hoje, quanto aos valores, é relativizado. Mas, quanto à aparência, não há concessões. Por isso, uma zoação toma essa dimensão sobre-humana. Porque vivemos um mundo de plástico, um mundo para-humano, onde a felicidade pertence cada vez mais aos outros e cada vez menos a nós mesmos.
Considerando que a busca pela felicidade é natural em nós, é parte de sermos humanos, extirpá-la de nós e deixá-la nas mãos dos outros – outros que são nosso inferno, é cruel demais... cada vez menos pessoas sobrevivem e sobreviverão a isso.
Bulling é muito menor que isso. Mas, ninguém quer ver. Implicaria em rever todas as nossas prioridades, rever todos os nossos objetivos, toda essa indústria do plástico e da plástica.
Eu, por meu lado, aprendi a me amar tanto e a conhecer tanto a pequenez de nós todos, que não me iludo com isso e insisto em considerar que a minha felicidade é o que EU quero pra mim, e não o que me dizem pra querer.
Ser feliz é tudo que queremos. E a sociedade está tentando nos convencer de que há uma fórmula para isso. É uma cruel mentira. Mentira que nós mesmos inventamos pra nós. E somos nossas próprias vítimas.