NA ROLETA DA VIDA
Estava no ônibus, outro dia, de Timóteo para Ipatinga. Final de uma tarde do final de outubro. Mais um dia, tudo como sempre, inclusive as situações especiais: de especial, havia o fato de estar indo substituir um colega, que havia sido internado. Mas isso aconteceu muitas vezes, ao longo do ano, trazendo a dupla sensação de alegria, por poder ajudar e preocupação, com o estado de saúde do colega. E de especial, havia também a impressão de entrar em dois lugares, quando entro em Ipatinga: a entrada de Ipatinga me lembra muito Brasília e sempre penso nisso, quando entro na cidade. É sempre como se estivesse entrando em duas partes de minha vida ao mesmo tempo e as memórias se misturam, como se lambesse um sorvete napolitano feito de emoções e histórias.
Era um dia de sentimentos especialmente envolvidos pela normalidade. O sol ainda brilhava às 18 horas, devido ao horário de verão. Mais uma normalidade com sabor especial. Normalmente extraordinário, esse dia.
O ônibus seguia seu trajeto normal, com seus barulhos normais e eu, como normalmente faço, me distraia com o ir e vir da cidade, lá fora. A moça de chapéu, o carro caríssimo, o garoto suicida correndo entre carros, a flor do shopping, o cheiro da usina: tudo como sempre. E eu pensava que nada dessa normalidade ocorreria outra vez, na história da humanidade. Pequenos e banais momentos únicos do universo passando pela janela.
De repente, não mais que de repente, escuto um pequeno gemido, longo e doído, dentro do ônibus. Procurei ver de onde vinha aquela ruído anormal que invadia a minha normalidade: era o trocador. Quando olhei, ele dava um impulso para a frente, levantava a cabeça, tentava segurar-se nas barras laterais e emitia outro gemido, ainda mais gutural e doloroso. Em seguida, suas mãos e braços se retorcerem, suas pernas se esticaram. Ele começou a cair da cadeira, totalmente retorcido, debatendo-se levemente, e salivava profusamente.
As pessoas, no ônibus, se espantaram, imediatamente gritaram para o motorista que o trocador estava passando mal, pedindo para parar. Algumas se aproximaram, na vontade de ajudar. Mas paravam diante do quadro: um homem, adulto, todo contorcido, debatendo-se e "babando". Não é fácil dar o próximo passo.
Sem hipocrisias: não é fácil dar o próximo passo. O que lhe vem à cabeça? "Será contagioso"? Por mais que você seja uma pessoa sempre disposta a ajudar, é isso que você pensa. E contem, ainda que seja por segundos, o próximo passo. Somado a outras dúvidas, por exemplo: "como eu posso ajudar, não sei o que está acontecendo", ou "não sei o que fazer, melhor ficar quieto". É natural, é humano, é compreensível.
Não era o caso de uma jovem senhora, que se aproximou, com ares de quem sabia o que fazia: "Deixa, deixa..." e tomou conta da situação. Não era o meu caso também, já tinha visto aquele quadro diversas vezes. Eu disse a ela: "Você precisa de ajuda"?
E fomos seguindo os procedimentos indicados: afrouxamos a gravatinha, a camisa, o cinto. Desfizemos o "bolinho" e ganhamos espaço. Levantamos o rapaz, que ameaçava cair da cadeira e o colocamos em uma posição mais segura e confortável. Os dentes não estavam cerrados e ele não mordia a língua. Retiramos objetos pessoais que pudessem se perder, quebrar ou feri-lo: óculos, telefone, carteira, etc. Alguém ligou para o SAMU pedindo uma ambulância.
O trocador se debateu por mais alguns segundos e começou a parar...Deu um profundo suspiro e depois permaneceu quieto, olhos fechados...e ofegava. O cansaço e a confusão mental seriam os próximos passos esperados.
Mais alguns minutos e ele começava a voltar: abriu os olhos. A moça falou com ele, perguntou o nome e a idade. O olhar era vazio, olhava mas não entendia o que via. O cansaço era profundo e quase mais consternador do que a convulsão. Ele estava exausto.
Ficamos ali, ao lado dele, por mais alguns minutos. Ele foi voltando. Respondeu o nome, mas ainda não sabia a idade nem onde estava. A primeira resposta à pergunta "quantos anos você tem"? foi "13 anos".
Foi nesse momento que pude tomar pé do que acontecia em volta. O ônibus estava parado no canto direito da avenida, logo em frente a um posto de gasolina, depois do shopping do vale. Eu estava a uns 500 metros do ponto onde desceria para pegar outro ônibus para a cidade nobre. Poderia descer e caminhar um pouco, mas não queria deixar a situação inacabada. Esperaria o SAMU. Algumas pessoas desciam, atrasadas para cuidar de suas vidas. Outras olhavam angustiadamente. Outras contavam o caso pelo telefone. Outras ainda simplesmente esperavam um outro ônibus para seguirem o trajeto e a vida.
O trocador falou alguma coisa, muito baixo e com grande esforço. Nos aproximamos: ele queria saber onde estava. Contamos o que acontecera. Ele pediu que ligássemos para alguém. O motorista, colega de trabalho, apareceu e disse que já estava ligando. Ele então tranquilizou-se novamente, recostou a cabeça na cadeira. E o SAMU chegou.
Duas pessoas desceram da ambulância e entraram no ônibus. Descrevemos todo o acontecido. Me lembro do motorista comentando com o pessoal do SAMU que nunca vira o trocador passar por algo parecido ou mesmo comentar sobre alguma doença que pudesse lhe causar isso.Com o apoio desses dois agentes do SAMU, o trocador desceu do ônibus e entrou na ambulância.
Nesse mesmo momento, outro ônibus estacionou logo atrás, pra pegar o pessoal. Fomos descendo, lentamente, e entrando no outro carro. Seguimos viagem. Calados. Desci no primeiro ponto, logo à frente e caminhei até o outro ponto, na avenida Brasil.
O dia morria, suavemente, dando lugar à noite. A agitação aumentava em carros e pessoas, devido ao horário. Gente indo pra casa, gente indo pra escola, rush, enfim.
Olhei o relógio do telefone: se o próximo ônibus não demorasse, não chegaria atrasado. E, por sorte, ele chegou logo. Embarquei. Sentei. Olhei pela janela: um carro de polícia, uma senhora com carrinho de bebê, um garoto se equilibrando perigosamente em uma bicicleta muito maior que ele, um supermercado lotado, um banco em greve. Tudo normal.
Pensei no trocador. Pensei em como aqueles poucos minutos, dentro do ônibus, poderiam mudar toda a vida dele. Aquilo certamente teria muitas consequências no trabalho e em sua rotina diária. Ele teria que buscar outra normalidade. E isso não é nada simples, pode ser muito complicado: mudar hábitos, se acostumar com novos situações, novos olhares das pessoas, novos julgamentos é uma verdadeira via crucis para a maioria de nós. Ninguém passa incólume por isso.
Nós nos acostumamos com as coisas, nós nos acostumamos com o que chamamos de nossas vidas e geralmente esquecemos a fragilidade absoluta disso tudo. Tudo é, em nossas vidas, natural e normalmente provisório, temporário. Somos criaturas predestinadas ao fim, desde o começo. Qualquer segundo é definitivo.
Devíamos beber a normalidade com a consciência de que tudo o que está não será mais. Nunca mais, Aquele segundo do olhar, do sorriso, do gesto, do vazio...aquele segundo foi e jamais será, novamente. Essa, a nossa normalidade: a convivência diária com o imponderável, com coisas definitivas que simplesmente não podemos prever ou controlar. Alguns preferem que deuses se ocupem dessa condição, dessa fragilidade, desse imprevisível, já que têm tantos planos para hoje, para amanhã, para o futuro com os netos.
Outros preferem não pensar nisso, outros preferem se dizer ocupados demais para pensar nisso. E simplesmente, vivemos.
Enfim, somos apenas isso: seres vivos, organismos que perambulam por aí seu prazo de validade, seja ele biológico, acidental, conjuntural, ou seja lá o que for. A única coisa que podemos escolher é como passaremos por esse período. Essa talvez a grande lição que devemos aprender e pensar nela, a cada segundo. Como se fosse normal, e que de fato é.
Desci no meu ponto na Carlos Chagas, fui dar minha aula, tomando o cuidado de lavar bem as mãos e os braços antes de cumprimentar as pessoas, antes de entrar em sala. E trabalhei, normalmente.
Drummond e o "Diário Reinventado"
Essa foto registra homenagem deliciosa e delicada do prof. Luis Carlos Maciel ao meu pai, Eduardo Cisalpino. O livro que o prof. segura nas mãos e que parece "comentar" com o poeta, é o "Diário Reinventado, de Eduardo Cisalpino.. Obrigado à Magda pela foto.
Jack Kerouac
Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas
domingo, 1 de novembro de 2015
segunda-feira, 6 de julho de 2015
HISTORINHAS DE APRENDER - AS MEIAS E OS MEIOS
Era uma vez duas meias.
Na verdade, mais que
duas meias, eram um par.
Uma delas, azul. A
outra, também.
Ambas, de um azul
celeste...Ou quase isso.
Acontece que uma das
meias- e aí pouco importa qual das meias seria, já que eram meia e meia; meias, as duas.
Voltemos então:
acontece que uma das meias, era meio verde. Azul, sim, azul era a
meia.
Mas também meio verde a meia era.
À outra meia, a que
não era meio verde, mas totalmente azul, perguntavam: não acha meio estranho, meia? Sua companheira assim, meio azul, meio verde. Isso não é coisa de meia azul. Isso é meio verde, meia.
Assim como o povo, as meias falam. E por vezes as meias são meio preconceituosas, quando o assunto é meia... e cor de meia - cor é coisa que atormenta as meias - é meio estranho, eu sei, afinal, todas elas meias são . Mas, fazer o quê, se outro meio não há?
A já citada meia, meio
confusa ficava; meio preocupada a meia, e se perguntava:
Uma meia, meio verde, e
nem tão azul, menos meia azul seria?
Teríamos uma meia a
menos, pensou, meio triste...
Mas, ora, que importa,
sendo mais azul ou menos verde, mais verde ou menos azul, nada a
menos haveria, nem uma única vírgula a menos, e as dúvidas foram
ficando mais amenas.
Meia e meia, então,
compraram uma tinta amarela, à meia, e tingiram-se, em singela
cerimônia, só para os de seu meio.
E assim, fizeram um par
a mais... e um problema a menos.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
O VIÚVO VIRGEM
"Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista
O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece
Aquele que conhece o jogo, do fogo das coisas que são
É o sol, é a estrada, é o tempo, é o pé e é o chão"
C. Veloso
Para meu avô, Dagoberto Amorim Silva
Criador de Passarinhos no Jardim do Éden
O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece
Aquele que conhece o jogo, do fogo das coisas que são
É o sol, é a estrada, é o tempo, é o pé e é o chão"
C. Veloso
Para meu avô, Dagoberto Amorim Silva
Criador de Passarinhos no Jardim do Éden
O VIÚVO VIRGEM
Ele nasceu em uma família de classe média, em Maceió, Alagoas. Ainda muito jovem, morreram-lhe os pais. Ele e a irmã, ainda mais jovem, foram morar com um tio. Estávamos então nos primeiros anos do século XX.
O tio, homem muito tradicional e autoritário, era chamado pela esposa de "senhor meu marido". Durante as refeições, ela servia o marido e as crianças e só depois sentava-se à mesa. E todos, à mesa, esperavam que ele começasse a comer antes de fazerem o mesmo.
Levantar-se da mesa antes dele? Nem pensar. Falar alguma coisa à mesa? Só se ele perguntasse ou se dirigisse à pessoa. Crianças então: silêncio total. E modos: o jeito certo de se vestir para as refeições, o jeito certo de sentar, o jeito certo de comer, etc, etc, etc.
Certo dia, terminada a refeição, o tio pediu que trouxessem a sobremesa: um lindo cacho de bananas. O garoto não se conteve, ou nem percebeu que havia falado alto: "Que lindas bananas". Foi só isso que ele falou. E foi o que bastou. Pelo atrevimento de falar à mesa sem autorização, foi obrigado pelo tio a comer o cacho inteiro.
O sacrifício para comer aquilo tudo foi enorme. Mas ele fez questão de não chorar, de não reclamar, nada. Terminado o cacho, continuou na mesa por mais uma hora, esperando autorização do tio para se retirar.
A vida não era fácil ali. Nem pra ele, nem pra irmã. Era preciso fazer alguma coisa, e cabia a ele. Então, fugiu de casa. Foi para o Rio de Janeiro, aos 14 anos de idade, em busca de uma outra vida, pra ele e para a irmã.
Sem profissão definida, com pouca ou quase nenhuma experiência de trabalho, menor de idade e sem formação escolar completa, foi trabalhar no cais do porto. estivador. E depois de algumas semanas na cidade, fez amizade com uma prostituta da região. E foi morar com ela, no quartinho que ela usava como local de trabalho, no bordel.
Aprendeu muito ali, sobre a vida e sobre as pessoas. Aprendeu também a dançar. Um verdadeiro pé de valsa, que um dia dançaria um frevo, tendo a filha como parceira, para o Rei da Bélgica, em visita ao Brasil.
Trabalhando e estudando, enfim conseguiu uma vaga no banco: Banco da Lavoura. E transferiu-se para Belo Horizonte.
A jovem e formosa capital mineira, recebeu o rapaz de braços abertos. Organizou a vida, trouxe a irmã para viver com ele. E foi ali também onde conheceu o amor: apaixonou-se por um jovem mineira. Funcionário estável do Banco da Lavoura, foi bem recebido pela família da jovem. Namorava como se devia: dentro de casa, no sofá, cada um num canto, guardados sempre por alguém da família.
Planejavam o noivado e o casamento. Mas ela ficou gravemente doente: contraiu a "Espanhola". A moça definhava mais e mais a cada dia. Angustiado, queria ficar ao lado dela, o máximo que pudesse. Mas, uma moça solteira, de boa família, não podia ficar sozinha no quarto com um homem que não fosse seu marido.
Ele, então, casou-se com ela. Casou-se para poder acompanhar sua amada em seus últimos dias. E esses dias foram poucos.
A história correu: o rapaz, funcionário do Banco da Lavoura, que se casara com a moça no leito de morte. E ele ficou conhecido como o "Viúvo Virgem". Andava pela rua e sentia sempre o olhar e os comentários das pessoas. Todo mundo queria saber quem era o Viúvo Virgem. Gente saia de casa ou se atirava na janela quando ele passava. E ele passava, sereno e tranquilo com seu gesto de amor, do qual se orgulhava, Os outros pouco importavam.
Leondina, era uma dessas jovens que se atiravam com curiosidade na janela quando o "viuvinho virgem" passava. Leondina se agradou dele, e ele dela. Primeiro os olhares, pontuais, da janela. Todo dia. Depois as conversas no portão de casa. Depois, foi à casa de Leondina, apresentou-se, e pediu permissão para namorá-la.
Namoraram, casaram, tiveram quatro filhos. E viveram juntos, entre passarinhos, netos e bisnetos, por mais 60 anos.
Um dia, ela adoeceu. Foram alguns anos ao lado da cama de "Dona Santa", como ela era chamada por todos. Até que ela se foi, como um passarinho.
Não demorou muito para que ele a acompanhasse. Dizem que foi tristeza.
A vida não era fácil ali. Nem pra ele, nem pra irmã. Era preciso fazer alguma coisa, e cabia a ele. Então, fugiu de casa. Foi para o Rio de Janeiro, aos 14 anos de idade, em busca de uma outra vida, pra ele e para a irmã.
Sem profissão definida, com pouca ou quase nenhuma experiência de trabalho, menor de idade e sem formação escolar completa, foi trabalhar no cais do porto. estivador. E depois de algumas semanas na cidade, fez amizade com uma prostituta da região. E foi morar com ela, no quartinho que ela usava como local de trabalho, no bordel.
Aprendeu muito ali, sobre a vida e sobre as pessoas. Aprendeu também a dançar. Um verdadeiro pé de valsa, que um dia dançaria um frevo, tendo a filha como parceira, para o Rei da Bélgica, em visita ao Brasil.
Trabalhando e estudando, enfim conseguiu uma vaga no banco: Banco da Lavoura. E transferiu-se para Belo Horizonte.
A jovem e formosa capital mineira, recebeu o rapaz de braços abertos. Organizou a vida, trouxe a irmã para viver com ele. E foi ali também onde conheceu o amor: apaixonou-se por um jovem mineira. Funcionário estável do Banco da Lavoura, foi bem recebido pela família da jovem. Namorava como se devia: dentro de casa, no sofá, cada um num canto, guardados sempre por alguém da família.
Planejavam o noivado e o casamento. Mas ela ficou gravemente doente: contraiu a "Espanhola". A moça definhava mais e mais a cada dia. Angustiado, queria ficar ao lado dela, o máximo que pudesse. Mas, uma moça solteira, de boa família, não podia ficar sozinha no quarto com um homem que não fosse seu marido.
Ele, então, casou-se com ela. Casou-se para poder acompanhar sua amada em seus últimos dias. E esses dias foram poucos.
A história correu: o rapaz, funcionário do Banco da Lavoura, que se casara com a moça no leito de morte. E ele ficou conhecido como o "Viúvo Virgem". Andava pela rua e sentia sempre o olhar e os comentários das pessoas. Todo mundo queria saber quem era o Viúvo Virgem. Gente saia de casa ou se atirava na janela quando ele passava. E ele passava, sereno e tranquilo com seu gesto de amor, do qual se orgulhava, Os outros pouco importavam.
Leondina, era uma dessas jovens que se atiravam com curiosidade na janela quando o "viuvinho virgem" passava. Leondina se agradou dele, e ele dela. Primeiro os olhares, pontuais, da janela. Todo dia. Depois as conversas no portão de casa. Depois, foi à casa de Leondina, apresentou-se, e pediu permissão para namorá-la.
Namoraram, casaram, tiveram quatro filhos. E viveram juntos, entre passarinhos, netos e bisnetos, por mais 60 anos.
Um dia, ela adoeceu. Foram alguns anos ao lado da cama de "Dona Santa", como ela era chamada por todos. Até que ela se foi, como um passarinho.
Não demorou muito para que ele a acompanhasse. Dizem que foi tristeza.
domingo, 30 de novembro de 2014
HAGIA SOPHIA: A SAGRADA SABEDORIA
HAGIA SOPHIA : QUE A SAGRADA SABEDORIA NOS PROTEJA
A Mesquita Azul, era anteriormente conhecida como Catedral de Santa Sofia, que originalmente conhecida como Hagia Sophia, que em grego significa "Sagrada Sabedoria".
O edifício foi construído entre 532 e 537, pelo Império Bizantino, também conhecido como Império Romano do Oriente.
A história de Hagia Sophia (Ayasofya, no árabe), é marcada pela própria conjuntura de sua construção: uma civilização em transição. Separado de sua porção ocidental, que desmoronara diante das invasões germânicas que ocuparam Roma quase um século antes, o Império Bizantino era, nesse momento, um caldeirão de culturas: carregava as velhas tradições "pagãs" romanas, misturadas à cristianização crescente, especialmente a partir do século IV, quando Constantino estabeleceu o Édito de Milão, que possibilitou o culto legal e aberto do cristianismo, antes perseguido e restrito às catacumbas, aos subterrâneos do Império.
O nome dado ao edifício, tempos depois da abertura proporcionada por Constantino, da oficialização do cristianismo como religião do Império e do fim da porção ocidental desse mesmo império, ainda reflete sua divisão cultural: construída para ser a catedral de Constantinopla, seu nome santificava a sabedoria, sutilmente, tanto ao passado romano quanto ao presente cristão.
Entre 1204 e 1261, ela foi transformada em Catedral Católica, pelo Patriarcado Latino de Constantinopla, depois da invasão e do saque da cidade proporcionado pela Quarta cruzada.
Em 1453, depois da tomada de Constantinopla pelos Turcos-Otomanos, episódio que põe fim ao Império Bizantino ou Império Romano do Oriente e marca o início do domínio islâmico sobre a região, foi transformada em Mesquita.
Finalmente, em 1935, o edifício foi secularizado: desde então, é um museu. Um museu que abriga tradições culturais diversas, que vão desde a religião mitológica dos romanos e dos gregos, passando pelo cristianismo - tanto católico quando grego-ortodoxo e finalmente chegando ao islamismo.
Foi exatamente neste edifício, a Mesquita Azul, ou Catedral de Santa Sofia, ou Hagia Sophia, que o Papa Francisco, o líder católico, o líder de uma religião que congrega centenas e centenas de milhões de pessoas em todos os cantos do mundo, se encontrou com o Mufti de Istambul, o grande líder muçulmano da Turquia.
Os dois líderes religiosos fizeram suas orações - ou "meditações" dentro do histórico e eclético edifício. O detalhe importante é que fizeram isso voltados para Meca, e com o Papa descalço, como manda a tradição islâmica.
Não é a primeira vez que um líder cristão faz esse gesto. Anos atrás, o Papa Bento XVI fez a mesma coisa. Mas, neste momento, o gesto de Francisco e suas palavras, conclamando à tolerância e à união contra os radicalismos, de qualquer radicalismo, é extremamente importante.
Grupos radicais ameaçam o mundo cristão e o mundo muçulmano. O Boko Haram, na África, o Estado Islâmico e o Levante, na Síria e no Iraque, assim como os mais antigos como o Hezbollah e o Hamas, respectivamente no Líbano e na Palestina, não são uma ameaça, hoje, apenas para os cristãos e os judeus. São uma ameaça também para todos os regimes instituídos no mundo islâmico. Somados às crescentes correntes ultraconservadoras no mundo ocidental, compõem uma quadro de radicalização que pode levar ao predomínio da insanidade e do fanatismo em todo o planeta.
É sempre bom lembrar que a luta contra o radicalismo já levou algumas vidas, como a do Mahatma Gandhi, assassinado por um ultranacionalista hindu que acusava o grande líder de ser responsável pela divisão do país, pela separação do Paquistão da Índia. Separação que foi aceita pelos líderes do governo indiano na tentativa de por fim a uma sangrenta e infindável guerra civil entre Hindus e Muçulmanos na região.
Custou, nos anos 80, a vida também de Anuar Sadat, presidente egípcio assassinado por um radical muçulmano que acusava o presidente de ter "traído a causa árabe" ao aceitar o acordo com Israel que garantiu a devolução da Península do Sinai ao Egito em troca do reconhecimento da legitimidade do estado de Israel.
Esse mesmo radicalismo levou ao assassinato de Ytzak Rabin, primeiro-ministro israelense, nos anos 90, por um ultranacionalista judeu, que o acusava de "trair a causa judaica" ao aceitar o acordo para a desocupação de Gaza e da Cisjordânia para a formação da Autoridade Nacional Palestina, embrião do Estado Palestino, cuja criação foi determinada pelas Nações Unidas em 1947.
Hoje, assassinos travestidos de líderes políticos e religiosos, levam milhares de pessoas à morte na Palestina, em Israel, na Síria e em todo o Oriente Médio, principalmente. A cada dia, assistimos a decapitações, ao assassinato em massa de cristãos, à venda de mulheres e crianças como escravas por se recusarem a aceitar o deturpado e doentio islamismo pregado por esses radicais.
Apesar de alguns tolos, que deixam seus princípios ideológicos e seus interesses políticos falarem mais alto do que o amor ao próximo, e propõem o "dialogo" com esses assassinos frios, os mais importantes líderes do mundo, tanto do mundo cristão, quanto judeu, quanto muçulmano, entenderam o perigo que a fermentação generalizada do radicalismo, do fanatismo, representa para a humanidade.
Nesse sentido, venho congratular o Papa Francisco e o Mufti de Istambul, por essa iniciativa, como exemplo para os bilhões de muçulmanos e católicos de todo o mundo, os dois líderes procuram a inspiração para superar a ignorância e a violência - mãe e filha do radicalismo, no grande e histórico edifício da Sagrada Sabedoria.
Hagia Sophia: que você prevaleça sobre a consciência humana.
O nome dado ao edifício, tempos depois da abertura proporcionada por Constantino, da oficialização do cristianismo como religião do Império e do fim da porção ocidental desse mesmo império, ainda reflete sua divisão cultural: construída para ser a catedral de Constantinopla, seu nome santificava a sabedoria, sutilmente, tanto ao passado romano quanto ao presente cristão.
Entre 1204 e 1261, ela foi transformada em Catedral Católica, pelo Patriarcado Latino de Constantinopla, depois da invasão e do saque da cidade proporcionado pela Quarta cruzada.
Em 1453, depois da tomada de Constantinopla pelos Turcos-Otomanos, episódio que põe fim ao Império Bizantino ou Império Romano do Oriente e marca o início do domínio islâmico sobre a região, foi transformada em Mesquita.
Finalmente, em 1935, o edifício foi secularizado: desde então, é um museu. Um museu que abriga tradições culturais diversas, que vão desde a religião mitológica dos romanos e dos gregos, passando pelo cristianismo - tanto católico quando grego-ortodoxo e finalmente chegando ao islamismo.
Foi exatamente neste edifício, a Mesquita Azul, ou Catedral de Santa Sofia, ou Hagia Sophia, que o Papa Francisco, o líder católico, o líder de uma religião que congrega centenas e centenas de milhões de pessoas em todos os cantos do mundo, se encontrou com o Mufti de Istambul, o grande líder muçulmano da Turquia.
Os dois líderes religiosos fizeram suas orações - ou "meditações" dentro do histórico e eclético edifício. O detalhe importante é que fizeram isso voltados para Meca, e com o Papa descalço, como manda a tradição islâmica.
Não é a primeira vez que um líder cristão faz esse gesto. Anos atrás, o Papa Bento XVI fez a mesma coisa. Mas, neste momento, o gesto de Francisco e suas palavras, conclamando à tolerância e à união contra os radicalismos, de qualquer radicalismo, é extremamente importante.
Grupos radicais ameaçam o mundo cristão e o mundo muçulmano. O Boko Haram, na África, o Estado Islâmico e o Levante, na Síria e no Iraque, assim como os mais antigos como o Hezbollah e o Hamas, respectivamente no Líbano e na Palestina, não são uma ameaça, hoje, apenas para os cristãos e os judeus. São uma ameaça também para todos os regimes instituídos no mundo islâmico. Somados às crescentes correntes ultraconservadoras no mundo ocidental, compõem uma quadro de radicalização que pode levar ao predomínio da insanidade e do fanatismo em todo o planeta.
É sempre bom lembrar que a luta contra o radicalismo já levou algumas vidas, como a do Mahatma Gandhi, assassinado por um ultranacionalista hindu que acusava o grande líder de ser responsável pela divisão do país, pela separação do Paquistão da Índia. Separação que foi aceita pelos líderes do governo indiano na tentativa de por fim a uma sangrenta e infindável guerra civil entre Hindus e Muçulmanos na região.
Custou, nos anos 80, a vida também de Anuar Sadat, presidente egípcio assassinado por um radical muçulmano que acusava o presidente de ter "traído a causa árabe" ao aceitar o acordo com Israel que garantiu a devolução da Península do Sinai ao Egito em troca do reconhecimento da legitimidade do estado de Israel.
Esse mesmo radicalismo levou ao assassinato de Ytzak Rabin, primeiro-ministro israelense, nos anos 90, por um ultranacionalista judeu, que o acusava de "trair a causa judaica" ao aceitar o acordo para a desocupação de Gaza e da Cisjordânia para a formação da Autoridade Nacional Palestina, embrião do Estado Palestino, cuja criação foi determinada pelas Nações Unidas em 1947.
Hoje, assassinos travestidos de líderes políticos e religiosos, levam milhares de pessoas à morte na Palestina, em Israel, na Síria e em todo o Oriente Médio, principalmente. A cada dia, assistimos a decapitações, ao assassinato em massa de cristãos, à venda de mulheres e crianças como escravas por se recusarem a aceitar o deturpado e doentio islamismo pregado por esses radicais.
Apesar de alguns tolos, que deixam seus princípios ideológicos e seus interesses políticos falarem mais alto do que o amor ao próximo, e propõem o "dialogo" com esses assassinos frios, os mais importantes líderes do mundo, tanto do mundo cristão, quanto judeu, quanto muçulmano, entenderam o perigo que a fermentação generalizada do radicalismo, do fanatismo, representa para a humanidade.
Nesse sentido, venho congratular o Papa Francisco e o Mufti de Istambul, por essa iniciativa, como exemplo para os bilhões de muçulmanos e católicos de todo o mundo, os dois líderes procuram a inspiração para superar a ignorância e a violência - mãe e filha do radicalismo, no grande e histórico edifício da Sagrada Sabedoria.
Hagia Sophia: que você prevaleça sobre a consciência humana.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
SOBRE CRIANÇAS E ATUNS
SOBRE
CRIANÇAS E ATUNS
Certa
vez, fui surpreendido por uma solicitação da escola em que meu
filho estudava, em Belo Horizonte: eu deveria comparecer assim que
possível para que a coordenação me fizesse ciente de problemas com
o garoto por lá.
E fui. O
problema é que ele tinha ido à escola sem a camiseta da escola, que
era de uso obrigatório. E além disso, havia discutido com os
funcionários da escola sobre o direito que ele tinha de assistir às
aulas, mesmo estando sem o dito uniforme. E mais: se recusava a usar
o mesmo.
O
coordenador explicou a obrigatoriedade do uniforme e o objetivo dele.
Entre outras coisas, disse que o objetivo do uniforme era para maior
controle dos funcionários sobre quem entrava e saia da escola. E na
rua, para identificá-los como estudantes e coisa e tal. Claro que
não comentou que era também uma forma de propaganda da escola -
propaganda paga pelos pais. E muito menos usou um velho argumento que
eu já ouvira em outras plagas: o uniforme escolar evita que os
alunos transformem a escola num “desfile de modas”. Evita que
alunos menos abastados se sintam constrangidos pelas roupas “de
marca”, dos colegas montados na grana.
Conversando
com o garoto, perguntei porque não estava com o uniforme. Respondeu
que estava com o uniforme na mochila. Estranhei. Perguntei, já
bastante curioso: se está com ele aí por quê não usou? Resposta:
“Não sou lata de atum”.
Ao ouvir
aquilo, conclui que o garoto tinha me pegado, e que demandaria tempo
e saliva convencê-lo a usar o tal uniforme.
Acontece
que, por trás da frase “não sou lata de atum”, estão alguns
princípios e ideias com as quais eu concordo.
Quando eu
era “o garoto”, e depois “o adolescente”, tinha ouvido, na
escola em que eu estudava, também em Belo Horizonte, o argumento de
que o uniforme, de alguma forma, evita que se estabeleça uma “luta
de classes” na escola. As diferenças socioeconômicas, da “vida
lá fora”, não seriam trazidas para o ambiente escolar, onde todos
seriam “iguais”...
Ora, isso
é uma besteira gigantesca. É uma daquelas mentiras confortáveis,
que as pessoas gostam de contar e acreditar.
Se as
diferenças sociais não vinham pelas roupas, vinham pelo material
escolar, vinham pelo carro ou ônibus que levava os alunos depois da
aula. Vinha pela casa dos alunos, quando íamos fazer um trabalho ou
quando era o aniversário de alguém. Ou simplesmente pelos assuntos,
pelos temas de conversa, e principalmente, pelas “rodinhas”,
pelos grupinhos que se formavam a partir dos sistemas de
identificação que os próprios alunos construíam.
Meu pai
sempre fez questão que estudássemos “nos melhores colégios”.
Educação, pra ele, que também foi professor, sempre foi assunto
prioritário. Com seis filhos, o esforço que a família fazia para
manter todos nos “melhores colégios” também era muito grande.
Fiz o
correspondente ao fundamental em um colégio particular de BH, e me
orgulho muito disso: tanto pelo esforço de minha família em me
oferecer o que considerava o melhor, quanto pelo colégio, que me
ajudou a construir a base de toda a vida escolar.
Mas o
colégio tinha muita gente rica. E claro que nós, os mais pobres,
não frequentávamos as rodas dos mais ricos. Me lembro do
aniversário de uma garota, colega de turma: ela convidou a todos,
mas era da turminha dos pobres, e as meninas mais ricas boicotaram o
aniversário dela.
Meu pai
me levou até a casa dela, no dia do aniversário. Cheguei,
educadamente, com o presentinho nas mãos. A garota estava sentada na
porta da casa. Sozinha. Chorando. Eu fui o único colega de turma no
aniversário dela. Único.
Eu tinha
muitos colegas, mas poucos amigos. Os poucos, eram os “pobres”.
Em casa,
meus pais nunca deram muita importância a isso. Nunca deram valor ou
destaque às pessoas pelo que elas tinham, em termos materiais ou
financeiros. Meu pai me apresentava às pessoas que respeitava mais
ou menos assim: “Este é o professor Fulano, um dos maiores
pesquisadores do país”... Ou assim: “Este é o Sicrano. É uma
das pessoas de melhor caráter que eu conheço”. Assim também:
“Este é Beltrano, Toca um berrante como ninguém”. Algumas
vezes, o sujeito em questão era também rico, mas nunca foi um valor
por si só.
Aprendi a
dar valor às pessoas, ao que elas eram. E não ao que elas tinham.
Inclusive a dar valor a quem ficava ou era rico por seu esforço e
talento: nunca me senti roubado ou menor do que alguém que tinha ou
tem dinheiro. Aprendi que talentos são vários e valiosos: do
pescador inventivo, do vaqueiro dedicado, do motorista confiável, ao
empresário brilhante.
Há
poucos dias, uma mulher me pediu dinheiro na rua. Respondi: “não
tenho nada no momento, minha senhora”. Uma pessoa ao meu lado, riu
muito e disse debochado: “senhora”? Tive pena do pobre rapaz, que
não compreendeu que o meu respeito é dirigido às pessoas, não a
sua condição social.
Ainda
hoje, é assim que eu olho para as pessoas: elas me impressionam pelo
talento ou pelo caráter. Dinheiro é só a capa. E ninguém lê
apenas capas: o que importa está nas páginas.
“Ah,
mas não é assim que o mundo é”: ora, se o mundo como ele é
merecesse tanto respeito, não haveria tanta gente querendo mudá-lo,
não é?
Enfim, as
pessoas e as instituições dirigidas pelas pessoas, tentam mascarar
o mundo para as crianças, enquanto elas estão inseridas nele, vivem
nele, e reproduzem nele sua própria humanidade. Crianças cobiçarão
o lápis com borracha de Mickey do coleguinha. Crianças invejarão a
popularidade de outras, ou o cabelo das outras, ou a bola bacana das
outras. Adolescentes cobiçarão o boné, ou a mochila. Invejarão o
namorado ou a namorada. Ou a falta de espinhas de alguém.
Crianças,
adolescentes, adultos: são todos pessoas, são todos humanos e não
há como preservá-los disso ou daquilo. A vida não respeita os
muros da escola porque ela é a escola. A vida não poupa quem esteja
de uniforme. Não poupa ninguém: estamos mergulhados no mesmo caldo.
A biosfera é nosso aquário. Não há onde se esconder. A escola não
vai proteger ninguém. O estado menos ainda. São ambos construções
humanas: pessoas controlam as instituições. Pessoas controlam
pessoas. Por isso, prefiro eu mesmo definir meus caminhos e ter
claras, para mim, as minhas opções – é isso que me torna mais ou
menos livre.
Há como
se preparar. Há como esclarecer os valores e as ideias que
fundamentam nossas opções diante da vida, Há como explicar aos
filhos, aos amigos, a quem quer que seja, quais são os seus valores,
no quê você acredita, e que abrir mão disso é abrir mão da sua
vida, da vida que você pode escolher – é abrir mão da sua
liberdade de ser quem quer ser. Somos o resultado de nossas escolhas
e de nossos silêncios – que também são escolhas.
Realmente,
e definitivamente, não somos atuns. Não há rótulo ou embalagem
que nos contenha. Somos contidos apenas pelas redes que nós mesmos tecemos.
Somos um
coletivo de singularidades. Nossa grandeza e nossa tragédia reside
em nossas diferenças.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
QUERO MUDAR PARA O MEU BRASIL
QUERIA
MESMO ERA MUDAR PARA O MEU BRASIL
O
rescaldo eleitoral, até o momento, tem sido pior do que a campanha
em si. Ontem mesmo um amigo falava sobre sua esperança de que tudo
isso tenha contribuído para trazer o debate político para o
cotidiano das pessoas, para que elas percebam que a política e os
políticos são fundamentais para seu cotidiano e sua vida. Acho
pouco provável: já tem gente por aí dizendo que “vai voltar para
sua vida normal”, como se as decisões políticas não fizessem
parte de sua “vida normal”. Consciências de ocasião certamente
não produzem posições politicas sólidas.
O que se
vê, é basicamente o mesmo país de sempre, pelo menos na minha
leitura. Eu, votei em Aécio Neves e fiz campanha por Aécio Neves.
Pela alternância no poder, fundamental para qualquer país
democrático, especialmente os países presidencialistas, onde uma
vez eleito, dificilmente se consegue mudar o rumo das coisas sem
grandes traumas ou rupturas institucionais – fossemos uma república
parlamentarista mudanças na composição do parlamento poderiam
significar correções ou novas escolhas de forma mais eficiente.
Eu votei
em Aécio Neves por discordar da condução da economia brasileira
como um todo, e por discordar do modelo de políticas sociais –
algumas pessoas acreditam que “inventaram a roda” e que esse
modelo petista é o melhor ou único que existe. Isso não é
verdade: existem outros modelos mais eficientes e que tornam os mais
carentes menos dependentes de quem afirma lhes conceder um favor,
quando na verdade isso é um direito do cidadão e um dever do
estado, somente. Aécio Neves não representava o modelo que eu
considero ideal, mas era um passo nesse sentido.
Eu votei
em Aécio Neves para interromper a transformação da corrupção em
prática de estado, contra a institucionalização da corrupção
que vem, inegavelmente, sendo feita neste país. A afirmação de que
há corrupção para todo lado é pequena demais diante do que vem
acontecendo.
Eu votei
em Aécio Neves contra atitudes autoritárias comuns ao partido no
poder, e sua derrota poderia significar um retorno a práticas menos
abusivas e ao desaparelhamento do estado brasileiro.
Enfim,
votei por motivos políticos, nos quais acredito. E continuo
acreditando.
Mas, é
claro que nem todos que votaram em Aécio Neves votaram pelos meus
motivos. Vejo propagandas, por exemplo, retomando propostas
separatistas de São Paulo: curiosamente, o mesmo estado onde nasceu
o PT. O mesmo estado que projetou Lula e seu partido no cenário
nacional. Das grandes lideranças petistas, a maior parte é paulista
ou teve sua vida política ligada a São Paulo. Outros, são
representantes de famílias tradicionais da elite paulistana, como os
Matarazzo e os Suplicy.
Vejo
também a pregação de ódio aos nortistas e nordestinos, enquanto
durante toda a campanha troquei opiniões e esperanças com os amigos
nortistas e nordestinos. E o ridículo “vou embora do Brasil” -
na verdade, seria ótimo que fossem. É um direito de cada um viver
onde deseja, e a nós, que nos preocupamos de fato com nosso país, a
nós que desejamos construir um país melhor para todos nós, essas
pessoas realmente pouco acrescentam.
Vejo
também eleitores do PT indignados com essas atitudes. Estão certos,
é de se indignar. Mas, acredito que deveriam se indignar também com
os petistas que chamam os eleitores de Aécio de “filhinhos de
papai”, de “fascistas”. Deveriam se indignar quando petistas
destilaram seu ódio contra São Paulo, no primeiro turno. Deveriam
se indignar ao afirmar que quem vota em Aécio “só pensava em si
mesmo e não nos mais humildes”: o PT não tem o monopólio da
sensibilidade social, sinto muito. Só há quem pense nela de forma
diferente.
Deveriam
se indignar quando petistas sugeriram que Rachel Sherazade deveria
ser estuprada. Deveriam se indignar quando petistas fizeram ameaças
de morte à família de Aécio Neves. E muitas coisas mais.
Não
acredito na indignação destes diante da estupidez que vemos sobre o
nordeste e outros temas: é uma indignação política, e não uma
verdadeira defesa da tolerância e do respeito. Estes, foram tão
preconceituosos, desrespeitosos, “fascistas” e intolerantes
quanto aqueles.
Mas,
felizmente ainda posso receber um abraço de meus alunos e amigos
petistas ou não petistas mas que votaram em Dilma, por seus motivos
tão válidos quanto os meus: apenas discordo deles. E isso não dói
em nenhum de nós. Nos respeitamos de diversidade, que é a única
coisa que existe de fato, entre as pessoas.
Portanto,
declaro que continuo preferindo morar no meu Brasil, no Brasil onde
moramos todos os que votaram em Aécio e todos que votaram em Dilma,
e todos que votaram nulo, e todos que preferiram ir pescar do que
perder tempo com candidatos que eles acreditavam que não iam mudar
coisa alguma no país.
No meu
Brasil, que luto pra construir e continuarei lutando, cada um vai
poder fazer as opções políticas que quiser, por seus motivos, por
seus valores e ideias, e os outros, que não compartilham deles,
poderão sagradamente discordar . Discordar não faz ninguém mais ou
menos inteligente que o outro: só diferente.
No meu
Brasil, seremos diferentes alegremente. Só concordaremos que é
proibido não tolerar a discordância. A diversidade é isso:
conviver com a certeza de que ninguém é como nós, e não a
tentativa de igualar todos nós.
O mundo é
feito de diferenças, não de igualdades. Ideais que impunham
igualdades aos desiguais já produziram tragédias demais na
humanidade. Se formos dividir o país em função de nossas
diferenças, construiremos um país com 200 milhões de ilhas.
E
certamente eu sentiria falta de alguém que me dissesse: “eu
discordo de você”. E morreria no tédio, na solidão das verdades
absolutas.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
A COPA DA CIDADANIA FOI PERDIDA
A COPA DA CIDADANIA FOI PERDIDA
"Amigos, estamos atolados na mais brutal euforia. Ontem, quando rompia a primeira estrela da tarde, o Brasil era proclamado bicampeão do mundo. Foi um título que o escrete arrancou de suas rútilas entranhas. E, a partir da vitória, sumiram os imbecis, e repito: — não há mais idiotas nesta terra. Súbito o brasileiro, do pé-rapado ao grã-fino, do presidente ao contínuo, o brasileiro, dizia eu, assume uma dimensão inesperada e gigantesca. O bêbado tombado na sarjeta, com a cara enfiada no ralo, também é rei. Somos 75 milhões de reis"
Nelson Rodrigues - 1962
Quando
eu era garoto, o Brasil tornou-se tricampeão mundial de futebol, no
México. Me lembro ainda muito claramente de alguns lances dos vários
jogos do Brasil, naquela Copa do Mundo. Lembro do drible de corpo de
Pelé no goleiro uruguaio: o mais belo gol não feito que já vi. Me
lembro do passe de Tostão, quase caído, para Pelé no meio da área
e deste para Jairzinho fazer o único gol contra a Inglaterra. E,
claro, nesse mesmo jogo, lembro da incrível defesa do goleiro inglês
para a cabeçada de Pelé. Finalmente, lembro-me da explosão que
este país viveu quando Carlos Alberto enfiou aquele último gol
contra a Itália, praticamente garantindo o título.
A
partir dali a gritaria foi geral, fogos pra todo lado e milhares e
milhares de pessoas nas ruas. Inclusive eu.
Peguei
o “trolebus”- um dos últimos que ainda operavam em Belo
Horizonte, e desci a rua do Ouro até a Aimorés, e daí para a
Afonso Pena: era um mar de gente.
Depois,
vivi as decepções de 74, de 78... Tive grandes esperanças com o
belo futebol das seleções de 82 e 86. Em 1990, se vivi mais uma
tristeza, vivi também a diversão de torcer para a Alemanha contra a
Argentina.
Voltamos
a ser campeões em 94, com o sabor adicional de uma disputa de
pênaltis. Passamos pela traumática Copa de 98 e novamente vibramos
em 2002.
Em
2002 eu morava em Brasília, e me lembro dos aviões da FAB
escoltando o avião da seleção passando baixinho sobre a minha
casa, que ficava na rota do aeroporto internacional de Brasília.
Em
2006 e 2010, voltamos a tropeçar em momentos decisivos, como já
havia acontecido, por exemplo, em 82 e 86.
Entre
uma e outra dessas duas últimas Copas do Mundo, tivemos a notícia
de que sediaríamos, outra vez, um campeontao mundial.
Não
éramos mais o país de 1950. Já não tínhamos mais complexo de
viralatas, como gostava de dizer Nelson Rodrigues. Afinal, estávamos,
desde 62, “atolados na mais brutal euforia”, como disse o próprio
em uma histórica e emocionante crônica. Bicampeões mundiais não
tinham mais nada a provar aos europeus, ou a quem quer que seja,
dentro de um campo de futebol. Que dirá, então, de pentacampeões.
Entretanto,
mesmo em 2007, quando o projeto da Copa do Mundo no Brasil se
confirmava, com total apoio do governo Luís Inácio Lula da Silva,
tínhamos muito a provar a nós mesmos.
O
governo adotou o discurso ufanista, novamente vinculando o futebol à
política, prática comum, como se viu, tanto à ditadura militar
quanto aos governos “de esquerda”. Lula bravateava o “Brasil
Grande”, o “Nunca Antes na História deste país”, e tudo mais.
O momento econômico era favorável, muito mais graças aos preços
internacionais das comoditties do que propriamente por ações
significativas do governo. Mas, boa parte dos brasileiros embarcou
nessa ideia.
E
não seria uma ideia de todo má. Era uma grande oportunidade para
nós. Grande oportunidade para mudarmos ou melhorarmos muita coisa
neste país. Grande oportunidade para os negócios, para a população
que poderia contar com os benefícios das obras de mobilidade urbana
e outras, atingindo de maneira importante a qualidade de vida de
milhões de brasileiros; grande oportunidade para nos acostumarmos
com planejamento, com objetivos claros, com metas.
A
FIFA, mal ou bem, nos trazia uma contribuição que poderia ser muito
relevante: aprendermos de vez a realizar o que projetamos, de
enxergar as iniciativas em parceria do estado e das empresas, não só
como negócios, mas como gerando riqueza e bem-estar para a
população, como aconteceu em diversas oportunidades na Europa.
Mas,
não foi o que se viu. Aplicamos à organização e montagem da Copa
do Mundo tudo que temos de pior: corrupção, descaso com recursos,
descompromisso, burocracia, e tudo mais que conhecemos tão bem... há
séculos.
Hoje,
vivemos esse momento estranho, essa alegria com gosto amargo, essa
vergonha que aparece nas redes sociais, de sermos o país que ama o
futebol, o país que é brilhante e empolgante dentro de campo; mas
que também é decepcionante fora dele. Sermos o país do futebol não
faz de nós um país melhor para vivermos nele.
Que
fique a lição: os campos de futebol são e serão sempre de todos
nós, brasileiros, que amamos este jogo. Nós brasileiros que, como
amantes e praticantes desse jogo, temos e teremos sempre o direito de
nos “atolarmos na mais brutal euforia”. Nós brasileiros que nos
deslumbraremos novamente com esta bela arte, desta vez tão perto de
nós.
Torceremos,
sofreremos em cada lance, nos deslumbraremos com alguns dos melhores
jogadores do mundo, aqui, em nossos gramados, na vizinhança. E quem
sabe ergueremos novamente essa taça tão nossa conhecida... Tão
conhecida que estará sempre em casa, por aqui.
Mas,
sabemos, agora de forma muito evidente, muito mais concreta – sem
trocadilho! - que ainda temos um país melhor para construirmos, para
nós mesmos. E isso não virá do talento futebolístico: virá da
cidadania efetiva. Essa, é uma Copa que ainda não vencemos.
Murilo
Cisalpino
Junho
de 2014
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