SEGUINDO A PROCISSÃO, MAS NEM TANTO...
Mama, take this badge from me
I can't use it anymore
It's getting dark too dark to see
Feels like I'm knockin' on heaven's door
(Bob Dylan)
Moro a poucos metros de uma igreja. Como sinal dos tempos, eu acrescento: moro a poucos metros de uma igreja católica. Digo isso porque, quando criança, igreja e católica eram praticamente sinônimos. Dificilmente se via outro templo, outra igreja. Quando alguém dizia: “lá na minha igreja” era apenas uma questão de paróquia, não de religião.
Me lembro de apenas duas igrejas não católicas na minha infância: uma igreja anglicana e uma igreja metodista. Ambas em Belo Horizonte e ambas muito distantes, em termos culturais, para mim. Ser protestante era alguma coisa que pedia explicação. Evangélico era algo que não existia.
Se for puxar pela memória, então, o primeiro templo não cristão que conheci, acho que foi uma sinagoga, em Nova Iorque – ficava próxima ao hotel em que estávamos. A primeira mesquita que conheci foi em São Paulo, há uns vinte anos atrás.
Mas, não é nada disso que eu queria escrever. Pois então, retomo: moro a poucos metros de uma igreja católica, aqui em Timóteo. Simpática igreja, construída em forma de cruz, como a catedral de São Pedro, em Roma. Não a conheço por dentro, acredite se quiser. O que já nos dispensa dizer que não sou um bom católico, e muito menos uma pessoa religiosa – pelo menos não do jeito tradicional.
Tenho lá minhas pequenas e sagradas crenças, compondo um emaranhado de influências que vão do católico ao candomblé, passando por esquinas ainda mais exóticas, por estas terras, como a Cabala, o Sufi, o Zen-Budismo e outras mais misteriosas e imprecisas que é melhor nem comentar.
Novamente me desvio do tema desejado, portanto, volto ao ponto de partida: moro a poucos metros de uma simpática igreja católica, aqui em Timóteo.
Estamos na Páscoa e, como é comum nessa época, passou aqui pela frente de casa, uma procissão. Ou melhor, algumas procissões. A mais interessante delas foi a chamada Procissão do Senhor Morto: acontece na sexta-feira da paixão, no início da noite, à luz de velas.
Em casa, da pequena janela da sala, pude ver e ouvir a procissão passar, acompanhando os passos com seus cânticos, centenas de pontos de luz borboleteando na noite. Os sons, o ritmo, as velas: tudo aquilo me conduziu como um rio de luz pelo tempo, levando-me por outras procissões, vida adentro.
Quando garoto, em Barbacena, cidade natal de meu pai e onde passava preferencialmente as férias, convivi com esse universo. Era um verdadeiro teatro. As pessoas incorporavam seus papéis, representando as figuras importantes do cristianismo. As ruas da cidade eram preparadas ao longo de dias de muito trabalho, dedicação e arte: quilômetros de tapetes de serragem colorida e pétalas de rosa. Imagens eram lavadas e vestidas.
Os séquitos saiam de diferentes igrejas da cidade, reunindo centenas e centenas de pessoas, durante o dia e à noite.
Ano após anos, convive com elas. E o papel delas na minha vida foi mudando. Mas, nunca deixei de ter por elas um respeito silencioso, de quem procura, se não entender, pelo menos admirar o fenômeno da fé e seu efeito nas pessoas.
Menino, elas eram uma festa colorida e divertida. Adolescente, elas eram uma oportunidade muito boa para a paquera: em Barbacena, quase todo mundo se envolvia com as procissões, participando direta ou indiretamente. Era a oportunidade para ver e encontrar as meninas, com imensas possibilidades de fugir da atenção das famílias.
Adulto, elas eram um pequeno obstáculo a vencer para tomar uma cervejinha e jogar sinuca. Nas cidades pequenas e tradicionais de Minas, as procissões – especialmente da semana santa, são um episódio extremamente respeitado, são o auge da expressão de fé e devoção das pessoas. E os padres são pessoas temidas. Não se deve irritá-los ou afrontá-los, sob o risco de uma repreensão pública. Portanto, é preciso usar de criatividade e estratégia.
Certa vez, estávamos em Cordisburgo, passando uns dias na fazenda, durante a semana santa. E bateu aquela vontade de tomar umas e outras. Entramos no carro e fomos para a cidade, como se em Belo Horizonte estivéssemos e fossemos encontrar estabelecimentos comerciais abertos em um Sábado de Aleluia.
A cidade de Cordisburgo se resumia, nessa época, a três ou quatro ruas onde havia algum tipo de comércio. O mais eram ruas residenciais. Assim que chegamos, percebemos nosso erro de avaliação: tudo fechado. Como bons bebedores de cerveja, insistimos. Demos mais uma volta. E nada. Descemos do carro, sentamo-nos em um dos bancos da praça, para decidir o próximo passo: e agora? Claro que desistir ainda estava longe.
Fizemos um rápido levantamento das possibilidades: ir à outra cidade próxima, Paraopeba; ir ao posto de gasolina onde havia uma lanchonete que era também ponto de ônibus interestadual, às margens da BR 040.
De repente, percebemos uma movimentação curiosa: dois homens apontaram na rua e pararam diante da porta do bar, na esquina. Por uma fração de segundos, a porta se abriu, e eles foram engolidos pelo prédio, como se fosse um sapo de concreto e madeira devorando moscas.
Pensamos: eis aí o segredo do universo! Fomos até o bar. No caminho, pudemos ver a procissão que se aproximava- o motivo de estar tudo fechado. Aceleramos o passo. Batemos na porta do bar. A porta se entreabriu. Um homem, com olhar assustado disse: “Entra, entra, rápido, senão o padre vai ver”! Pulamos pra dentro e a porta se fechou atrás de nós.
O Bar estava lotado. Todo mundo tomando cerveja, ou uma pinguinha, e jogando sinuquinha, daquelas de ficha. Era o paraíso na Terra! E o paraíso estava completo: tira-gosto também estava rolando – frio, mas estava. É o que importa.
A procissão se aproximava. Um “olheiro” estava grudado em uma fresta da janela, atento aos fatos. Quando a procissão estava a alguns metros do bar, o dono bateu no balcão e ordenou: “todo mundo calado, nem um pio”! Ninguém falava, ninguém nem mesmo se mexia no bar. A cantoria foi se aproximando, lentamente. Em minutos, tomou conta do ambiente. Podíamos ouvir também o barulho dos passos das centenas de pessoas que seguiam a procissão. O silêncio e a imobilidade eram totais. Um homem olhava preocupado para o próprio copo de cerveja: parecia pensar que se a procissão demorasse muito a passar, a cerveja ia esquentar, mas ele não tinha coragem nem do breve gesto de levar o copo à boca.
Assim como veio, a cantoria foi se afastando. Até que o “olheiro” falou: “beleza, liberado”. E o bar inteiro, ao mesmo tempo, emergiu do silêncio. Copos tiniram, risos voaram soltos, tacos, bolas colidindo... mas a porta permaneceu fechada.
Na conversa com o pessoal, descobrimos que o maior medo de todos, era do padre descobrir. Disseram que ele criticava as pessoas, nominalmente, na missa, se a afronta aos costumes fosse grave. O que era considerado uma enorme vergonha.
O dono do bar saiu-se com essa pérola: “o mais difícil não é controlar a porta. O mais difícil é não deixar o cheiro dos tira-gostos “vazar” lá pra fora, porque aí o padre desconfia. Esquentar e fritar ou é muito antes ou depois da procissão. E ninguém reclama porque a coisa é séria”!
Voltamos pra fazenda no final da tarde, de barriga e cara cheias. Na época, a lei não era seca. Só a procissão. Para os que não sabiam abrir as portas do céu, claro...
Drummond e o "Diário Reinventado"
Essa foto registra homenagem deliciosa e delicada do prof. Luis Carlos Maciel ao meu pai, Eduardo Cisalpino. O livro que o prof. segura nas mãos e que parece "comentar" com o poeta, é o "Diário Reinventado, de Eduardo Cisalpino.. Obrigado à Magda pela foto.
Jack Kerouac
Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas
sexta-feira, 29 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 10
BULLING: O NOVO QUERIDINHO DO BRASIL
Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz
(Arnaldo Baptista/Rita Lee)
Quando eu tinha lá meus 13, 14 anos, o bulling já existia, mas, não tinha nome estrangeiro e, talvez também por isso, pouca gente ligava pra ele. Afinal, é muito mais bacana falar sobre bulling do que sobre zoação. Imaginem um desses psicólogos de plantão, ou o Globo Repórter falando sobre o tema: “Zoação”... Imaginem o Sérgio Chapelein, seríssimo, falando: “Hoje, no Globo Repórter, você vai saber tudo sobre... Zoação... Nem pensar.
Quando eu tinha 13 ou 14 anos, a zoação era tanta que dava até pra formar um time. Meu time da escola, por exemplo, tinha essa formação: Feijão, Meleca, Mancada, Preto e Minhoca. Na reserva, tinha ainda o “Deixa que eu chuto” (um garoto que tinha uma perna mais curta que a outra), o Montanha e o Zóio (um garoto meio vesgo).
Esses eram os famosos, os populares, já que levaram a turma por dois ou três anos a ser campeã do colégio. Pelo menos três desses aí foram também da seleção mineira de futebol de salão. Outros, como eu, eram também os feras da natação, que dava muito ponto nas épocas de jogos internos. Portanto, os apelidos eram verdadeiros troféus, eram o próprio bafo da fama.
Se fosse contar os outros, da minha sala e da minha série, mais os outros de outras séries que eu conhecia, contabilizaria pelo menos setenta por cento do colégio. Muita gente não era conhecida pelo nome, mas, pelo apelido. O Meleca, por exemplo, ficava puto da vida e dava porrada em quem o chamasse pelo nome. A sacanagem era dizer pros incautos o nome dele e dizer que ele detestava que o chamassem de Meleca. O cara ia lá e tomava uns tapas ao chamar o Meleca pelo nome.
Meleca, hoje, é músico de sucesso no estado. Feijão é advogado de renome. Montanha é comerciante, dono de várias lojas. Mancada é professor universitário, acadêmico de renome... e vai por aí afora.
Tive um professor de biologia que não tinha uma das pernas, do joelho pra baixo. Certa vez, viajamos com ele, para Parati, no estado do Rio. Na praia, ele tirou a prótese pra nadar e nós aproveitamos pra roubá-la e correr. Ele correu atrás da gente, pulando numa perna só, como um saci. Rimos muito, nós e ele. E ficou nisso.
Graças a Deus, nesse tempo, ninguém era “politicamente correto” e a gente tinha espaço para ser gente, simplesmente. O simples, ingênuo, cristalino, dificilmente tem “intenções”. São as intenções que ferem.
Tem um outro apelido de que me lembro, acho que era amigo de um dos meus irmãos: o “Cês Quatro”... Tinha esse apelido porque era muito gordo. Certamente foi um dos apelidos mais criativos que conheci. Reza a lenda que ele sentou-se sobre um cachorrinho “Pincher”, num sofá, e matou o coitadinho.
Não tenho notícia de nenhum deles por aí, matando os outros ou se matando.
Poderia ficar por aqui mais alguns parágrafos relacionando apelidos de toda espécie, como na área alimentar: Lingüiça, Salsicha, Presuntinho, Torresmo, Mandioca, Batata, Queijinho, Ovo Frito, etc, etc. Ou poderia ir pros mais clássicos: Rolha de Poço, Quatro Olhos, Mobby Dick, Baleia, Pintor de Rodapé, Salva-Vidas de Aquário, Jóquei de Minhoca, Espanador da Lua, Mão de Vaca, Casas da Banha, Troco, Dumbo, Orelha de Abano, Pixaim, Negão, Tiziu, Carvão, Macarrão da Santa Casa, Alemão, Galego, Omo Branco Total.....
Até o disciplinário do colégio e o padre que tomava conta da cantina, tinham apelidos. Eram, respectivamente, o Geraldo Jararacá – com a variação também para Geraldo Bigodão, e o Padre Coqueiro – usava de maneira doloridamente habilidosa sua bengala contra a cabeça da gente na fila da cantina, quando alguém “furava” a fila.
Claro que muitos não gostavam dos apelidos. Claro que, esporadicamente, algumas confusões aconteciam. Mas, nunca tive notícia de ninguém matando ninguém por causa disso. Pessoas infelizes? Com certeza haviam. Gente marcada por isso, ao longo da vida? Com certeza. Mas, nunca vi reportagem sobre isso, nunca vi psicólogo na TV falando sobre isso, nunca tive palestra na escola sobre o tema. Nada, nada, nada.
Não estou aqui querendo dizer que isso é “normal” e muito menos inofensivo. Estou querendo, na verdade, discutir o outro lado dessa história. Ou, colocando de outra forma: o que fez dos apelidos e zoações uma coisa tão séria?
Acho que há ingredientes novos nessa história, que muita gente não está considerando. Acho que esses ingredientes novos são muito mais contundentes do que as zoações. Eles fazem das zoações alguma coisa de insuportável, transpondo em muito os efeitos disso na minha adolescência.
Descendo pela rua onde moro, colho algumas pistas do que quero dizer: de cima abaixo, as casas ostentam cercas elétricas, muros altos e alarmes. Gente se tranca lá dentro, protegendo-se da violência dos nossos dias. Da casa-fortaleza, vão ao clube restrito aos seus iguais. Do clube restrito, vão ao Shopping e não às lojas da cidade, porque o shopping tem os seguranças de plantão. Põem os filhos nas escolas cercadas de muros, câmeras e portaria rigorosa.
Quando penso que eu, filho da classe média, brincava na rua e jogava bola na favela perto de casa, nos morros do bairro da Serra, em Belo Horizonte, penso também que pouca gente acreditaria nisso.
Tinha amigos ricos e amigos paupérrimos. Tive amigos bandidos, dos dois lados da bandidagem: traficantes e políticos (desculpem, não resisti à piada...).
O que estou querendo dizer, afinal, é que as casas-fortalezas de hoje refletem o estado de nossas almas, de nossos corações. Tudo é uma grande ameaça. Tudo pode nos matar, até os apelidos, até as zoações. E estamos ensinando isso aos nossos filhos. Ou não estamos mais sendo capazes de ensinar aos nossos filhos que isso não mete medo em ninguém, que isso é pequeno e não ameaça. Temos armas pra isso, temos imunidade contra isso, se quisermos.
Falamos, orgulhosos, sobre os preconceitos que superamos, sobre as desigualdades que diminuímos, mas, o fato é que construímos uma sociedade muito, mas, muito mais intolerante e cruel do que décadas atrás.
Se hoje há mais espaço para negros, índios, mulheres, homossexuais, etc, etc, há muito menos espaço para as pessoas, para as pessoas como elas são – não como querem que sejamos.
O que nos cerca parece ser um mundo da perfeição. Um mundo de gente bonita, magra, “bem sucedida”. E ninguém suporta o contrário. Adolescentes andam por aí fazendo operação de redução de estômago aos 14 anos – certamente com o consentimento dos pais que também não suportam ter um filho “com defeito” e dizem que estão procurando a “felicidade” deles. Que felicidade espera uma pessoa que aprendeu que a felicidade são os outros? Meninas andam por aí morrendo de inanição por causa disso.
Existe um negócio chamado “moda infantil”. Quando eu era criança, moda infantil era a roupa velha dos irmãos mais velhos ou qualquer bosta de pano que a gente pudesse colocar sobre o corpo o mais rápido possível pra ir brincar logo na rua.
Roupa certa, cabelo certo, orelha certa, dentes certos, sapato certo, barriga certa, mochila certa, lápis certo, celular certo, carro certo, nariz certo, colégio certo, amigos certos, emprego certo... É coisa certa demais pra quem é tão errado como nós.
Outro dia vi um cidadão falando na TV que era preciso que todo mundo se depilasse, por uma questão de higiene.... A humanidade sobreviveu com pelos por milênios, mas agora quem tem pelos é um porco. É o meu caso. Sou um porco cabeludo e não pretendo me depilar pra atender à vontade dos outros. Prefiro fuçar na minha laminha, tão cara e conhecida, a comprar como paraíso o chiqueiro dos outros. A minha felicidade não pertence nem a ele nem aos meus pelos. Pertence à minha alma. E ela não se incomoda nem um pouco com os “defeitos” externos dos outros. Ela quer ver quem eles são, não o que eles são.
Não importa ser um cretino, mal caráter, sacana, vendido, superficial, cruel... desde que você seja o ideal de uma sociedade irreal.
Muitos não suportam essa corrida louca pra lugar nenhum. E se matam. E matam. Por algo que só existe nos comerciais. Há quem acredite que esse mundo de photoshop existe de fato.
Acho que há um imenso despreparo das pessoas, de um modo geral. Quanto mais opções temos, menos opções fazemos. Quanto mais podemos, mais deixamos que nos digam o que fazer, o que pensar, e quem devemos ser, na aparência. Vivemos um mundo de vitrine de loja no qual somos os manequins.
Por vezes penso que uma entidade controladora usurpou nosso direito à humanidade, nosso direito a sermos nós mesmos e nos impôs uma cartilha de “como ser” que nós perseguimos, mesmo sabendo que é inútil, porque nós não somos perfeitos e sempre existiram os outros a nos lembrar disso. Sempre haverá alguém mais “perfeito”, mais “certo” que nós.
Conheci uma garota de 14 anos, magérrima, que chorava diante do espelho por causa de uma barriga que só ela via. Chorava e dizia: porque eu não sou magrinha como a “fulana” ? Essa nossa sina?
Tudo, hoje, quanto aos valores, é relativizado. Mas, quanto à aparência, não há concessões. Por isso, uma zoação toma essa dimensão sobre-humana. Porque vivemos um mundo de plástico, um mundo para-humano, onde a felicidade pertence cada vez mais aos outros e cada vez menos a nós mesmos.
Considerando que a busca pela felicidade é natural em nós, é parte de sermos humanos, extirpá-la de nós e deixá-la nas mãos dos outros – outros que são nosso inferno, é cruel demais... cada vez menos pessoas sobrevivem e sobreviverão a isso.
Bulling é muito menor que isso. Mas, ninguém quer ver. Implicaria em rever todas as nossas prioridades, rever todos os nossos objetivos, toda essa indústria do plástico e da plástica.
Eu, por meu lado, aprendi a me amar tanto e a conhecer tanto a pequenez de nós todos, que não me iludo com isso e insisto em considerar que a minha felicidade é o que EU quero pra mim, e não o que me dizem pra querer.
Ser feliz é tudo que queremos. E a sociedade está tentando nos convencer de que há uma fórmula para isso. É uma cruel mentira. Mentira que nós mesmos inventamos pra nós. E somos nossas próprias vítimas.
Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz
(Arnaldo Baptista/Rita Lee)
Quando eu tinha lá meus 13, 14 anos, o bulling já existia, mas, não tinha nome estrangeiro e, talvez também por isso, pouca gente ligava pra ele. Afinal, é muito mais bacana falar sobre bulling do que sobre zoação. Imaginem um desses psicólogos de plantão, ou o Globo Repórter falando sobre o tema: “Zoação”... Imaginem o Sérgio Chapelein, seríssimo, falando: “Hoje, no Globo Repórter, você vai saber tudo sobre... Zoação... Nem pensar.
Quando eu tinha 13 ou 14 anos, a zoação era tanta que dava até pra formar um time. Meu time da escola, por exemplo, tinha essa formação: Feijão, Meleca, Mancada, Preto e Minhoca. Na reserva, tinha ainda o “Deixa que eu chuto” (um garoto que tinha uma perna mais curta que a outra), o Montanha e o Zóio (um garoto meio vesgo).
Esses eram os famosos, os populares, já que levaram a turma por dois ou três anos a ser campeã do colégio. Pelo menos três desses aí foram também da seleção mineira de futebol de salão. Outros, como eu, eram também os feras da natação, que dava muito ponto nas épocas de jogos internos. Portanto, os apelidos eram verdadeiros troféus, eram o próprio bafo da fama.
Se fosse contar os outros, da minha sala e da minha série, mais os outros de outras séries que eu conhecia, contabilizaria pelo menos setenta por cento do colégio. Muita gente não era conhecida pelo nome, mas, pelo apelido. O Meleca, por exemplo, ficava puto da vida e dava porrada em quem o chamasse pelo nome. A sacanagem era dizer pros incautos o nome dele e dizer que ele detestava que o chamassem de Meleca. O cara ia lá e tomava uns tapas ao chamar o Meleca pelo nome.
Meleca, hoje, é músico de sucesso no estado. Feijão é advogado de renome. Montanha é comerciante, dono de várias lojas. Mancada é professor universitário, acadêmico de renome... e vai por aí afora.
Tive um professor de biologia que não tinha uma das pernas, do joelho pra baixo. Certa vez, viajamos com ele, para Parati, no estado do Rio. Na praia, ele tirou a prótese pra nadar e nós aproveitamos pra roubá-la e correr. Ele correu atrás da gente, pulando numa perna só, como um saci. Rimos muito, nós e ele. E ficou nisso.
Graças a Deus, nesse tempo, ninguém era “politicamente correto” e a gente tinha espaço para ser gente, simplesmente. O simples, ingênuo, cristalino, dificilmente tem “intenções”. São as intenções que ferem.
Tem um outro apelido de que me lembro, acho que era amigo de um dos meus irmãos: o “Cês Quatro”... Tinha esse apelido porque era muito gordo. Certamente foi um dos apelidos mais criativos que conheci. Reza a lenda que ele sentou-se sobre um cachorrinho “Pincher”, num sofá, e matou o coitadinho.
Não tenho notícia de nenhum deles por aí, matando os outros ou se matando.
Poderia ficar por aqui mais alguns parágrafos relacionando apelidos de toda espécie, como na área alimentar: Lingüiça, Salsicha, Presuntinho, Torresmo, Mandioca, Batata, Queijinho, Ovo Frito, etc, etc. Ou poderia ir pros mais clássicos: Rolha de Poço, Quatro Olhos, Mobby Dick, Baleia, Pintor de Rodapé, Salva-Vidas de Aquário, Jóquei de Minhoca, Espanador da Lua, Mão de Vaca, Casas da Banha, Troco, Dumbo, Orelha de Abano, Pixaim, Negão, Tiziu, Carvão, Macarrão da Santa Casa, Alemão, Galego, Omo Branco Total.....
Até o disciplinário do colégio e o padre que tomava conta da cantina, tinham apelidos. Eram, respectivamente, o Geraldo Jararacá – com a variação também para Geraldo Bigodão, e o Padre Coqueiro – usava de maneira doloridamente habilidosa sua bengala contra a cabeça da gente na fila da cantina, quando alguém “furava” a fila.
Claro que muitos não gostavam dos apelidos. Claro que, esporadicamente, algumas confusões aconteciam. Mas, nunca tive notícia de ninguém matando ninguém por causa disso. Pessoas infelizes? Com certeza haviam. Gente marcada por isso, ao longo da vida? Com certeza. Mas, nunca vi reportagem sobre isso, nunca vi psicólogo na TV falando sobre isso, nunca tive palestra na escola sobre o tema. Nada, nada, nada.
Não estou aqui querendo dizer que isso é “normal” e muito menos inofensivo. Estou querendo, na verdade, discutir o outro lado dessa história. Ou, colocando de outra forma: o que fez dos apelidos e zoações uma coisa tão séria?
Acho que há ingredientes novos nessa história, que muita gente não está considerando. Acho que esses ingredientes novos são muito mais contundentes do que as zoações. Eles fazem das zoações alguma coisa de insuportável, transpondo em muito os efeitos disso na minha adolescência.
Descendo pela rua onde moro, colho algumas pistas do que quero dizer: de cima abaixo, as casas ostentam cercas elétricas, muros altos e alarmes. Gente se tranca lá dentro, protegendo-se da violência dos nossos dias. Da casa-fortaleza, vão ao clube restrito aos seus iguais. Do clube restrito, vão ao Shopping e não às lojas da cidade, porque o shopping tem os seguranças de plantão. Põem os filhos nas escolas cercadas de muros, câmeras e portaria rigorosa.
Quando penso que eu, filho da classe média, brincava na rua e jogava bola na favela perto de casa, nos morros do bairro da Serra, em Belo Horizonte, penso também que pouca gente acreditaria nisso.
Tinha amigos ricos e amigos paupérrimos. Tive amigos bandidos, dos dois lados da bandidagem: traficantes e políticos (desculpem, não resisti à piada...).
O que estou querendo dizer, afinal, é que as casas-fortalezas de hoje refletem o estado de nossas almas, de nossos corações. Tudo é uma grande ameaça. Tudo pode nos matar, até os apelidos, até as zoações. E estamos ensinando isso aos nossos filhos. Ou não estamos mais sendo capazes de ensinar aos nossos filhos que isso não mete medo em ninguém, que isso é pequeno e não ameaça. Temos armas pra isso, temos imunidade contra isso, se quisermos.
Falamos, orgulhosos, sobre os preconceitos que superamos, sobre as desigualdades que diminuímos, mas, o fato é que construímos uma sociedade muito, mas, muito mais intolerante e cruel do que décadas atrás.
Se hoje há mais espaço para negros, índios, mulheres, homossexuais, etc, etc, há muito menos espaço para as pessoas, para as pessoas como elas são – não como querem que sejamos.
O que nos cerca parece ser um mundo da perfeição. Um mundo de gente bonita, magra, “bem sucedida”. E ninguém suporta o contrário. Adolescentes andam por aí fazendo operação de redução de estômago aos 14 anos – certamente com o consentimento dos pais que também não suportam ter um filho “com defeito” e dizem que estão procurando a “felicidade” deles. Que felicidade espera uma pessoa que aprendeu que a felicidade são os outros? Meninas andam por aí morrendo de inanição por causa disso.
Existe um negócio chamado “moda infantil”. Quando eu era criança, moda infantil era a roupa velha dos irmãos mais velhos ou qualquer bosta de pano que a gente pudesse colocar sobre o corpo o mais rápido possível pra ir brincar logo na rua.
Roupa certa, cabelo certo, orelha certa, dentes certos, sapato certo, barriga certa, mochila certa, lápis certo, celular certo, carro certo, nariz certo, colégio certo, amigos certos, emprego certo... É coisa certa demais pra quem é tão errado como nós.
Outro dia vi um cidadão falando na TV que era preciso que todo mundo se depilasse, por uma questão de higiene.... A humanidade sobreviveu com pelos por milênios, mas agora quem tem pelos é um porco. É o meu caso. Sou um porco cabeludo e não pretendo me depilar pra atender à vontade dos outros. Prefiro fuçar na minha laminha, tão cara e conhecida, a comprar como paraíso o chiqueiro dos outros. A minha felicidade não pertence nem a ele nem aos meus pelos. Pertence à minha alma. E ela não se incomoda nem um pouco com os “defeitos” externos dos outros. Ela quer ver quem eles são, não o que eles são.
Não importa ser um cretino, mal caráter, sacana, vendido, superficial, cruel... desde que você seja o ideal de uma sociedade irreal.
Muitos não suportam essa corrida louca pra lugar nenhum. E se matam. E matam. Por algo que só existe nos comerciais. Há quem acredite que esse mundo de photoshop existe de fato.
Acho que há um imenso despreparo das pessoas, de um modo geral. Quanto mais opções temos, menos opções fazemos. Quanto mais podemos, mais deixamos que nos digam o que fazer, o que pensar, e quem devemos ser, na aparência. Vivemos um mundo de vitrine de loja no qual somos os manequins.
Por vezes penso que uma entidade controladora usurpou nosso direito à humanidade, nosso direito a sermos nós mesmos e nos impôs uma cartilha de “como ser” que nós perseguimos, mesmo sabendo que é inútil, porque nós não somos perfeitos e sempre existiram os outros a nos lembrar disso. Sempre haverá alguém mais “perfeito”, mais “certo” que nós.
Conheci uma garota de 14 anos, magérrima, que chorava diante do espelho por causa de uma barriga que só ela via. Chorava e dizia: porque eu não sou magrinha como a “fulana” ? Essa nossa sina?
Tudo, hoje, quanto aos valores, é relativizado. Mas, quanto à aparência, não há concessões. Por isso, uma zoação toma essa dimensão sobre-humana. Porque vivemos um mundo de plástico, um mundo para-humano, onde a felicidade pertence cada vez mais aos outros e cada vez menos a nós mesmos.
Considerando que a busca pela felicidade é natural em nós, é parte de sermos humanos, extirpá-la de nós e deixá-la nas mãos dos outros – outros que são nosso inferno, é cruel demais... cada vez menos pessoas sobrevivem e sobreviverão a isso.
Bulling é muito menor que isso. Mas, ninguém quer ver. Implicaria em rever todas as nossas prioridades, rever todos os nossos objetivos, toda essa indústria do plástico e da plástica.
Eu, por meu lado, aprendi a me amar tanto e a conhecer tanto a pequenez de nós todos, que não me iludo com isso e insisto em considerar que a minha felicidade é o que EU quero pra mim, e não o que me dizem pra querer.
Ser feliz é tudo que queremos. E a sociedade está tentando nos convencer de que há uma fórmula para isso. É uma cruel mentira. Mentira que nós mesmos inventamos pra nós. E somos nossas próprias vítimas.
terça-feira, 8 de março de 2011
ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 09
AS PESSOAS
Há pouco tempo atrás, postei aqui um pequeno texto sobre uma árvore, aqui de casa, que foi podada porque suas folhinhas cometiam o terrível crime de cair nas plácidas e clorídricas águas da piscina do vizinho.
Considerando a situação que nós impingimos ao planeta, isso me pareceu revelador, quanto às nossas opções, como seres humanos, diante desse mesmo planeta e também reveladora das nossas idiossincrasias.
Pois tenho motivos para acreditar que as folhas, simples folhas, tem um imenso potencial idiossincrático. Eis que outro episódio se impõe, apenas duas casas abaixo, na mesma rua, com as pobres folhas, que inocentemente caem sem pedir opinião, sem escolher freguês. Acredito profundamente que elas não caem de caso pensado.
Acontece que duas casas abaixo vive uma senhora e sua família. Em frente à sua casa, há uma árvore. Pequena árvore, ainda jovem e, agora, mutilada. Até o tronco, pobrezinha. E qual foi seu erro, qual foi o pecado que lhe trouxe a serra? Deixou cair suas folhas sobre a calçada da dita senhora.Irada, a senhora podou a árvore e ainda arrastou sua funcionária até a calçada e afirmou, peremptória: “Fulaninha, a partir de hoje, não admito uma única folha na minha calçada”
Para muitos, essa é uma frase e uma situação absolutamente “normal”, corriqueira, cotidiana e não merece uma crônica. Os senhores que, por acaso, vierem a ler essa pequena crônica, talvez não concordem comigo, ou irão se espantar com o que vou dizer: para mim, é uma frase no mínimo surpreendente.
Senão, vejamos... Na primeira casa à direita, a pouquíssimos metros da calçada imaculável dessa senhora, há uma árvore. Sobre a qual a senhora não tem a mínima autoridade ou jurisdição. E não me parece que tenha autoridade também sobre o vento, a chuva e que dirá sobre as estações do ano.
E há agravantes: em frente à minha casa, que é a segunda à direita, há duas enormes e frondosas árvores. E, indisciplinas, como eu, liberam alegremente suas folhas – suas muitas folhas, em profusão, pra todo lado.
As “minhas folhas” e as folhas da vizinha certamente chegarão à calçada da desfolhada senhora, para desespero dessa e possível desemprego de sua funcionária.
O que dizer disso tudo? Eu, digo: como as pessoas são curiosas, não é?
Fico também pensando: como é que uma pessoa, ou, o que é que nos leva a complicar tanto a vida? O que é que nos faz criadores de cavalos com chifres? Pra ser mais direto: o que é que leva alguém a se incomodar tanto com algumas folhas em sua calçada? O que é que leva alguém a se incomodar com sua calçada, meu Deus do céu!
Acordo de madrugada com uma idéia monstruosa: imaginem um lustroso cocô de cachorro na calçada dessa senhora? Imaginem a angústia, o pavor, o desespero. Imaginem o grito seco rasgando a imensidão do universo da senhora ao vislumbrar a modesta contribuição do cãozinho à sua paranóia? ...
Como as pessoas são curiosas... Mas, vamos aprofundar ainda mais essas esquisitices... E considerem que vivemos, os personagens dessa crônica, em uma cidade muito quente, que fica num vale, a 400 metros, em média, acima do nível do mar. Some calor com pressão atmosférica e adicione o fato de ventar pouco por ser um vale e encontrará o clima por aqui, no verão. Sabendo disso, continuemos...
Acontece que essa mesma senhora, e seu marido, ritualmente, todas as manhãs, tiram o carro da garagem, muito cedo e estacionam o carro... advinhem aonde? Vai lá, dá um chute aí, amigo.
Se você pensou que eles estacionam o carro na minha porta, sob as frondosas e folhentas árvores, você acertou. E porque tão cedo? Para que ninguém lhes “tome” a vaga, sob a sombra das árvores... Folhenta sombra das árvores....Certamente aprecia a sombra, mas, não sei o que fazem com as folhas que caem sobre o carro... folhas que o carro conduz a sua garagem e a sua santíssima calçada.
Outro dia flagrei o marido da senhora olhando rabugento para um pacato cidadão que havia parado o carro, antes dele, na sombra “dele”. Faltou muito pouco para que ele fosse além, para que desse o passo da agressão (agressão que cometeu silenciosamente contra a árvore que, provavelmente, ele mesmo plantou): olhava, bravo, e balançava a cabeça, em desaprovação àquele gesto “abusado” do pacato cidadão... cometido na MINHA porta.
Como são curiosas as pessoas... O ódio ás folhas não se estende ao ódio à sombra que elas produzem. E pior: não sei se eles têm a consciência de que não há sombra de árvore sem folhas de árvore. Seu grande número, sua detestada profusão é o berço da sombra. Ou ainda podemos pensar: folha na calçada dos outros é refresco... Quer a sombra, mas não as folhas.
Como são curiosas as pessoas... Podemos estender essa experiência, esse episódio, a muitas outras situações da vida, em que nós queremos as coisas, queremos sempre o bônus das coisas, mas, raramente queremos pagar o ônus das coisas.
Quantos de nós conhecemos pessoas assim, principalmente hoje em dia, que querem realizar seus desejos, mas não querem arcar com as dificuldades que possam advir disso. Nós, professores, especialmente, vemos jovens adultos e adolescentes que querem, querem e como querem. Anseiam pelos frutos, mas não querem os sacrifícios de plantar a árvore que gera esses frutos. Querem colher, mas não querem plantar. Quantos pais angustiados já atendi, ouvindo deles a frase: “não sei de onde esse garoto tirou isso!”
Bom... nós sabemos, não é? E isso não é de “hoje em dia”. Isso, são as pessoas, isso, somos nós. Hoje, ontem e, provavelmente, sempre.
Como são curiosas as pessoas... Ainda hoje, ao guardar meu carro na garagem, observei a profusão de folhas na calçada, na rua, no carro... Olhei bem pra elas, buscando entender o ódio da tal senhora, mas, só consegui a tradicional simpatia, a velha sensação de apreço. Veja folhas e leio árvores, e pra mim elas significam aconchego, leveza, força, esperança, eternidade. Pois então, que venham as folhas, se elas significam árvores.
Como são curiosas as pessoas...O que será que nos leva a atitudes assim ridículas? Frustração? Será que a dimensão titânica dos problemas da vida, por vezes massacrante, nos faz redimensionar o nada e transformá-lo num problema para voltar a ter a sensação de que podemos superar, podemos controlar, “resolver”? Será que a impotência nos faz enxergar tudo com esses olhos ranzinzas, esse dia-a-dia cinza?
Me vem à cabeça a personagem da rainha vermelha, de Lewis Carrol: cortem-lhe a cabeça, cortem-lhe a cabeça. Minha vizinha, a rainha vermelha... e sua pobre árvore, a pagar contas que não são suas...
Me vem também um verso de Renato Russo: “É preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã” . E o verso me doeu, por vários motivos. Primeiro porque acho que realmente não há outra forma de amar as pessoas: acredito cada vez menos no amanhã, Renato...É preciso amar as pessoas, meu caro Renato, mas, confesso, que pra mim é mais fácil amar as folhas... Afinal, pra mim, as folhas fazem algum sentido...
Há pouco tempo atrás, postei aqui um pequeno texto sobre uma árvore, aqui de casa, que foi podada porque suas folhinhas cometiam o terrível crime de cair nas plácidas e clorídricas águas da piscina do vizinho.
Considerando a situação que nós impingimos ao planeta, isso me pareceu revelador, quanto às nossas opções, como seres humanos, diante desse mesmo planeta e também reveladora das nossas idiossincrasias.
Pois tenho motivos para acreditar que as folhas, simples folhas, tem um imenso potencial idiossincrático. Eis que outro episódio se impõe, apenas duas casas abaixo, na mesma rua, com as pobres folhas, que inocentemente caem sem pedir opinião, sem escolher freguês. Acredito profundamente que elas não caem de caso pensado.
Acontece que duas casas abaixo vive uma senhora e sua família. Em frente à sua casa, há uma árvore. Pequena árvore, ainda jovem e, agora, mutilada. Até o tronco, pobrezinha. E qual foi seu erro, qual foi o pecado que lhe trouxe a serra? Deixou cair suas folhas sobre a calçada da dita senhora.Irada, a senhora podou a árvore e ainda arrastou sua funcionária até a calçada e afirmou, peremptória: “Fulaninha, a partir de hoje, não admito uma única folha na minha calçada”
Para muitos, essa é uma frase e uma situação absolutamente “normal”, corriqueira, cotidiana e não merece uma crônica. Os senhores que, por acaso, vierem a ler essa pequena crônica, talvez não concordem comigo, ou irão se espantar com o que vou dizer: para mim, é uma frase no mínimo surpreendente.
Senão, vejamos... Na primeira casa à direita, a pouquíssimos metros da calçada imaculável dessa senhora, há uma árvore. Sobre a qual a senhora não tem a mínima autoridade ou jurisdição. E não me parece que tenha autoridade também sobre o vento, a chuva e que dirá sobre as estações do ano.
E há agravantes: em frente à minha casa, que é a segunda à direita, há duas enormes e frondosas árvores. E, indisciplinas, como eu, liberam alegremente suas folhas – suas muitas folhas, em profusão, pra todo lado.
As “minhas folhas” e as folhas da vizinha certamente chegarão à calçada da desfolhada senhora, para desespero dessa e possível desemprego de sua funcionária.
O que dizer disso tudo? Eu, digo: como as pessoas são curiosas, não é?
Fico também pensando: como é que uma pessoa, ou, o que é que nos leva a complicar tanto a vida? O que é que nos faz criadores de cavalos com chifres? Pra ser mais direto: o que é que leva alguém a se incomodar tanto com algumas folhas em sua calçada? O que é que leva alguém a se incomodar com sua calçada, meu Deus do céu!
Acordo de madrugada com uma idéia monstruosa: imaginem um lustroso cocô de cachorro na calçada dessa senhora? Imaginem a angústia, o pavor, o desespero. Imaginem o grito seco rasgando a imensidão do universo da senhora ao vislumbrar a modesta contribuição do cãozinho à sua paranóia? ...
Como as pessoas são curiosas... Mas, vamos aprofundar ainda mais essas esquisitices... E considerem que vivemos, os personagens dessa crônica, em uma cidade muito quente, que fica num vale, a 400 metros, em média, acima do nível do mar. Some calor com pressão atmosférica e adicione o fato de ventar pouco por ser um vale e encontrará o clima por aqui, no verão. Sabendo disso, continuemos...
Acontece que essa mesma senhora, e seu marido, ritualmente, todas as manhãs, tiram o carro da garagem, muito cedo e estacionam o carro... advinhem aonde? Vai lá, dá um chute aí, amigo.
Se você pensou que eles estacionam o carro na minha porta, sob as frondosas e folhentas árvores, você acertou. E porque tão cedo? Para que ninguém lhes “tome” a vaga, sob a sombra das árvores... Folhenta sombra das árvores....Certamente aprecia a sombra, mas, não sei o que fazem com as folhas que caem sobre o carro... folhas que o carro conduz a sua garagem e a sua santíssima calçada.
Outro dia flagrei o marido da senhora olhando rabugento para um pacato cidadão que havia parado o carro, antes dele, na sombra “dele”. Faltou muito pouco para que ele fosse além, para que desse o passo da agressão (agressão que cometeu silenciosamente contra a árvore que, provavelmente, ele mesmo plantou): olhava, bravo, e balançava a cabeça, em desaprovação àquele gesto “abusado” do pacato cidadão... cometido na MINHA porta.
Como são curiosas as pessoas... O ódio ás folhas não se estende ao ódio à sombra que elas produzem. E pior: não sei se eles têm a consciência de que não há sombra de árvore sem folhas de árvore. Seu grande número, sua detestada profusão é o berço da sombra. Ou ainda podemos pensar: folha na calçada dos outros é refresco... Quer a sombra, mas não as folhas.
Como são curiosas as pessoas... Podemos estender essa experiência, esse episódio, a muitas outras situações da vida, em que nós queremos as coisas, queremos sempre o bônus das coisas, mas, raramente queremos pagar o ônus das coisas.
Quantos de nós conhecemos pessoas assim, principalmente hoje em dia, que querem realizar seus desejos, mas não querem arcar com as dificuldades que possam advir disso. Nós, professores, especialmente, vemos jovens adultos e adolescentes que querem, querem e como querem. Anseiam pelos frutos, mas não querem os sacrifícios de plantar a árvore que gera esses frutos. Querem colher, mas não querem plantar. Quantos pais angustiados já atendi, ouvindo deles a frase: “não sei de onde esse garoto tirou isso!”
Bom... nós sabemos, não é? E isso não é de “hoje em dia”. Isso, são as pessoas, isso, somos nós. Hoje, ontem e, provavelmente, sempre.
Como são curiosas as pessoas... Ainda hoje, ao guardar meu carro na garagem, observei a profusão de folhas na calçada, na rua, no carro... Olhei bem pra elas, buscando entender o ódio da tal senhora, mas, só consegui a tradicional simpatia, a velha sensação de apreço. Veja folhas e leio árvores, e pra mim elas significam aconchego, leveza, força, esperança, eternidade. Pois então, que venham as folhas, se elas significam árvores.
Como são curiosas as pessoas...O que será que nos leva a atitudes assim ridículas? Frustração? Será que a dimensão titânica dos problemas da vida, por vezes massacrante, nos faz redimensionar o nada e transformá-lo num problema para voltar a ter a sensação de que podemos superar, podemos controlar, “resolver”? Será que a impotência nos faz enxergar tudo com esses olhos ranzinzas, esse dia-a-dia cinza?
Me vem à cabeça a personagem da rainha vermelha, de Lewis Carrol: cortem-lhe a cabeça, cortem-lhe a cabeça. Minha vizinha, a rainha vermelha... e sua pobre árvore, a pagar contas que não são suas...
Me vem também um verso de Renato Russo: “É preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã” . E o verso me doeu, por vários motivos. Primeiro porque acho que realmente não há outra forma de amar as pessoas: acredito cada vez menos no amanhã, Renato...É preciso amar as pessoas, meu caro Renato, mas, confesso, que pra mim é mais fácil amar as folhas... Afinal, pra mim, as folhas fazem algum sentido...
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 8
RUA HENRIQUE PASSINI
Até os meus nove anos, morávamos na rua Henrique Passini, entre Níquel e Oriente, na Serra. Era uma casa pequena, charmosa, aquela arquitetura típica dos anos 40/50, no Brasil.
Tenho pouca memória do interior da casa, mas, dos exteriores, tanto da frente quanto dos fundos, a lembrança é muito nítida. Especialmente da cozinha e do quintal. Nesse quintal, bem ao fundo, havia um pequeno barracão.
Na verdade, a casa era especialmente o quintal, onde a maior parte das brincadeiras acontecia. Brincávamos muito, entre nós, os irmãos. Sempre havia também algum dos vizinhos mais freqüentes em casa, nessas memórias, como o Ênio, o garoto que morava na casa ao lado. Meu amigo. O pai do Ênio montava aeromodelos, e isso era muito impressionante pra mim, na época.
Brincávamos de casinha, eu e minhas irmãs. Eu, o “pai”, “saia pra trabalhar”, enquanto elas ficavam tomando conta das “crianças” (as bonecas). Havia também a comidinha, feita com folhas e galhos e, algumas vezes, com grãos de arroz e feijão emprestados por minha mãe.
Me lembro de “trabalhar” construindo estradas, em um pequeno monte de areia, junto à parede da cozinha. Os tratores e caminhões eram caixas de papelão ou pedaços de madeira. Brinquedos “de verdade” eram poucos, nessa época, mas, não faziam a menor falta. Mas não deixavam de ser desejados e impactantes. Talvez por isso a memória dos brinquedos “de verdade” seja tão forte: um avião de plástico que meu irmão Rodrigo ganhou, uma diligência, do tipo faroeste, com cavalos brancos, que eu ganhei.
Essas minhas lembranças são, em geral, esparsas, tênues, às vezes fugidias. Adormecidas, acordam com um cheiro, uma música, um rosto, uma palavra, uma cena.
Há apenas uma presença total, nessas memórias. Uma presença que está em todas as minhas memórias desse período: o olhar de minha mãe. Sempre que tirava os olhos da brincadeira, encontrava o olhar de minha mãe.
Mais que vigilante, minha mãe participava dessas brincadeiras. Direta ou indiretamente. Por vezes contribuía com biscoitos ou bolinhos de verdade pra nossa “casinha”. Outras vezes tinha um papel qualquer, como a “Dona da Venda”, onde fazíamos “compras”. Organizadíssimas compras: até “dinheiro” tinha.
Certa vez, ganhamos um jogo que tinha embalagens de produtos e tudo mais, um verdadeiro “mini-supermercado”. Rendeu meses e meses de brincadeiras.
E minha mãe tolerava pacientemente e divertidamente ver sua cozinha ou sua sala transformadas em supermercado.
Essa presença tão forte e definitiva que tenho de minha mãe, ligada à casa, à tranqüilidade e suave funcionamento do nosso lar, me deixou uma herança profunda: adoro minha casa, adoro ficar em casa. E mais, adoro fazer coisas de casa, ganhar coisas para a casa. Se você me der de presente um pano de prato lindinho, vou ficar feliz demais, acredite.
E adoro cozinhar, principalmente. Tenho memória de ajudar minha mãe na cozinha, com pequenas tarefas, como descascar batatas, ou picar chuchu, desde muito criança. Fazia e faço isso ainda com muito gosto. Minha mãe cozinha com amor, por isso, aprendi que cozinhar para alguém é uma declaração de amor, de afeto.
Ver as pessoas comerem, com prazer e descontração, alguma coisa que eu preparei, me dá uma grande alegria. É realmente um prazer. Vejo esse prazer quando minha mãe está na cozinha. E cozinha para seis filhos. E sabe todos os pratos preferidos. Ainda hoje, quando vou em casa, ela me recebe com meu prato preferido: carne moída com quiabo.
Alguém certa vez disse, com precisão absoluta, que minha mãe tem seis filhos únicos.
Uma das mais doces lembranças que tenho da minha infância, uma das lembranças que mais traduzem o que foi a minha infância e, portanto, boa parte do que eu sou, é a imagem de minha mãe, eu e meus irmãos, sentados nos degraus da escadinha que dava da cozinha para o quintal da casa da rua Henrique Passini, comendo, absolutamente deliciados e encantados, “capitão”.
“Capitão” era um bolinho, feito à mão , ou melhor, feito com as mãos. Fazia-se o prato, normalmente, com arroz, feijão, carne – de preferência picada, ou moída, e o que mais viesse, um pouco de farinha, para dar liga, pegava-se um punhado com a mão, amassando, gentilmente, pra formar um bolinho e, pronto.
Comer com a mão era algo indescritivelmente encantador, pra nós. E proibido – meu pai não gostava dessa prática, dizia que era coisa de índio – o que tornava a aventura ainda mais mágica. Portanto, só era feita quando ele não estava. Era algo só nosso, dos filhos com a mãe.
Nunca comi nada melhor na minha vida. E acho que nunca comerei. É um sabor que pertence à minha alma, não somente ao meu paladar. Assim como a carne moída com quiabo, da Dona Neuza.
Até os meus nove anos, morávamos na rua Henrique Passini, entre Níquel e Oriente, na Serra. Era uma casa pequena, charmosa, aquela arquitetura típica dos anos 40/50, no Brasil.
Tenho pouca memória do interior da casa, mas, dos exteriores, tanto da frente quanto dos fundos, a lembrança é muito nítida. Especialmente da cozinha e do quintal. Nesse quintal, bem ao fundo, havia um pequeno barracão.
Na verdade, a casa era especialmente o quintal, onde a maior parte das brincadeiras acontecia. Brincávamos muito, entre nós, os irmãos. Sempre havia também algum dos vizinhos mais freqüentes em casa, nessas memórias, como o Ênio, o garoto que morava na casa ao lado. Meu amigo. O pai do Ênio montava aeromodelos, e isso era muito impressionante pra mim, na época.
Brincávamos de casinha, eu e minhas irmãs. Eu, o “pai”, “saia pra trabalhar”, enquanto elas ficavam tomando conta das “crianças” (as bonecas). Havia também a comidinha, feita com folhas e galhos e, algumas vezes, com grãos de arroz e feijão emprestados por minha mãe.
Me lembro de “trabalhar” construindo estradas, em um pequeno monte de areia, junto à parede da cozinha. Os tratores e caminhões eram caixas de papelão ou pedaços de madeira. Brinquedos “de verdade” eram poucos, nessa época, mas, não faziam a menor falta. Mas não deixavam de ser desejados e impactantes. Talvez por isso a memória dos brinquedos “de verdade” seja tão forte: um avião de plástico que meu irmão Rodrigo ganhou, uma diligência, do tipo faroeste, com cavalos brancos, que eu ganhei.
Essas minhas lembranças são, em geral, esparsas, tênues, às vezes fugidias. Adormecidas, acordam com um cheiro, uma música, um rosto, uma palavra, uma cena.
Há apenas uma presença total, nessas memórias. Uma presença que está em todas as minhas memórias desse período: o olhar de minha mãe. Sempre que tirava os olhos da brincadeira, encontrava o olhar de minha mãe.
Mais que vigilante, minha mãe participava dessas brincadeiras. Direta ou indiretamente. Por vezes contribuía com biscoitos ou bolinhos de verdade pra nossa “casinha”. Outras vezes tinha um papel qualquer, como a “Dona da Venda”, onde fazíamos “compras”. Organizadíssimas compras: até “dinheiro” tinha.
Certa vez, ganhamos um jogo que tinha embalagens de produtos e tudo mais, um verdadeiro “mini-supermercado”. Rendeu meses e meses de brincadeiras.
E minha mãe tolerava pacientemente e divertidamente ver sua cozinha ou sua sala transformadas em supermercado.
Essa presença tão forte e definitiva que tenho de minha mãe, ligada à casa, à tranqüilidade e suave funcionamento do nosso lar, me deixou uma herança profunda: adoro minha casa, adoro ficar em casa. E mais, adoro fazer coisas de casa, ganhar coisas para a casa. Se você me der de presente um pano de prato lindinho, vou ficar feliz demais, acredite.
E adoro cozinhar, principalmente. Tenho memória de ajudar minha mãe na cozinha, com pequenas tarefas, como descascar batatas, ou picar chuchu, desde muito criança. Fazia e faço isso ainda com muito gosto. Minha mãe cozinha com amor, por isso, aprendi que cozinhar para alguém é uma declaração de amor, de afeto.
Ver as pessoas comerem, com prazer e descontração, alguma coisa que eu preparei, me dá uma grande alegria. É realmente um prazer. Vejo esse prazer quando minha mãe está na cozinha. E cozinha para seis filhos. E sabe todos os pratos preferidos. Ainda hoje, quando vou em casa, ela me recebe com meu prato preferido: carne moída com quiabo.
Alguém certa vez disse, com precisão absoluta, que minha mãe tem seis filhos únicos.
Uma das mais doces lembranças que tenho da minha infância, uma das lembranças que mais traduzem o que foi a minha infância e, portanto, boa parte do que eu sou, é a imagem de minha mãe, eu e meus irmãos, sentados nos degraus da escadinha que dava da cozinha para o quintal da casa da rua Henrique Passini, comendo, absolutamente deliciados e encantados, “capitão”.
“Capitão” era um bolinho, feito à mão , ou melhor, feito com as mãos. Fazia-se o prato, normalmente, com arroz, feijão, carne – de preferência picada, ou moída, e o que mais viesse, um pouco de farinha, para dar liga, pegava-se um punhado com a mão, amassando, gentilmente, pra formar um bolinho e, pronto.
Comer com a mão era algo indescritivelmente encantador, pra nós. E proibido – meu pai não gostava dessa prática, dizia que era coisa de índio – o que tornava a aventura ainda mais mágica. Portanto, só era feita quando ele não estava. Era algo só nosso, dos filhos com a mãe.
Nunca comi nada melhor na minha vida. E acho que nunca comerei. É um sabor que pertence à minha alma, não somente ao meu paladar. Assim como a carne moída com quiabo, da Dona Neuza.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 7
UM RIO MANSO
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia
Quando procuro na alma uma imagem para meus avós maternos, vô Dago e vó Santa, vejo um pequeno rio, de águas calmas, tão calmas que mal se vê seu escoar, como se esse movimento fosse tão definitivo, tão próximo do eterno, que ele simplesmente escoa, sem pressa e quase em silêncio. Conversa baixinho, pra poder ouvir o mundo melhor.
Suas margens são protegidas por um abraço de mata, ao longo de todo curso. Imagino até uma canoa, na qual navego, como um cúmplice.
Acho que esta foi a lição fundamental que aprendi com eles, Dago e Santa: a vida é certeza. Essa certeza que constrói a calma. O rio calmo atravessa todos os terrenos. Mas nunca se perde de si mesmo. É sempre o mesmo rio calmo. Quando chega ao mar, ele se torna o mar, mas, por vezes, quando se sabe sentir, podemos ver uma manhã doce, dominada por uma leve brisa, por marolas ritmadas, e esse conjunto, somado aos pássaros, conspira uma canção ao universo: é o rio dos meus avós, ensinando sua calma ao mar.
Outro dia, estava em Porto Seguro, de papo com o Atlântico. E pude também sorrir para meus avós um sorriso de agradecimento e saudade.
Quando criança, costumava passar dias na casa dos meus avós, na Floresta. Guardo muitas lembranças dessas estadas na casa da Floresta. Não me lembro quantos anos tinha eu, mas, imagino que tivesse aí pelos 10 anos de idade, mais ou menos
Essas lembranças incluem, por exemplo: as peladas na rua; um corte no braço provocado por uma giletada; um garoto estranho, que diziam que era “doido” – autor da giletada; os jogos de bente altas com meu tio Rodolfo e os funcionários da serralheria, em frente à casa; o cheiro de solda que vinha da serralheria; um curió, e alguns canários; a varanda da casa onde havia uma famosa mesa de vidro, cujo tampo foi quebrado por meu pai, acidentalmente, num jogo de truco; um barril cheio de água, no pequeno quintal; a feira, aos domingos; o bar onde comia “pão molhado” e porções de farofa; uma lambreta; um bilboquê; colcha de fuxico.
Foi também nessa casa que tive a permissão par ver, pela primeira vez, ao seriado “Combate”. Passava tarde, para a minha idade, aí pelas 22 horas, se não me engano. Na TV Itacolomi. Em casa, não me deixavam ver. Mas, na casa dos meus avós, tanto insisti, que deixaram.
Fiquei plantado em frente à TV, preto e branco, claro. Esperando a hora de ver “Combate”. A propaganda dos cobertores Paraíba passou, mas eu não fui dormir na hora que mamãe mandava. Continuei esperando. Pra ver “Combate”.
Esperei tanto que dormi. Acordei com a musiquinha que encerrava a programação da TV Itacolomi. Poucos anos mais tarde, a mesma série passou novamente, era um grande sucesso, e eu pude ver, toda ela. E adorei. Já não me parecia tão tarde, já não era uma grande aventura proibida, mas, gostei assim mesmo. “Combate” era melhor que o “Vigilante Rodoviário”. Melhor até que “Flash Gordon” e que “Nacional Kid”.
Outro dia, baixei um episódio de “Combate” via Youtube. Dá dó, perto do que se pode fazer hoje, mas, é uma gostosa parte de mim. Curioso... acho que os seriados antigos, talvez por carência tecnológica, carregam um conteúdo humano maior. Há tempo para as pessoas, onde os efeitos são menos impressionantes.
Bom, acho que é assim em tudo, na vida.
Minha infância é pequena e calma. Comparando com as séries de TV, ela não tem grandes efeitos, grandes eventos. Mas tem suas jóias insuperáveis, inestimáveis, como o rio manso dos meus avós, as vitórias pessoais, como ver “Combate” ou vencer um campeonato de amarrar sapatos, na escola. E me pertence, como o rio da aldeia de Álvaro de Campos.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia
Quando procuro na alma uma imagem para meus avós maternos, vô Dago e vó Santa, vejo um pequeno rio, de águas calmas, tão calmas que mal se vê seu escoar, como se esse movimento fosse tão definitivo, tão próximo do eterno, que ele simplesmente escoa, sem pressa e quase em silêncio. Conversa baixinho, pra poder ouvir o mundo melhor.
Suas margens são protegidas por um abraço de mata, ao longo de todo curso. Imagino até uma canoa, na qual navego, como um cúmplice.
Acho que esta foi a lição fundamental que aprendi com eles, Dago e Santa: a vida é certeza. Essa certeza que constrói a calma. O rio calmo atravessa todos os terrenos. Mas nunca se perde de si mesmo. É sempre o mesmo rio calmo. Quando chega ao mar, ele se torna o mar, mas, por vezes, quando se sabe sentir, podemos ver uma manhã doce, dominada por uma leve brisa, por marolas ritmadas, e esse conjunto, somado aos pássaros, conspira uma canção ao universo: é o rio dos meus avós, ensinando sua calma ao mar.
Outro dia, estava em Porto Seguro, de papo com o Atlântico. E pude também sorrir para meus avós um sorriso de agradecimento e saudade.
Quando criança, costumava passar dias na casa dos meus avós, na Floresta. Guardo muitas lembranças dessas estadas na casa da Floresta. Não me lembro quantos anos tinha eu, mas, imagino que tivesse aí pelos 10 anos de idade, mais ou menos
Essas lembranças incluem, por exemplo: as peladas na rua; um corte no braço provocado por uma giletada; um garoto estranho, que diziam que era “doido” – autor da giletada; os jogos de bente altas com meu tio Rodolfo e os funcionários da serralheria, em frente à casa; o cheiro de solda que vinha da serralheria; um curió, e alguns canários; a varanda da casa onde havia uma famosa mesa de vidro, cujo tampo foi quebrado por meu pai, acidentalmente, num jogo de truco; um barril cheio de água, no pequeno quintal; a feira, aos domingos; o bar onde comia “pão molhado” e porções de farofa; uma lambreta; um bilboquê; colcha de fuxico.
Foi também nessa casa que tive a permissão par ver, pela primeira vez, ao seriado “Combate”. Passava tarde, para a minha idade, aí pelas 22 horas, se não me engano. Na TV Itacolomi. Em casa, não me deixavam ver. Mas, na casa dos meus avós, tanto insisti, que deixaram.
Fiquei plantado em frente à TV, preto e branco, claro. Esperando a hora de ver “Combate”. A propaganda dos cobertores Paraíba passou, mas eu não fui dormir na hora que mamãe mandava. Continuei esperando. Pra ver “Combate”.
Esperei tanto que dormi. Acordei com a musiquinha que encerrava a programação da TV Itacolomi. Poucos anos mais tarde, a mesma série passou novamente, era um grande sucesso, e eu pude ver, toda ela. E adorei. Já não me parecia tão tarde, já não era uma grande aventura proibida, mas, gostei assim mesmo. “Combate” era melhor que o “Vigilante Rodoviário”. Melhor até que “Flash Gordon” e que “Nacional Kid”.
Outro dia, baixei um episódio de “Combate” via Youtube. Dá dó, perto do que se pode fazer hoje, mas, é uma gostosa parte de mim. Curioso... acho que os seriados antigos, talvez por carência tecnológica, carregam um conteúdo humano maior. Há tempo para as pessoas, onde os efeitos são menos impressionantes.
Bom, acho que é assim em tudo, na vida.
Minha infância é pequena e calma. Comparando com as séries de TV, ela não tem grandes efeitos, grandes eventos. Mas tem suas jóias insuperáveis, inestimáveis, como o rio manso dos meus avós, as vitórias pessoais, como ver “Combate” ou vencer um campeonato de amarrar sapatos, na escola. E me pertence, como o rio da aldeia de Álvaro de Campos.
terça-feira, 25 de maio de 2010
ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 6
À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS
Brasileiros somos, e, em época de copa do mundo, é quase inevitável refletirmos sobre o tema. Não sei se em função do clima que toma conta do país, não sei se por paixão mesmo, andei relendo alguns dos meus preciosos exemplares da coleção lançada há alguns anos pela Companhia das Letras, organizada por Ruy Castro, que reúne as crônicas de Nelson Rodrigues, publicadas em O Globo, entre a década de 50 e 70. Entre eles, estão as crônicas de futebol de Nelson Rodrigues, em dois volumes: À Sombra das Chuteiras Imortais e A Pátria de Chuteiras.
Não sei se os amigos que por acaso estão a ler este texto, já tiveram a oportunidade de ler Nelson Rodrigues, em qualquer de suas facetas. Não sei, especialmente, se algum de vocês já teve a oportunidade de ler as crônicas de futebol de Nelson Rodrigues. Caso não tenham lido, só tenho uma coisa a dizer: leiam.
Você, que torceu o nariz quando eu disse para ler crônicas de futebol, é quem deve, prioritariamente, lê-las. Em sua memória certamente afloraram tristezas monumentais relacionadas ao tema, como certos "comentaristas" que andam por aí, como certos "programas" de esportes que andam por aí. Mas, garanto-lhe que as crônicas de Nelson Rodrigues pertencem a um outro momento da história das crônicas esportivas no Brasil e, diria eu, no mundo. Considero como literatura de alta qualidade. Leio e releio essas crônicas - aliás, leio e releio Nelson Rodrigues. Pra mim, é um gênio da literatura. Ninguém sabe usar adjetivos ou criar personagens como Nelson Rodrigues.
Pois nesse ler e reler dos deliciosos textos de Nelson Rodrigues, fiz brotarem dos vãos da memória algumas lembranças pessoais relacionadas ao tema futebol, e, principalmente, relacionadas às copas do mundo.
Antes de mais nada é preciso dizer que as copas do mundo são, para nós brasileiros, como as canções do Roberto Carlos. Marcam nossas vidas. Todos nós temos vínculos afetivos importantes com as copas do mundo. Quanto se conversa sobre copa do mundo, é batata que alguém diga: onde você assistiu à Copa de 2006? Ou melhor: com quem você assistiu à copa de 2006. Dificilmente alguém se esquece de onde e com quem estava durante a copa do mundo. Claro que a coisa complica um pouco quando você coleciona um número razoavelmente significativo de copas do mundo. Acontecem de quatro em quatro anos, portanto, se você se lembra de cinco ou seis, já é um veterano, pra não dizer que está inequivocamente envelhecendo.
No ano em que nasci, o Brasil tornou-se campeão mundial de futebol pela primeira vez. Segundo Nelson Rodrigues, quando nos tornamos campeões mundiais, começamos a deixar pra trás o nosso complexo de cachorros vira-latas e passamos a olhar o mundo de cabeça erguida.
Pois vejam que nem essa copa do mundo, a de 1958, na Suécia, passou em branco na minha vida. Era eu um bebê campeão mundial.
Aos quatro anos, em 1962, me tornaria um legítimo e inquestionável bicampeão mundial. Nada mal para quem ainda molhava as calças...
Mas, de verdade, nada me lembro da copa do mundo de 1962. Nem a mais remota lembrança. Nem um único fiozinho de memória.
A partir daí é que o futebol começaria a nascer pra mim. A minha primeira e significativa memória futebolistica me remete aos Estádio Independência, em Belo Horizonte, assistindo a um jogo do Atlético Mineiro contra o Santos. Sou tão antigo que minhas memórias são anteriores ao Mineirão...
Mas o que fazia eu num jogo do Atlético? Explico. Meu pai é atleticano. Bem, no mundo do futebol, cedo a gente aprende a perdoar esses defeitos nas pessoas...
Não sei que idade tinha eu, mas, acredito que devia ter aí pela casa dos cinco, seis anos. Se consideramos isso como correto, estaríamos entre 1963, 64. Já éramos bicampeões, portanto. E o Santos que eu via, era o poderoso Santos de Pelé, Coutinho, Edu, Pepe e companhia.
As minhas lembranças desse jogo se resumem à multidão, aos vendedores ambulantes, ao calor e a uma briga generalizada dos jogadores em campo. Qualquer dia desses vou pesquisar esse jogo e confirmar se essa briga existiu mesmo ou se é fantasia da memória infantil.
Deduzimos que não foi nesse momento que o futebol nasceu pra mim. A briga foi mais marcante que o jogo... E com Pelé em campo!
As minhas primeiras memórias que incluem mais substância futebolística, me remetem às aulas de educação física no Santo Tomás, minha escola. Me lembro de conversas animadas com os colegas sobre como iríamos vencer, me lembro da emoção dos pequenos torneios que disputávamos. O futebol começava a ser futebol.
E a memória definitiva do nascimento do futebol, me encontra na rua Henrique Passini, entre Corinto e Canápolis, no bairro da Serra, em BH. Era ali, no meio da rua, de uma rua calçada com paralelepípedos, que o futebol tomou pra mim todas as suas cores e formas. As táticas, técnicas e as opiniões pessoais sobre o jogo e quem jogava já estão presentes.
Essas peladas aconteciam em frente à casa de um garota chamado Aloísio, cujo pai era conselheiro do Atlético Mineiro. Aloísio era o craque dessas peladas. Eu, me esforçava e acreditava muito em mim, mesmo que as opiniões dos colegas talvez não seguissem na mesma direção.
Minha certeza de que era um craque me leva à memória de uma ida com minha mãe a uma loja de material esportivo, no centro da cidade, para comprar uma camisa de verdade, para usar nas peladas. Não era de nenhum clube. Era uma camisa verde, com gola branca, para qual comprei inclusive um número: 9. Esse número, branco, maravilhoso, definitivo, marca, pra mim, o nascimento do futebol.
Com uma ansiedade absoluta, aguardei toda a eternidade que minha mãe demorou para costurar o número na camisa. E fui para a pelada, naquele dia, paramentado, ostentando meu número 9: eu era um centro-avante. Não me lembro de nenhum grande craque que me marcou nessa época. As peladas, por si só, foram marcantes. Nessa época descobri também que não era um craque.
Era sempre um dos últimos a ser escolhido: caso clássico da relação entre o perna-de-pau e as peladas de rua.
Entra em campo, nessa mesma época, minha primeira lembrança sobre as copas do mundo. Estamos em 1966, e a seleção brasileira foi à Inglaterra disputar a copa do mundo, em busca do tricampeonato. Um nome salta das sombras da memória: Tostão. Um garoto de Belo Horizonte, que havia começado nas divisões de base do América e agora iluminava o país e a cidade com seu talento. Ele e seus companheiros, como Dirceu Lopes e Natal. Nascia em mim a admiração pelos grandes craques, junto com a opção por um time de futebol: eu decidi que iria torcer pro Cruzeiro. O Cruzeiro de 66 era sinônimo de vitória e de talento. Ganhava até do Santos de Pelé. Meu primeiro grande jogo foi Cruzeiro e Santos, pela final do Taça Brasil, o equivalente, na época, ao campeonato brasileiro. Ganhamos. Seis a dois. No Santos de Pelé... Pai, me perdoa, não dava pra torcer pra outro time, nessa época, na minha idade!...
Brasileiros somos, e, em época de copa do mundo, é quase inevitável refletirmos sobre o tema. Não sei se em função do clima que toma conta do país, não sei se por paixão mesmo, andei relendo alguns dos meus preciosos exemplares da coleção lançada há alguns anos pela Companhia das Letras, organizada por Ruy Castro, que reúne as crônicas de Nelson Rodrigues, publicadas em O Globo, entre a década de 50 e 70. Entre eles, estão as crônicas de futebol de Nelson Rodrigues, em dois volumes: À Sombra das Chuteiras Imortais e A Pátria de Chuteiras.
Não sei se os amigos que por acaso estão a ler este texto, já tiveram a oportunidade de ler Nelson Rodrigues, em qualquer de suas facetas. Não sei, especialmente, se algum de vocês já teve a oportunidade de ler as crônicas de futebol de Nelson Rodrigues. Caso não tenham lido, só tenho uma coisa a dizer: leiam.
Você, que torceu o nariz quando eu disse para ler crônicas de futebol, é quem deve, prioritariamente, lê-las. Em sua memória certamente afloraram tristezas monumentais relacionadas ao tema, como certos "comentaristas" que andam por aí, como certos "programas" de esportes que andam por aí. Mas, garanto-lhe que as crônicas de Nelson Rodrigues pertencem a um outro momento da história das crônicas esportivas no Brasil e, diria eu, no mundo. Considero como literatura de alta qualidade. Leio e releio essas crônicas - aliás, leio e releio Nelson Rodrigues. Pra mim, é um gênio da literatura. Ninguém sabe usar adjetivos ou criar personagens como Nelson Rodrigues.
Pois nesse ler e reler dos deliciosos textos de Nelson Rodrigues, fiz brotarem dos vãos da memória algumas lembranças pessoais relacionadas ao tema futebol, e, principalmente, relacionadas às copas do mundo.
Antes de mais nada é preciso dizer que as copas do mundo são, para nós brasileiros, como as canções do Roberto Carlos. Marcam nossas vidas. Todos nós temos vínculos afetivos importantes com as copas do mundo. Quanto se conversa sobre copa do mundo, é batata que alguém diga: onde você assistiu à Copa de 2006? Ou melhor: com quem você assistiu à copa de 2006. Dificilmente alguém se esquece de onde e com quem estava durante a copa do mundo. Claro que a coisa complica um pouco quando você coleciona um número razoavelmente significativo de copas do mundo. Acontecem de quatro em quatro anos, portanto, se você se lembra de cinco ou seis, já é um veterano, pra não dizer que está inequivocamente envelhecendo.
No ano em que nasci, o Brasil tornou-se campeão mundial de futebol pela primeira vez. Segundo Nelson Rodrigues, quando nos tornamos campeões mundiais, começamos a deixar pra trás o nosso complexo de cachorros vira-latas e passamos a olhar o mundo de cabeça erguida.
Pois vejam que nem essa copa do mundo, a de 1958, na Suécia, passou em branco na minha vida. Era eu um bebê campeão mundial.
Aos quatro anos, em 1962, me tornaria um legítimo e inquestionável bicampeão mundial. Nada mal para quem ainda molhava as calças...
Mas, de verdade, nada me lembro da copa do mundo de 1962. Nem a mais remota lembrança. Nem um único fiozinho de memória.
A partir daí é que o futebol começaria a nascer pra mim. A minha primeira e significativa memória futebolistica me remete aos Estádio Independência, em Belo Horizonte, assistindo a um jogo do Atlético Mineiro contra o Santos. Sou tão antigo que minhas memórias são anteriores ao Mineirão...
Mas o que fazia eu num jogo do Atlético? Explico. Meu pai é atleticano. Bem, no mundo do futebol, cedo a gente aprende a perdoar esses defeitos nas pessoas...
Não sei que idade tinha eu, mas, acredito que devia ter aí pela casa dos cinco, seis anos. Se consideramos isso como correto, estaríamos entre 1963, 64. Já éramos bicampeões, portanto. E o Santos que eu via, era o poderoso Santos de Pelé, Coutinho, Edu, Pepe e companhia.
As minhas lembranças desse jogo se resumem à multidão, aos vendedores ambulantes, ao calor e a uma briga generalizada dos jogadores em campo. Qualquer dia desses vou pesquisar esse jogo e confirmar se essa briga existiu mesmo ou se é fantasia da memória infantil.
Deduzimos que não foi nesse momento que o futebol nasceu pra mim. A briga foi mais marcante que o jogo... E com Pelé em campo!
As minhas primeiras memórias que incluem mais substância futebolística, me remetem às aulas de educação física no Santo Tomás, minha escola. Me lembro de conversas animadas com os colegas sobre como iríamos vencer, me lembro da emoção dos pequenos torneios que disputávamos. O futebol começava a ser futebol.
E a memória definitiva do nascimento do futebol, me encontra na rua Henrique Passini, entre Corinto e Canápolis, no bairro da Serra, em BH. Era ali, no meio da rua, de uma rua calçada com paralelepípedos, que o futebol tomou pra mim todas as suas cores e formas. As táticas, técnicas e as opiniões pessoais sobre o jogo e quem jogava já estão presentes.
Essas peladas aconteciam em frente à casa de um garota chamado Aloísio, cujo pai era conselheiro do Atlético Mineiro. Aloísio era o craque dessas peladas. Eu, me esforçava e acreditava muito em mim, mesmo que as opiniões dos colegas talvez não seguissem na mesma direção.
Minha certeza de que era um craque me leva à memória de uma ida com minha mãe a uma loja de material esportivo, no centro da cidade, para comprar uma camisa de verdade, para usar nas peladas. Não era de nenhum clube. Era uma camisa verde, com gola branca, para qual comprei inclusive um número: 9. Esse número, branco, maravilhoso, definitivo, marca, pra mim, o nascimento do futebol.
Com uma ansiedade absoluta, aguardei toda a eternidade que minha mãe demorou para costurar o número na camisa. E fui para a pelada, naquele dia, paramentado, ostentando meu número 9: eu era um centro-avante. Não me lembro de nenhum grande craque que me marcou nessa época. As peladas, por si só, foram marcantes. Nessa época descobri também que não era um craque.
Era sempre um dos últimos a ser escolhido: caso clássico da relação entre o perna-de-pau e as peladas de rua.
Entra em campo, nessa mesma época, minha primeira lembrança sobre as copas do mundo. Estamos em 1966, e a seleção brasileira foi à Inglaterra disputar a copa do mundo, em busca do tricampeonato. Um nome salta das sombras da memória: Tostão. Um garoto de Belo Horizonte, que havia começado nas divisões de base do América e agora iluminava o país e a cidade com seu talento. Ele e seus companheiros, como Dirceu Lopes e Natal. Nascia em mim a admiração pelos grandes craques, junto com a opção por um time de futebol: eu decidi que iria torcer pro Cruzeiro. O Cruzeiro de 66 era sinônimo de vitória e de talento. Ganhava até do Santos de Pelé. Meu primeiro grande jogo foi Cruzeiro e Santos, pela final do Taça Brasil, o equivalente, na época, ao campeonato brasileiro. Ganhamos. Seis a dois. No Santos de Pelé... Pai, me perdoa, não dava pra torcer pra outro time, nessa época, na minha idade!...
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
ODISSÉIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 5
PISCINÃO SEM RAMOS
Tenho aqui, no meu quintal, algumas plantinhas, herdadas gentilmente do igualmente gentil proprietário da casa, o Higino. Sujeito cuidadoso e habilodoso, ele deixou aqui canteiros, onde várias coisinhas florescem, para minha alegria, como alecrim, taioba, hortelã pimenta, boldo, cebolinha, e dois pés de pimenta dedo-de-moça dos quais venho cuidando, desde ainda brotinhos, que consegui com a minha colega e amiga Dona Rosa.
Há também, no fundo do quintal, um espaço onde plantas de maior porte formam uma "matinha": são flores, trepadeiras e... uma árvore.
Esta dita árvore, quando aqui cheguei, há dois anos, era ainda de porte médio, mas, sendo pouso de várias espécies de pássaros, observei e apoiei seu crescimento, alimentando-a e podando-a, carinhosamente.
Não sei que espécie é, e, na verdade, pouco me importa. Sei que é comum, aqui na região. É uma leguminosa, isso sei, pois libera grandes favas, que se espalham com o vento e brotam com absoluta facilidade, onde quer que caiam. Por todo o jardim, sempre há pequenos brotos dela.
Além disso, e como é comum às leguminosos - até onde as conheço, tem folhinhas pequenas e numerosas, como a conhecida "dinheiro-em-pencas". Essas folhinhas caem em grande quantidade, ao longo do ano e trouxeram polêmicas.
Antes de relatar a dita polêmica e seu final triste, pelo menos pra mim, devo dizer que a árvore, na medida em que crescia, passou a abrigar número cada vez maior de espécies de pássaros. Desde os inefáveis pardais, que passevam por seus galhos mais baixos, assim como as rolinhas, até os bem-te-vis e, a glória maior, sabiás.
Minhas manhãs de domingo dedico especialmente às plantas do quintal, acompanhado, atenta e brincalhonamente, pela Ciça, minha labradora. Ficamos por ali, ela catando pedaços de pau pra brincar, ou lutando com a água da mangueira, ou deitada languidamente tomando sol e me observando. Enquanto fazemos isso, os bem-te-vis, pardais, sabiás e até um surpreendente canário, povoam de cor e música nossos olhos e ouvidos.
Eis que um dia, minha mulher recebe a visita de uma vizinha, que mora imediatamente ao lado de nossa casa, e que possui, no quintal, uma piscina. E é essa a razão da polêmica e dessa crônica: a piscina da vizinha.
Muito raramente, escuto os tibuns piscinais dos vizinhos. Muito raramente mesmo. Sem exageros. Mas, percebo que a piscina é muito bem cuidada, sempre brilhando sua química azul, como posso ver do segundo andar aqui de casa.
A nossa árvore - ou talvez eu devesse dizer a MINHA árvores e já verão porque, crescida em tamanho, galhos e folhas, tornou-se um problema para a vizinha. E de certa forma, para as funcionárias aqui de casa também.
As funcionárias da casa, por dever de ofício, lavam a parte do quintal que é coberta por ardósias, todos os dias pela manhã. Para facilitar o trabalho, ao invés de varrer e depois lavar, habituaram-se a lavar, com a mangueira, já que há uma canaleta lateral que leva a sujeira , incluindo as folhas da minha árvore.
Mas, na medida em que ela crescia, a quantidade de folhinhas também crescia, evidentemente, e o grande volume passou a entupir a canaleta, trazendo um trabalho adicional de limpar, além do quintal, a canaleta, para garantir o escoamento da água. Digamos que elas não ficaram muito felizes com esse trabalho adicional. Não comentaram a bela sombram que a árvore agora fazia sobre elas, enquanto trabalhavam, não comentaram sobre o canto dos pássaros acalentando sua manhã, mas, comentaram sobre o "trabalhão" que as folhinhas davam.
A vizinha veio juntar-se ao bloco das reclamações: a árvore enchia sua piscina de folhinhas, favas e esporádicos gravetos.
Quando minha esposa comentou a reclamação das funcionárias, eu passei a limpar a canaleta, aos finais de semana, para que deixassem minha árvore em paz.
Quando minha esposa comentou a reclamação da vizinha eu disse simplesmente: ela que compre uma lona.
Mas, infelizmente, a vida não é tão simples assim. As funcionárias e a vizinha passaram a compor uma frente de críticas crescentes às inocentes folhinhas da minha árvore.
Há algumas semanas atrás, eu fui ao quintal, como de praxe, cuidar das plantas. Paramos, eu e Ciça, por alguns minutos a observar a nossa árvore (acho que a Ciça compartilhava do apreço por ela, ou aprendeu a compartilhar, após tantos domingos e feriados).
Ouvimos, quietos, o vento sibilar por entre os galhos, ouvimos o bem-te-vi que ali pousou, observamos o trabalho das rolinhas, do galho ao chão, do galho ao chão - catando gravetos e possíveis alimentos. Observamos também que o chão de ardósia do quintal estava coberto de folhinhas e favas, e que a canaleta estava novamente tomada pelo mesmo material.
Alguma coisa nos disse que dias tristes se aproximavam.
Dias depois, a vizinha, muito gentilmente, ofereceu os serviços de um jardineiro que ela mesmo contratara e que, sem ônus para nós, cortaria os galhos da minha árvore. Minha esposa concordou com a oferta, por boa vizinhança e porque, ela própria, já estava farta das pobres folhinhas e da reclamação das funcionárias. Me restava aceitar. Nenhum dos argumentos, da vizinha ou das funcionárias me convenceu. Por mim, manteria sugestão da lona, para uma, e a constatação da preguiça, para as outras. Mas, era gente demais pra encrencar, e, principalmente, a esposa já estava do "lado de lá".
Era sábado, e os enviados da vizinha vieram se desfazer dos galhos e das folhinhas da minha árvore, para alegria quase geral. Permaneci quieto, enfiado em meu escritório, e não quis nem olhar.
No dia seguinte, logo cedo, sai para o quintal e, na companhia solidária da Ciça, observei o estrago: apenas troncos nús. Alguns galhozinhos mais baixos foram poupados. A pequena goiabeira, que se insinuava de outro canteiro, também foi levada a praticamente zero, ficando só o pequeno tronco- minha esposa tinha pedido a eles esse servicinho extra, pensando nas folhas e frutos ainda futuros.
Desolados, eu e Ciça observamos aquilo, como se um furacão tivesse passado e destruido parte dos nossos domingos. Tanta água e tanto cuidado "ele" havia levado. Levou também a bela sombra que ela projetava e que ajudava a aliviar o forte calor da região. E, rapidamente, notamos que havia levado também os pássaros. Desde então, nossas manhãs de domingo estão mudas. Nada de bem-te-vis, nada dos sabiás. Muito esporadicamente, alguns pardais e rolinhas, já que somente os galhos mais baixos ficaram.
A vizinha devia estar feliz: nada de folhas. As funcionárias deviam estar felizes: menos trabalho. A piscina e a preguiça venceram a sombra e os pássaros.
Há certamente alguma lição aqui. Todo um pequeno "ecosistema" foi alterada para manter alguns trabalhando menos. A piscina, que raramente é usada, pode ser observada em seu azul químico, contrastando com a nudez desértica da minha árvore. Uma lona talvez seja mais cara, financeiramente, que um jardineiro. Mas, certamente, seria muito mais ecologicamente barata.
Ampliando essas relações de valores, compreendemos mais claramente nossas opções diante da natureza. É sempre mais fácil, para nós, extinguir parte dos seres vivos em nome do nosso conforto, por mais questionável que seja a nossa noção de conforto, por mais que esse conforto esconda tão somente a paralisia, a despreocupação e a falta de um olhar mais amplo sobre os pequenos mas preciosos fios da teia da vida natural.
Hoje é domingo, estive no quintal, cuidando das minhas coisinhas. Eu e a Ciça. O silêncio continua amargando essas manhãs. Eis que, então, uma leve brisa veio de não sei onde - talvez soprada pelo espírito de todas as árvores e pássaros, soprou, refrescando-me o calor do sol implacável de fevereiro. E me fez olhar pra minha árvore, coisa que, confesso, tenho evitado desde aquele trágico complô.
E o que vi me fez olhar pra Ciça. Ela me olhou também, com seus enormes lagos marrons e... guardamos para nós, o que vimos, irmanados, preparando nosso próprio contra-ataque. Os galhos cortados e nús da nossa árvore, não estão mais nús. Pequenos galhinhos verdes projetam-se, em profusão, do que antes parecia vazio e morto.
A árvore, silenciosamente, prepara sua vingança... Não contamos a ninguém, é claro. É assim, quando os homens e suas futilidades se esquecem da natureza: ela renasce, como fenix. Portanto, e diante disso, proclamo: esqueçam-se de todas as criaturas não-humanas deste planeta, filhos do concreto! É a única forma de garantir-lhes a vida...
Tenho aqui, no meu quintal, algumas plantinhas, herdadas gentilmente do igualmente gentil proprietário da casa, o Higino. Sujeito cuidadoso e habilodoso, ele deixou aqui canteiros, onde várias coisinhas florescem, para minha alegria, como alecrim, taioba, hortelã pimenta, boldo, cebolinha, e dois pés de pimenta dedo-de-moça dos quais venho cuidando, desde ainda brotinhos, que consegui com a minha colega e amiga Dona Rosa.
Há também, no fundo do quintal, um espaço onde plantas de maior porte formam uma "matinha": são flores, trepadeiras e... uma árvore.
Esta dita árvore, quando aqui cheguei, há dois anos, era ainda de porte médio, mas, sendo pouso de várias espécies de pássaros, observei e apoiei seu crescimento, alimentando-a e podando-a, carinhosamente.
Não sei que espécie é, e, na verdade, pouco me importa. Sei que é comum, aqui na região. É uma leguminosa, isso sei, pois libera grandes favas, que se espalham com o vento e brotam com absoluta facilidade, onde quer que caiam. Por todo o jardim, sempre há pequenos brotos dela.
Além disso, e como é comum às leguminosos - até onde as conheço, tem folhinhas pequenas e numerosas, como a conhecida "dinheiro-em-pencas". Essas folhinhas caem em grande quantidade, ao longo do ano e trouxeram polêmicas.
Antes de relatar a dita polêmica e seu final triste, pelo menos pra mim, devo dizer que a árvore, na medida em que crescia, passou a abrigar número cada vez maior de espécies de pássaros. Desde os inefáveis pardais, que passevam por seus galhos mais baixos, assim como as rolinhas, até os bem-te-vis e, a glória maior, sabiás.
Minhas manhãs de domingo dedico especialmente às plantas do quintal, acompanhado, atenta e brincalhonamente, pela Ciça, minha labradora. Ficamos por ali, ela catando pedaços de pau pra brincar, ou lutando com a água da mangueira, ou deitada languidamente tomando sol e me observando. Enquanto fazemos isso, os bem-te-vis, pardais, sabiás e até um surpreendente canário, povoam de cor e música nossos olhos e ouvidos.
Eis que um dia, minha mulher recebe a visita de uma vizinha, que mora imediatamente ao lado de nossa casa, e que possui, no quintal, uma piscina. E é essa a razão da polêmica e dessa crônica: a piscina da vizinha.
Muito raramente, escuto os tibuns piscinais dos vizinhos. Muito raramente mesmo. Sem exageros. Mas, percebo que a piscina é muito bem cuidada, sempre brilhando sua química azul, como posso ver do segundo andar aqui de casa.
A nossa árvore - ou talvez eu devesse dizer a MINHA árvores e já verão porque, crescida em tamanho, galhos e folhas, tornou-se um problema para a vizinha. E de certa forma, para as funcionárias aqui de casa também.
As funcionárias da casa, por dever de ofício, lavam a parte do quintal que é coberta por ardósias, todos os dias pela manhã. Para facilitar o trabalho, ao invés de varrer e depois lavar, habituaram-se a lavar, com a mangueira, já que há uma canaleta lateral que leva a sujeira , incluindo as folhas da minha árvore.
Mas, na medida em que ela crescia, a quantidade de folhinhas também crescia, evidentemente, e o grande volume passou a entupir a canaleta, trazendo um trabalho adicional de limpar, além do quintal, a canaleta, para garantir o escoamento da água. Digamos que elas não ficaram muito felizes com esse trabalho adicional. Não comentaram a bela sombram que a árvore agora fazia sobre elas, enquanto trabalhavam, não comentaram sobre o canto dos pássaros acalentando sua manhã, mas, comentaram sobre o "trabalhão" que as folhinhas davam.
A vizinha veio juntar-se ao bloco das reclamações: a árvore enchia sua piscina de folhinhas, favas e esporádicos gravetos.
Quando minha esposa comentou a reclamação das funcionárias, eu passei a limpar a canaleta, aos finais de semana, para que deixassem minha árvore em paz.
Quando minha esposa comentou a reclamação da vizinha eu disse simplesmente: ela que compre uma lona.
Mas, infelizmente, a vida não é tão simples assim. As funcionárias e a vizinha passaram a compor uma frente de críticas crescentes às inocentes folhinhas da minha árvore.
Há algumas semanas atrás, eu fui ao quintal, como de praxe, cuidar das plantas. Paramos, eu e Ciça, por alguns minutos a observar a nossa árvore (acho que a Ciça compartilhava do apreço por ela, ou aprendeu a compartilhar, após tantos domingos e feriados).
Ouvimos, quietos, o vento sibilar por entre os galhos, ouvimos o bem-te-vi que ali pousou, observamos o trabalho das rolinhas, do galho ao chão, do galho ao chão - catando gravetos e possíveis alimentos. Observamos também que o chão de ardósia do quintal estava coberto de folhinhas e favas, e que a canaleta estava novamente tomada pelo mesmo material.
Alguma coisa nos disse que dias tristes se aproximavam.
Dias depois, a vizinha, muito gentilmente, ofereceu os serviços de um jardineiro que ela mesmo contratara e que, sem ônus para nós, cortaria os galhos da minha árvore. Minha esposa concordou com a oferta, por boa vizinhança e porque, ela própria, já estava farta das pobres folhinhas e da reclamação das funcionárias. Me restava aceitar. Nenhum dos argumentos, da vizinha ou das funcionárias me convenceu. Por mim, manteria sugestão da lona, para uma, e a constatação da preguiça, para as outras. Mas, era gente demais pra encrencar, e, principalmente, a esposa já estava do "lado de lá".
Era sábado, e os enviados da vizinha vieram se desfazer dos galhos e das folhinhas da minha árvore, para alegria quase geral. Permaneci quieto, enfiado em meu escritório, e não quis nem olhar.
No dia seguinte, logo cedo, sai para o quintal e, na companhia solidária da Ciça, observei o estrago: apenas troncos nús. Alguns galhozinhos mais baixos foram poupados. A pequena goiabeira, que se insinuava de outro canteiro, também foi levada a praticamente zero, ficando só o pequeno tronco- minha esposa tinha pedido a eles esse servicinho extra, pensando nas folhas e frutos ainda futuros.
Desolados, eu e Ciça observamos aquilo, como se um furacão tivesse passado e destruido parte dos nossos domingos. Tanta água e tanto cuidado "ele" havia levado. Levou também a bela sombra que ela projetava e que ajudava a aliviar o forte calor da região. E, rapidamente, notamos que havia levado também os pássaros. Desde então, nossas manhãs de domingo estão mudas. Nada de bem-te-vis, nada dos sabiás. Muito esporadicamente, alguns pardais e rolinhas, já que somente os galhos mais baixos ficaram.
A vizinha devia estar feliz: nada de folhas. As funcionárias deviam estar felizes: menos trabalho. A piscina e a preguiça venceram a sombra e os pássaros.
Há certamente alguma lição aqui. Todo um pequeno "ecosistema" foi alterada para manter alguns trabalhando menos. A piscina, que raramente é usada, pode ser observada em seu azul químico, contrastando com a nudez desértica da minha árvore. Uma lona talvez seja mais cara, financeiramente, que um jardineiro. Mas, certamente, seria muito mais ecologicamente barata.
Ampliando essas relações de valores, compreendemos mais claramente nossas opções diante da natureza. É sempre mais fácil, para nós, extinguir parte dos seres vivos em nome do nosso conforto, por mais questionável que seja a nossa noção de conforto, por mais que esse conforto esconda tão somente a paralisia, a despreocupação e a falta de um olhar mais amplo sobre os pequenos mas preciosos fios da teia da vida natural.
Hoje é domingo, estive no quintal, cuidando das minhas coisinhas. Eu e a Ciça. O silêncio continua amargando essas manhãs. Eis que, então, uma leve brisa veio de não sei onde - talvez soprada pelo espírito de todas as árvores e pássaros, soprou, refrescando-me o calor do sol implacável de fevereiro. E me fez olhar pra minha árvore, coisa que, confesso, tenho evitado desde aquele trágico complô.
E o que vi me fez olhar pra Ciça. Ela me olhou também, com seus enormes lagos marrons e... guardamos para nós, o que vimos, irmanados, preparando nosso próprio contra-ataque. Os galhos cortados e nús da nossa árvore, não estão mais nús. Pequenos galhinhos verdes projetam-se, em profusão, do que antes parecia vazio e morto.
A árvore, silenciosamente, prepara sua vingança... Não contamos a ninguém, é claro. É assim, quando os homens e suas futilidades se esquecem da natureza: ela renasce, como fenix. Portanto, e diante disso, proclamo: esqueçam-se de todas as criaturas não-humanas deste planeta, filhos do concreto! É a única forma de garantir-lhes a vida...
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