Drummond e o "Diário Reinventado"

Drummond e o "Diário Reinventado"
Essa foto registra homenagem deliciosa e delicada do prof. Luis Carlos Maciel ao meu pai, Eduardo Cisalpino. O livro que o prof. segura nas mãos e que parece "comentar" com o poeta, é o "Diário Reinventado, de Eduardo Cisalpino.. Obrigado à Magda pela foto.

Jack Kerouac

Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas

domingo, 8 de maio de 2016

AS AVENTURAS DE MURA NO PAÍS DA DITADURA. EPISÓDIO 4: O CHOQUE DA ABERTURA

As Aventuras de Mura no País da Ditadura


Episódio 4 - O Choque da “Abertura”





O ano de 1977 foi um ano difícil. O presidente-general era Ernesto Geisel. Geisel era um militar muito conhecido na vida política do país. Quando Tenente, Geisel participou da “Revolução de Trinta”, ajudando Getúlio Vargas e a Aliança Liberal a deporem o presidente Washington Luís. Nesse mesmo período, trabalhou com Tenente Juarez Távora, o “vice-rei do norte”, durante a “revolução”, e, também sob o comando de Juarez Távora, ajudou a combater as forças da Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo.
Depois, já como Major, Geisel foi o oficial comandante do destacamento responsável por aguardar a saída do presidente Vargas do Palácio do Catete, em 1945. Em resumo: ajudou a colocar e tirar Vargas do poder entre 1930 e 1945.
Nos anos 50, Geisel aproximou-se  do grupo conhecido como “Sorbonne”, da Escola Superior de Guerra, um dos grupos responsáveis pela preparação do golpe de 64, junto com organizações da sociedade civil. Geisel é o melhor exemplo da importante máxima da política brasileira: “Os tenentes de 30 são os generais de 64”.
Geisel assumiu o poder no momento em que o modelo multinacional-associado, implementado pelos governos a partir de 64, entrava em colapso, depois de alguns anos de “Milagre Econômico”. A rápida deterioração da economia brasileira, devido, entre outros fatores, à Crise do Petróleo desencadeada pela Guerra do Yom Kippur, aumentava de forma significativa a oposição ao governo.
Geisel anunciou que iria iniciar a “Abertura Política” cujo objetivo final seria devolver o poder aos civis e restabelecer as normalidades democráticas. Mas, anunciou também que essa abertura seria “Lenta, Gradual e Segura” - ou seja: sob controle do governo e voltada para os objetivos que o governo considerava aceitáveis.
A resposta da população vinha sob a forma de crescimento exponencial da oposição, ou melhor, da única oposição permitida na época: o MDB. A maioria da população, especialmente no Sul e no Sudeste, despejava votos - os votos possíveis, no MDB. No Norte e no Nordeste, onde as carências eram maiores com relação a recursos do governo, a ARENA ainda obtinha algumas vitórias.
Mesmo no Sul e no Sudeste, muita gente já não esperava muita coisa nem mesmo do MDB e o “voto de protesto”, branco ou nulo, fazia lembrar a eleição do  Rinoceronte Cacareco, em São Paulo, em 1959.
O anúncio da dita “Abertura”, mesmo que “Lenta e Gradual”, levou também a uma reação contrária dos setores que ainda apoiavam o governo. A morte de pessoas, como o jornalista Wladimir Herzog, da Veja, dois anos antes, os ataques a bancas de revistas que vendiam jornais e revistas consideradas “subversivas”, como o Pasquim, deixavam Geisel em situação delicada, já que enfrentava oposição à “direita” - incluindo uma tentativa de golpe contra ele articulada pelo Ministro Sylvio Frota, do exército,  e à “esquerda”.
Sentindo sua “Abertura Lenta, Gradual e Segura” ameaçada, Geisel decidiu tomar medidas para assegurar o controle do governo sobre a situação. Primeiro, em 1976, veio a lei Falcão, a “lei da mordaça”, que proibia debates e discursos políticos na televisão e no rádio, especialmente durante o Horário Eleitoral. Candidatos podiam dizer apenas dados pessoais, Me lembro, por exemplo, de uma candidata a vereadora em Belo Horizonte, que aparecia no horário eleitoral dizendo o nome, número, cargo a que se candidatava e a frase “Mãe de Cinco Filhos” .
No ano seguinte, em 1977, as coisas ainda andavam agitadas, e Geisel decidiu usar o AI-5. Felizmente, essa seria a última vez na história do Brasil ( e espero que continue sendo ad eternum) que um ato de exceção seria usado contra a sociedade civil.
Geisel baixou o “Pacote de Abril”, cujo principal objetivo era manter o controle do governo sobre o Congresso Nacional. Como a oposição crescia, o governo temia que eles conseguissem fazer reformas constitucionais, para as quais eram necessários dois terços da Câmara e do Senado.
Naquele dia Brasília amanheceu cercada por tanques do Setor Militar Urbano. O Congresso Nacional foi fechado para “Reformas Políticas” que iriam incluir a indicação de um terço dos senadores pelo governo, os chamados senadores “biônicos” (nome debochado dado pela população aos “superpoderes” dos senadores que não precisariam mais ser eleitos - Paulo Maluf foi um deles. José Sarney também. Era uma referência a uma série americana de muito sucesso na TV: “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, na qual o personagem principal tinha membros bioeletrônicos que lhe davam força sobre-humana). O objetivo da reforma, como já disse, era evitar que a oposição controlasse o Congresso Nacional.
Em Belo Horizonte, movimentos estudantis decidiram fazer um protesto público. Não preciso dizer que isso era ilegal, não é? Naquele tempo, "conversa de mais de dois era comício". Os “manifestantes” podiam ser presos e ter suas matrículas universitárias canceladas, de acordo com a lei 477.
Recebemos informação, no meu colégio, que o protesto aconteceria na Av. Álvares Cabral, em frente à escola de direito da UFMG.
E fomos pra lá. Fui, me borrando de medo. A coisa não era brincadeira naquela época. Lembrem-se das leis em vigor. Mas, fui.
Chegamos lá um pouco cedo, e o pessoal ainda estava se juntando. Espalhados pela Álvares Cabral, pelo canteiro central da avenida, na calçada em frente à escola de direito. Chegou um destacamento da tropa de choque. Os “homi” se posicionaram entre o canteiro e a calçada da escola, dividindo o pessoal. Sob protestos e palavras de ordem, colocaram um cordão de isolamento entre a avenida e a escola. E o pessoal gritando e cantando e lançando palavras de ordem contra Geisel e o “Pacote de Abril”. E a coisa foi engrossando. E eu numa situação difícil, espremido no cordão de isolamento.
Daí chegou a cavalaria. Vou dizer uma coisa pra vocês: estar espremido entre uma multidão, um cordão de isolamento e soldados a cavalo, portando enormes cacetes de madeira e cacetes elétricos- sim, eles usavam um cacete que dava choques, não é exatamente a melhor posição na vida de uma criatura.
E a coisa foi engrossando. O pessoal empurrava lá de trás e a gente de cara com os cavalos, os cacetes e os escudos do choque. A gente segura no cordão e empurrava de volta pra trás. A polícia estava muito calma pro meu gosto. Simplesmente assistiam (você pode achar isso comum, hoje, na época não era nem um pouco comum). Provavelmente, achavam que estava sob controle, já que os cavalos intimidaram muita gente, que começou a ir embora.
Mas, tem sempre o “de repente”, não é? Pois então: de repente, veio uma onda mais forte lá de trás e muitos dos que estavam espremidos no cordão foram “cuspidos” em direção aos policiais. E o pau quebrou.
O choque baixou o cacete nos que tentavam correr pela Álvares Cabral abaixo. Os que estavam a cavalo, jogavam os cavalos contra os caras e o cacete gigante comia. Eu achei que tentar correr paralelamente aos policiais era pior, e o melhor era tentar entrar multidão adentro, empurrando o povo que também tentava sair dali.
Daí, dei as costas para os policiais e ajudei os caras e abrir caminho no meio da galera. E foi aí que me pegaram.
Tomei um choque do maldito cacete elétrico bem no meio das costas. A coisa ardeu horrores, Parecia que alguém tinha me encostado um cigarro aceso nas costas. Empurrei com mais força, vi um espaço  e me enfiei nele. Acabei saindo na esquina da rua da Bahia, com aquele negócio ainda doendo muito. Continuei correndo. Desci a rua lateral até a rua Goiás, passei ainda correndo pela Boa Viagem e continuei correndo até a Afonso Pena, em frente ao Palácio da Artes.
Entrei no Parque Municipal, pela portaria lá de cima, em frente à Faculdade de Ciências Médicas. Ali, estava tudo tranquilo. Então, tirei a camisa, evitando encostar no que eu imaginava que era uma ferida, já que ainda ardia muito. Olhei a camisa: ela estava com uma marca de queimado, entre as omoplatas. E furada, no lugar. Fiquei indignado: eu adorava aquela camisa.
Peguei o ônibus, fui para casa. Passei uma pomada contra queimaduras no lugar e sumi com a camisa, para que minha mãe não perguntasse como é que eu a tinha estragado.
Eu me perguntava se o Congresso Nacional valia aquela queimadura. Anos depois, quando o Congresso votou a eleição de Tancredo o que significou o fim do Regime Militar, pensei que sim, que valia a pena: ruim com o Congresso, pior sem ele. Qualquer Congresso Nacional é sempre muito melhor que nenhum Congresso Nacional - a outra opção é algum “Salvador da Pátria” governando sozinho.
Mas, o ano ainda não tinha terminado. Estávamos em Abril, e viveríamos coisa muito pior, dois meses depois.

domingo, 1 de maio de 2016

AVENTURAS DE MURA NO PAÍS DA DITADURA - EPISÓDIO 3 - "O LIVRO"

As Aventuras de Mura no País da Ditadura


Episódio 03: O Livro



Quando cheguei à terceira série do ginasial, algumas coisas estavam mudadas: o colégio agora era “misto”, meninos e meninas. E o ginasial não era mais ginasial: uma reforma do ensino mudara as nomenclaturas e subdivisões do ensino no Brasil. O primário e o ginasial agora faziam parte de um segmento chamado Primeiro Grau - com 8 séries, e o Científico agora era o Segundo Grau - com três séries.
Eu era aluno, agora, da sétima série do primeiro grau, e não mais da terceira série do ginásio. Sétima série...me senti idoso…Idoso mas em companhia das meninas: estava tudo bem, oras.
Eu, nessa altura, me achava um sujeito vivido e mais por dentro das coisas do mundo. E do Brasil. Aprendia a ler nas entrelinhas das “canções de protesto”, mas me sentia mais próximo da estética do Tropicalismo, de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e começava a adotar algumas daquelas ideias, valores e modo de vestir. Começava a entrar na turma dos “pode crer”, dos “bichos grilos”, meio metido a hippie.
E me espantei quando descobri, tardiamente, as críticas da dita “esquerda” a Caetano Veloso. Muitos dos mais velhos com quem eu andava ou conhecia, criticavam Caetano e o Tropicalismo, dizendo que Caetano era um “alienado”, não falava somente de política, não fazia somente “música engajada”, era amigo de artistas acusados de serem “de direita” e “a serviço da ditadura”, como Roberto Carlos e Wilson Simonal. E, supremo pecado: usava instrumentos eletrônicos em seu trabalho e gravara um disco em inglês, enquanto esteve em Londres - um vendido ao imperialismo ianque. Bom, eram tempos curiosos, não é? Tinha gente, por exemplo, que achava que não beber Coca-Cola, chamada de “A Água Negra do Imperialismo” era uma atitude política importante. Mais curioso ainda é que Roberto Carlos foi um dos poucos a visitar Caetano em Londres abertamente. E gravou uma música em homenagem a Caetano, que passara por um período de depressão por estar longe do Brasil, no início dos anos 70. A música fez um enorme sucesso e pouca gente sabia que era pra Caetano. Chamava-se “Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos” (Roberto Carlos/Erasmo Carlos).
Na sétima série comecei a me aproximar do Grêmio Estudantil. Alguns colegas de turma tinha contatos por lá e me levaram junto. Pessoal do grêmio era arredio e desconfiado. Não era uma coisa muito segura andar às voltas com grêmios estudantis. Eram a porta de entrada para o Movimento Estudantil, coisa proscrita pelo AI-5. A maioria deles já havia desaparecido, mas o grêmio do meu colégio ainda resistia. Sua face mais visível era o entretenimento: os membros do grêmio gozavam de um espaço só seu no colégio, com direito a mesa de pingue-pongue, Totó e música.
Mas ainda havia uma atividade “subterrânea”. O pessoal do grêmio era obrigado a frequentar a missa de domingo na capela do colégio. Isso era condição inegociável. O que parecia uma forma de controlar o grêmio, foi manobrada por alguns membros para maquiar sua “atividade política”: descobri que os membros do grêmio se encontravam com estudantes da UFMG, especialmente os alunos do Diretório Acadêmico da  escola de medicina durante as missas. E ali, protegidos pela inofensiva atividade religiosa, ficavam sabendo do que andava acontecendo no movimento estudantil, que era clandestino a essa altura. A Lei 477, de 1969, previa punição a professores, funcionários e estudantes que se envolvessem com “subversão”. Professores podiam ser demitidos e não podiam trabalhar em outras instituições de ensino por até cinco anos. Estudantes podiam perder sua matrícula e ficar sem estudar por até três anos. Portanto, não era brincadeira o negócio. Era preciso muito cuidado.
Passei a frequentar as missas na capela do colégio e a andar com alguns alunos tidos como “politizados” na Oitava série.
Um desses amigos, era o Hugo. Hugo era um sujeito muito engraçado e muito inteligente. O pai dele era deputado federal pela ARENA, partido do governo, e ele era um crítico feroz da atividade política do pai. Dizia sempre que o pai era “um coronel, um latifundiário que cooperava com o sistema” (usar a expressão “o sistema” para resumir “tudo que aí está” era comum e aparentemente muito politizado, na época)
Hugo me convidou para abrir uma “célula” do Partido Comunista na cidade natal dele, no noroeste de Minas. Achei aquilo muito revolucionário. Eu nem sabia muito bem...na verdade sabia muito pouco o que era comunismo. Sabia principalmente que quem era a favor da ditadura era contra o comunismo. Então devia ser uma coisa boa, já que eles eram contra. Alguns diziam que os que apoiavam a ditadura mentiam sobre Cuba, por exemplo, que era comunista. Cuba era uma ilha do Caribe onde a revolução comandada por Fidel Castro e Che Guevara, havia transformado o país, até então escravo dos EUA, numa sociedade livre e igualitária, onde não havia mais pobreza.
Claro: achei aquilo o máximo. O negócio então é que queriam nos manter longe de Cuba para não sermos livres e iguais, e submetidos à exploração dos EUA. Estava explicado, por exemplo, por que é que no meu passaporte tinha um carimbo: “NÃO É VÁLIDO PARA CUBA”.
Numa de nossas conversas, Hugo adotou um ar muito misterioso...Olhou para todos os lados, pra ver se não estávamos sendo observados e me disse: “Toma pra você. Leia e não deixe ninguém ver esse livro. Aqui aprenderemos como lutar contra a ditadura”. Peguei o livro. Era pequeno e xerocado. Enfiei aquilo na pasta e só o abri quando estava em casa, sozinho no meu quarto. O livro era “Guerra de Guerrilha”, de Che Guevara.
Minha ingenuidade era tão grande que eu andava por aí com o tal livro, dentro da pasta.
Até o dia em que estávamos voltando da casa de um amigo, no Sion. Era tarde da noite, para aquela época. E, ao virarmos uma esquina, vimos uma movimentação. Já era tarde para voltar. Correr não era opção: podia ser muito pior. Continuamos caminhando até o que era uma barreira policial. Estavam parando, revistando e identificando as pessoas.  Fomos parados por dois policiais, fortemente armados, com escopetas e metralhadoras. Eu estava apavorado. Lembrei do livro dentro da pasta.
A melhor estratégia, nessas horas, é fazer cara de inocente. E não deixar de olhar para os policiais com ar absolutamente normal: nem medo, nem confiança demais - as duas coisas são “suspeitas”. Pediram documentos. Pensei na carteira de estudante que estava na pasta. Melhor não mexer na pasta e nem apresentar um documento da “UBES”. A outra opção era a carteira de identidade, estava no bolso de trás da calça, dentro da carteira.
Coloquei, lentamente a pasta entre as pernas, levei cuidadosamente a mão até o bolso de trás, e também cuidadosamente tirei a carteira e a abri, já na frente do policial. Entreguei. Hugo fez a mesma coisa. Perguntou de onde vínhamos e para onde íamos. E nós dissemos, sem titubear e sem gaguejar. Os soldados olharam os documentos, olharam para aqueles dois garotos ali parados...E nos liberaram: “Vai, vai, vai”!
E saímos de lá. E eu com as pernas bambas e a boca seca. Se achassem aquele livro...não sei não.
Anos mais tarde, eu me lembrava daquele episódio e, felizmente, podia rir muito do garoto ingênuo. Ingênuo de andar com uma peça “subversiva” tranquilamente dentro da pasta, no Brasil do AI-5. Ingênuo por um dia ter acreditado que um regime violento, totalitário, que oprime a mantem o próprio povo como refém, representado por um sujeito tido como um “libertador”, mas que nunca titubeou em fuzilar friamente seus inimigos, não só em Cuba mas em outros países da África e da América Latina, que odiava homossexuais e colecionava frases racistas, preconceituosas e tirânicas. Comecei a conhecer quem de fato era Guevara ao ter acesso, alguns anos depois, a um pequeno filme dele em discurso na ONU, nos anos 60. O lado bom da história é que aprendi que não era aquilo que eu queria para o meu país: nem a ditadura da “direita”, nem a ditadura da “esquerda”. Era preciso buscar outros caminhos.
E assim, ia eu vivendo, entre o ufanismo dos militares e suas grandes obras do “Brasil que vai pra frente”, e os mitos de uma esquerda igualmente totalitária, em sua inspiração soviética.
Escrevi um poema, há mais de 30 anos, sobre como eu me sentia nesse período. Segue aí abaixo pra vocês (perdoem o poema adolescente, mas é o registro de uma época de minha vida)


“Tinha meganha demais na minha juventude.
Tinha Era de Aquário e Olimpíadas do Exército,
 Nas minhas jovens atitudes


 Tinha querer
  Ir pra frente
  Ser corrente
  Milhões de indigentes
  
  Tinha Che Guevara
  e Ponte Rio-Niterói
  Ilusões e cimento
  Legiões de Ataúdes
  Na minha nuvem juventude


  E a garota de bata rosa
  No show do tarancón
  Não sabia que Cuba era uma ilha.”


 (Obs: Meganha = Militar. Cuidado, é um tratamento ofensivo, hehe)

domingo, 24 de abril de 2016

AS AVENTURAS DE MURA NO PAÍS DA DITADURA EPISÓDIO 2: O DOPS E A EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA

As Aventuras de Mura no País da Ditadura


Episódio 2: O DOPS e a aula de Educação Moral e Cívica.





Um dia, eu tive que mudar de escola. A escola em que eu estudava ia apenas até a 4°série. E eu estava entrando no Ginasial, que corresponde hoje ao Fundamental Maior, a partir da 6° série.
Muitos estudantes, dependendo de sua situação de aprendizagem, faziam um ano de “Admissão”, entre a 4 série de primário e o 1 série do ginasial. Para saber se isso seria necessário, a gente fazia uma prova. Daí, minha mãe me levou para fazer a tal prova no novo colégio que haviam escolhido pra mim.
Fui lá. Fiz a prova. E acho que devo ter ido bem o suficiente para não precisar fazer o “Admissão”. Não me lembro de notas e essas coisas. Só me lembro de começar, com uniforme novo, o primeiro ano do Ginásio. “Puxa vida, estou no ginásio. Praticamente um adulto” - bom, vocês conhecem essa pretensão de maturidade que acompanha nossos progressos escolares, não é? Olhava para os meninos do primário e pensava: “pirralhos”...
Mudar de colégio é quase sempre complicado, mas, pra mim, foi ainda mais. O colégio anterior era pequeno, quase familiar, boa parte dos pais se conheciam. A quarta série, por exemplo, tinha apenas duas turmas, e com no máximo 30 alunos em sala.
O novo colégio era imenso, um prédio enorme com quatro andares e ocupava um quarteirão inteiro, com frente para a av. Bernardo Monteiro. Ainda existem em Belo Horizonte - tanto o prédio quanto o colégio. E eram umas quatro turmas de cada série, do Ginásio e do Científico (atual Ensino Médio).
Quanto vi aqueles galalaus do Científico entrando no colégio, percebi que eu voltara a ser “pirralho” muito rapidamente. A alegria de bancar o vivido e experiente, tinha sido fugaz.
Um detalhe importante: o colégio era só para homens. A maioria dos colégios em Belo Horizonte já tinha abandonado a prática de receberem somente meninos ou somente meninas e já eram mistos. Mas no colégio em que eu entrava, as turmas  “mistas” estavam previstas apenas para o ano seguinte.
Procurei a minha sala, no primeiro andar. Turma B. Entrei, tentando evitar muitos contatos com os novos colegas - sou tímido, sabe como é. Sentei-me mais ou menos no meio da sala. As carteiras eram grande e pesadas, ainda com aquelas tampas que levantavam. Tinha até lugar para colocar o tinteiro, que ninguém usava mais.
Toca a sirene (ou sinal, se preferir) e em pouco tempo tempo entra o primeiro professor: era o professor Pacheco, de matemática. Todo mundo de pé (quando o professor entrava, vc tinha que se levantar, em sinal de respeito). Ele mandou que sentássemos, organizou-se, fez a “chamada” e começou a aula
Professor Pacheco era um homem de seus 40 anos, magro, estatura mediana, um imenso bigode e uma antena de carro nas mãos, fazendo as vezes de indicador para o que escrevia no quadro. Começou a aula com uma frase que já o havia tornado célebre: “A matemática é a rainha das matérias”!
Pouco me importei com a aula. Primeiro, era matemática - chato pra caramba. Segundo, era preciso fazer um reconhecimento ampliado. Passei o tempo sacando os colegas, olhando o pátio do colégio pela enorme e neoclássica janela: lá estava a famosa piscina suspensa do colégio, lugar que eu pretendia frequentar muito. Eu gostava muito de nadar, nadava muito bem e em pouco tempo pretendia estar na equipe de natação do colégio, como já estava também na equipe de natação do Olímpico, clube que eu frequentava.
Na hora do intervalo, descemos para o pátio interno do colégio: cantina, 3 quadras de futebol de salão e um campo de futebol - de terra. Não tinha o tamanho oficial, mas era o maior campo no qual eu já tinha pisado. De repente, vi um pessoal entrando por uma grande porta, no que parecia um porão, do outro lado das quadras. A curiosidade me levou até lá: “Grêmio Estudantil” - estava escrito na placa lateral.
Mas o grêmio estudantil, onde havia várias mesas de jogos, como pingue-pongue, Totó e outros, não era acessível a todos. Só para os membros. “Nota mental: virar membro do Grêmio Estudantil”
Não seria tão simples, mas foi importante para ampliar alguns dos meus horizontes, como veremos mais à frente.
Desse primeiro ano do Ginásio, pouca coisa de importante aconteceu na minha vida. Acho que passei a maior parte do tempo no esforço de me adaptar àquele novo universo superpovoado e tão diferente do meu primário.
Fiz alguns amigos, tanto do primeiro ano quanto do segundo e terceiro anos, graças ao futebol e à natação. Conviver com os “mais velhos” e experientes é muito importante para um “pirralho” do primeiro ano: você descobre coisas fundamentais para uma vida mais feliz e segura naquele universo.
Por exemplo: descobri que todo mundo tinha medo do porteiro do colégio. Não do “disciplinário”, que era considerado muito bravo e inflexível, mas justo. O medo era do porteiro.
Era um sujeito muito alto e muito forte. Cara fechada. Ficava sentado numa mesinha, quando estávamos entrando no colégio, logo cedo, e tínhamos que entregar a ele a “caderneta”, que controlava a presença. Ele abria na página do mês e carimbava “presente”, com tinta azul. Se você não fosse à aula, no dia seguinte recebia um “ausente” em vermelho, perdia frequência - que contava para aprovação, e tinha que se explicar com seus pais, se matasse aula.
Pois os mais velhos diziam que esse sujeito, o porteiro, era “agente do DOPS” disfarçado. Então eu fui procurar saber o que era o DOPS.
O DOPS era o Departamento de Ordem Pública e Social, criado pelos governos militares, depois do golpe de 1964. Era o órgão responsável por estabelecer uma vigilância política sobre as pessoas. Quem era considerado “subversivo” ou suspeito de ser “subversivo”, ia parar no DOPS, se tivesse sorte. Alguns que não tinham “sorte” por estarem muito comprometidos com a “subversão”, despareciam. Os familiares não conseguiam encontrá-los, ninguém dizia nada sobre eles. Não se sabia se estavam presos ou não. Era uma busca dolorosa e perigosa. Muita gente tinha medo até de procurar saber onde estavam os amigos e parentes. Muitas pessoas eram exaustivamente interrogadas simplesmente por conhecerem alguém acusado de “subversão”. Estávamos sob o AI-5, pessoas acusadas de “subversão” podiam ser presas sem necessidade de mandado de prisão, sem processo formal e sem direito a .responder o processo em liberdade.
Os mais velhos, portanto diziam que o tal porteiro era “do DOPS” e isso bastava para manter distância e evitar até mesmo conversar com ele. Pra piorar, o DOPS ficava muito perto do colégio, a três ou quatro quadras, na esquina de Bernardo Monteiro com Afonso Pena. E já que desgraça pouca é bobagem, todos os dias eu tinha que passar em frente ao DOPS para pegar o ônibus de volta pra casa, na Afonso Pena.
Depois que me disseram para evitar aquele lugar, passei a descer a avenida Brasil, e não mais a Bernardo Monteiro, pra pegar o ônibus. Sabe como é: ninguém sabia exatamente o que era ser “subversivo”. Vai que eu era, né? melhor evitar dar mole pro azar.
Naquele primeiro ano, conheci também duas outras coisas interessantes. Uma, foi o Professor Elmo, de inglês - pessoa divertidíssima, que pouco ensinava de inglês, mas que criava passarinhos e adorava falar sobre eles. Passava várias aulas imitando o som de passarinhos pra nós. E dando cocadas nos mais rebeldes - sim, professores podiam dar cocadas nos alunos quando eu estava no primeiro ano do ginásio. A outra, foram as aulas de Educação Moral e Cívica. A ideia desse tipo de disciplina não era nova. Getúlio Vargas também havia tornado essa disciplina obrigatória nas escolas, durante o Estado Novo.
Nas aulas de Moral e Cívica, aprendíamos sobre como ser um bom cidadão, sobre o significado dos símbolos nacionais, como a bandeira, o hino, o brasão da República. E também sobre qual era o papel dos órgãos municipais, estaduais e federais. os alunos mais velhos diziam que nas salas havia um alto-falante pelo qual era possível a direção do colégio e os agentes do DOPS, escutarem as aulas do professor pra saber se ele não era um subversivo.
Eu aprendi que era prudente falar o menos possível na aula de Moral e Cívica. “Vivendo e aprendendo a jogar”.

terça-feira, 19 de abril de 2016

AS AVENTURAS DE MURA NO PAÍS DA DITADURA - EPISÓDIO 01

As Aventuras de Mura no País da Ditadura

Episódio 1: Não se fala em corda na casa de enforcado.

A primeira coisa que eu queria dizer é que fico muito feliz, muito feliz mesmo, que a maioria dos que vão ler isso aqui só conhece a palavra ditadura do dicionário. E espero, e lutarei, para que continue assim.
Dito isso, vamos aos fatos.
Estamos nos “Anos de Chumbo”, o general-presidente é Emílio Garrastazu Médici. O AI-5 estava em vigor a menos de um ano. Imagino que todos saibam o que foi o AI-5. Passei de criança a adolescente sob o AI-5. E a primeira coisa que se aprendi é que, em uma ditadura, não se fala sobre ela...pelo menos não impunemente.
Minha mãe tinha o hábito de ir à missa no convento dos frades capuchichos, no alto da Serra. O lugar existe ainda hoje, em Belo Horizonte, mas em uma região já totalmente urbanizada e incorporada ao cotidiano da cidade. Na época, era quase zona rural. A rua mal chegava até lá, e era cercado pela mata nativa, quase intocada, da Serra do Curral. Uma das coisas que atraia minha mãe ao convento era exatamente esse clima bucólico.
Nunca fui muito de missas. Na minha infância, eu sempre achava alguma coisa mais interessante pra fazer, num domingo pela manhã, do que ir à misssa. Entretanto, o lugar era realmente lindo e, por isso, fui algumas vezes com ela à missa. Até que de repente, as missas no Convento dos Capuchinhos, sumiram da minha vida.
Não me dei conta disso, no início, é claro. Mas, certo dia me lembrei do Convento. E fui perguntar à minha mãe se podíamos ir à missa no Convento. Ela me olhou, calmamente e disse que não havia mais missas no Convento. “Os frades não estão mais lá, se mudaram para outro lugar” disse ela. “Pra onde, mãe”?. “Não sei” e não falou mais sobre o assunto. E foi a última coisa que ouvi sobre os capuchinhos por um tempo. A memória do lugar ficou, e toda vez que eu passava por lá, me lembrava desse episódio.
Até o dia que descobri que o Convento dos Capuchinhos tinha sido esvaziado pelas forças de repressão, pelo DOPS – Departamento de Ordem Pública e Social. Alguns dos frades tinham sido presos sob acusação de subversão, por esconderem e darem fuga a procurados pela Operação Bandeirantes.
Algo semelhante aconteceu quando meus pais tiveram que mudar minha irmã mais velha de escola. Ela estudava no Colégio Helena Guerra, em Belo Horizonte, que pertencia a uma congregação de freiras (não me lembro mais qual congregação). O colégio foi fechado sob a mesma acusação: subversão. Lembro da minha irmã chorando por ter que mudar de escola. Me lembro também de ter ouvido alguém dizer que as freiras “eram comunistas” - não em casa. Nunca ouvi meu pai ou minha mãe usando a palavra “subversivo” ou “comunista” com relação a qualquer pessoa, em casa, quando eu era garoto.
Eu não sabia o que estava acontecendo, não se comentava sobre ditadura, nem em casa, nem na escola. Era perigoso demais. Numa ditadura, amiguinho, ninguém senta na sala, com os amigos no bar, ou comenta na fila do banco com um desconhecido para passar o tempo: “E essa ditadura, hein?”. “Pô, cidadão, nem me vale, nessa ditadura. Que ditadurão, cara”! - isso, amiguinho, podia dar muitos problemas...
Senão, vejamos: certo dia, fui com minha mãe ao centro da cidade. Me lembro claramente desse episódio, porque eramos só eu e ela, nessa aventura – aventura, pelo menos pra mim. O bom de ser criança é que aventuras moram em qualquer lugar, em qualquer palavra. O fato de sermos só eu e ela era muito raro: minha mãe já tinha os seis filhos, nessa época, e um deles era ainda quase um bebê. Não sei o motivo de estar em casa vadiando naquela manhã. Devia estar doente ou fingindo alguma doença. Fingir doença, como sabem, é uma arte: tem que estar doente o suficiente para não ir à aula e sadio o suficiente para não perder o dia em cima da cama. Acho que foi esse o caso.
Pegamos o trolebus (não sabe o que é trolebus? Ônibus elétrico que circula entre o centro da cidade e o alto da rua do Ouro, em Belo Horizonte. Ainda me lembro do barulhinho que fazia: “zzzzzzzzzzzzzzz” - lá ia a longa haste do teto do ônibus até os fios. Anos depois, enterraram os fios na “Operação Tatú” e acabaram com os trolebus. Parece que estão voltando, agora). Descemos na Praça Sete. O “pirulito” não estava mais lá. Tinha sido levado para a praça Diogo de Vasconcelos, também conhecida como “Praça da Savassi”, devido a uma famosa padaria que havia na esquina de Getúlio Vargas com Cristovão Colombo, que pertencia a uma família italiana (família Savassi). Anos depois, trouxeram o “pirulito” de volta.
Fomos primeiro à Galeria do Ouvidor. Eu adorava ir lá por causa da escada rolante. A escada rolante da Galeria do Ouvidor foi a primeira que vi na vida, e uma das primeiras de Belo Horizonte. E ainda atraia muita gente, o “turismo da escada rolante”. Depois fomos ao banco. Banco do Estado de Minas Gerais, o BEMGE, na agência que ficava na Afonso Pena com Carijós, na praça Sete. O prédio ainda existe, já que é prédio tombado pelo patrimônio histórico, mas não me lembro o que existe lá hoje.
Entramos na agência, e depois das recomendações de praxe – “não saia daqui. Se sair da agência te mato” e coisas semelhantes na doce relação mãe e filho, minha mãe foi ao caixa e eu fiquei por ali admirando aquele prédio lindo: imensas colunas, vitrais coloridos nas janelas, cerâmica decorada no piso...E então eu vi um cartaz: PROCURA-SE. ASSALTANTES DE BANCO.
Uau! E eu pensando que assaltante de banco era coisa só da TV e do Cinema. Fiquei ali olhando aquelas caras. Alguns homens e uma mulher. Abaixo, o telefone da polícia para o cidadão passar informações. Viajei naquele cartaz, que era mais ou menos parecido com esse aqui abaixo. 


Minha mãe me viu ali, e não conseguiu esconder o ar de espanto e preocupação. Veio andando rapidinho e me tirou de lá: “Para de ficar olhando isso”. E seguimos a vida.
Anos depois, vi aquele cartaz de novo, em um livro e vim a saber que eram membros da ALN e da VPR, entre eles, o ex-capitão de exército Carlos Lamarca e sua namorada. Assaltavam bancos para financiar a guerrilha, já que o acesso a recursos vindos da URSS, via Cuba, estava cada vez mais difícil para eles.
Mas, a primeira vez que vi a repressão ao vivo e a cores, com todas as sua evidências, foi por causa da escola. Tínhamos uma professora que certo dia apareceu em sala de aula com um bodoque. Em Belo Horizonte chamamos de bodoque. Há quem chame de atiradeira ou estilingue. Pra mim, é bodoque mesmo. A pobre moça não queria mostrar aquilo, mas, por acidente, ele apareceu quando ela tirou alguma coisa da bolsa. E todo mundo foi lá ver aquela coisa. Era um bodoque diferente, não era como os nossos, feitos com forquilha de goiabeira e fitas de borracha de câmara de ar de pneus (sim, nessa época, pneus tinham câmaras de ar). Era um bodoque de metal com fita de borracha hospitalar, daquelas borrachas usadas para garrote ao tirar sangue de pacientes. Muito mais poderoso. E não usava pedras: a bolsa dela estava cheia de esferas de rolamentos.
A professora contou que ia a uma manifestação estudantil e que a polícia militar havia proibido a manifestação – em tempo: manifestações de caráter político eram proibidas, de acordo com o AI-5. Todas e qualquer uma. A polícia ia com o que chamamos hoje de tropa de choque e também com a cavalaria. E eles atacavam a polícia com aqueles bodoques e esferas de rolamento. Pra você que está lendo isso e pensando no assunto, devo dizer que uma esfera dessas pode matar uma pessoa, portanto, se for fazer isso, esteja preparado pra assumir as possíveis consequências.
Acabou-se a aula e acabou-se a professora. Dias depois, soubemos que ela estava internada na enfermaria do Hospital João XIII. Alguns colegas decidiram visitá-la. Convenceram os pais, e lá foram eles. Ao chegar, diziam o nome da paciente que estavam procurando. Imediatamente eram encaminhados a dois policiais militares que, por sua vez, levavam os visitantes até uma salinha, onde estavam outros dois agentes do DOPS e um escrivão, agarrado a sua máquina de escrever. Tinham que dar o nome, endereço, e explicar os motivos pelos quais estavam querendo saber daquela pessoa.
O que aconteceu, vocês já devem imaginar: ninguém nunca mais foi procurar por ela. Não que eu saiba. E ninguém nunca mais ouviu falar dela. Não que eu saiba.

Foi assim que comecei a conhecer o que era a dita...a ditadura. E seus métodos.

sábado, 5 de dezembro de 2015

ANA MARIA

ANA MARIA



Só. Só, em casa, Ana Maria esperava. Vagava pelos corredores: o caminhar de Ana Maria deixa rastros no pó acumulado pelo assoalho de sua mesmice. O pano - muito branco, muito leve -, da camisola. E a mulher, percorrendo os vários cômodos de seu vazio.
Chovia. Ana Maria entre os clarões azuis, esperava. Correu as mãos pelo corpo: frio. Frio nos ossos e nos olhos da moça. Mas ela não se desesperava; esperava. Entretanto, os clarões azuis provocavam, por vezes, pequenos sobressaltos que deixavam escapar o medo em interjeições, desafiando-lhe a frieza do olhar.
Tomava chá com batidas do relógio na cozinha. Imensa cozinha, sob a luz das velas: a tempestade levara a energia. Os sons, chuva e relógio, a luz piscante das velas...
A cozinha transformara-se numa catedral de fórmica; e Ana Maria lembrou-se de um armário onde costumava esconder-se, quando criança. Na porta do armário havia um espelho. Ana Maria fechava-se no armário com uma lanterninha que a mãe lhe dera e ficava horas observando seu reflexo no espelho: sorria, olhava-se; emudecia, olhava-se; chorava, olhava-se; despida, olhava-se.
Ana Maria colecionava, distraidamente, migalhas do tempo sobre a mesa da cozinha, e observava seus dedos, sempre tão finos. Havia uma bruxa na infância que devorava criancinhas que tinham os dedos gordinhos.
“Houve um tempo em que os desejos eram como pele, Ana Maria”. A moça agora esforçava-se para lembrar canções; canções que ela costumava cantar no chuveiro, nos caminhos, para o vento. Canções que soube de cor. Canções de amor de tempos atrás... Há tempos atrás?
Saiu da cozinha levando um pequeno castiçal de louça, pintado à mão com motivos orientais, por uma amiga. Uma amiga... Como era seu nome? Uma amiga que adorava frases: andava com um caderninho anotando frases. Consumia, vorazmente, “Pensamentos do Dia” e “Momentos de Reflexão”, com os quais carimbava todos os acontecimentos. Uma amiga que rubricava as horas com palavras alheias e, muitas vezes, aleatórias. E era feliz.
Ana Maria foi até a janela da sala de estar. Que tinha cortinas de renda: as cortinas e a renda já tiveram uma história e um sentido em sua história. Ela entreabriu a cortina e sua esquecida história. A vidraça estava embaçada. Ela desenhou flores, bichinhos e pequenos objetos. Fazia rabiscos-apenas-rabiscos. um cheiro de grama molhada.
O jardim, além da janela, também parecia outro: outras sombras, outros mistérios, outras raízes. Não era mais o jardim onde a menina Ana Maria colhera copos-de-leite, admirada, guiando o corte da longa haste pelas orientações da mãe; sussurrantes orientações, cuidadosa operação, como se estivessem a cortar um cordão umbilical. Como se tivessem a consciência de que separavam a flor da existência da flor.
Não era mais o jardim onde a menina Ana Maria enterrara bulbos; o jardim onde enterrara um bichinho de estimação dentro de uma caixa de goiabada.
Ana Maria não era mais a menina Ana Maria. Ana Maria não era mais a mulher Ana Maria. Não era mais a mesma mulher de quando descobriu estar amando. Não era mais a mulher com os seios em cor, com os olhos chorando sabor, ansiosa, buscando agarrar-se ao orgasmo que insistia em fugir-lhe entre os dedos, sempre tão finos.
Um clarão. Azul. O jardim, a chuva, o som das gotas no vidro da janela; a cortina, a renda e Ana Maria, com o rosto entre as mãos.
Não era mais a menina que escreveu poemas, que guardou flores e embalagens de bombom entre as páginas do caderno adolescente. Não era mais a menina que aguardou, - coração fora do peito - , os passos do garoto que vinha tirá-la para dançar. A menina que registrou no diário, - perdido, distante, quase improvável diário - , o primeiro beijo
Não era mais a Ana Maria que marcou encontro, na lanchonete, com o tímido garoto dos óculos de tartaruga; que ligou para a amiga Marcinha contando todos os detalhes do encontro: os risos trocados, a amiga a perder o fôlego, aliviando as tensões e coroando com alegria a descoberta de um jeito mulher na menina Ana Maria.
Não era mais essa menina, não era mais essa mulher. Ana Maria não sabia mais quem é Ana Maria. Ana Maria que esperava.
Enroscou-se no sofá acariciando a camisola, acariciando o sofá, acariciando as coisas da sala de estar: coisas de Ana Maria que, um dia, deixou de ser.
Era querer. Ela era só querer. Queria outra vez Ana Maria nos dias que quis Ana Maria

E ele... ele haveria de chegar, como sempre chegava. Mais cedo ou mais tarde. E só, Ana Maria.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O TAMANHO DA RUA - HISTORINHA INFANTIL

O TAMANHO DA RUA




Outro dia estava navegando pela internet, brincando com aqueles programas que nos mostram a Terra vista do espaço, por um satélite. A gente pode “mergulhar” na Terra, com esses programas, aproximando cada vez mais. A gente entra na atmosfera, começa a ver o traçado dos continentes e oceanos, depois a gente escolha um lugar qualquer do planeta. Eu escolhi o meu país. Depois a gente aproxima mais e identifica a posição do nosso estado. Aí, já dá pra começar a localizar a nossa cidade.
Com a minha cidade já no alvo, comecei a ampliar mais a imagem. Vi os bairros, as avenidas e ruas ainda pequenas. Aproximei mais, mais e mais: e lá estava a minha rua. Eu podia reconhecer a minha casa, a casa dos vizinhos, o comércio que existe no fim da rua. A minha vontade era “mergulhar” mais ainda e poder ver as pessoas, os animais, e até os buracos no asfalto que a minha rua tem. Mas a ampliação da imagem já estava no limite. Então, fiquei ali, olhando a minha rua com os olhos do espaço. Como se fosse um E.T estudando o belo planetinha que risca de azul o sistema solar em sua órbita.
Deixei aquela imagem ali e fiquei observando, como quem vê pela primeira vez algo que já conhece em detalhes. Então, não sei porque, me deu uma vontade danada de sair de casa e fazer na minha imaginação, já que não havia um foguete à mão, a viagem ao contrário: fui para a rua, parei bem em frente ao meu portão, olhei para a rua toda. Depois, olhei para o céu, e voei: decolei em direção ao satélite que pouco antes me mostrava as imagens do meu planeta.
Olhando pra baixo, vi as ruas diminuindo, as pessoas virando formigas. Vi toda a beleza da geografia da região onde vivo; vi o meu país se formando lá embaixo, vi o oceano aparecendo, vi o meu continente, os outros oceanos, os outros continentes... até sair da atmosfera e poder ver o meu planeta. Fui até o satélite, sentei em uma de suas antenas – com cuidado pra não quebrar nada (acho que isso deve ser de um gringo qualquer)... E suspirei diante da beleza da minha Terra, do meu lugar nesse imenso universo.
Se você está aí rindo de mim, ou se perguntando como é que eu posso suspirar e respirar no espaço, já que sua professora de ciências disse que no espaço não tem ar, por que lá existe o vácuo eu te respondo: na imaginação, a gente pode tudo. Pra te provar isso, vou dizer que, sentado na antena do satélite, ainda tirei meu canivete do bolso e chupei uma laranja (colhida de uma laranjeira que imaginei nos painéis solares da estação espacial internacional), enquanto tentava identificar se aquele traçozinho, aquela pequena cicatriz que via na superfície do meu planeta era a Grande Muralha da China ( será?)
Então, olhei pra trás e contemplei a Lua, ali pertinho, os outros planetas do sistema solar (não olhei para o sol porque não tinha levado meus óculos escuros nem meu negativo de filme fotográfico). Vi bilhões de corpos celestes: estrelas, cometas, meteoros... pensei ter visto dois discos voadores e um buraco negro... Vi também a quantidade impressionante de lixo espacial em volta da Terra... Pensei maravilhado: eu estou lá na minha casa, na minha rua, na minha cidade, no meu país, no meu continente, no meu planeta... MAS... Sou mesmo é um habitante do universo! Meu lar é tão grande, tão grande, mas tão grande, que a gente acha que ele é infinito. Isso me fez sentir estranho: muito pequeno, por ser apenas um euzinho minúsculo no meio desse imenso universo... e muito grande, por ser um euzinho que pode vir a conhecer esse mesmo imenso universo.
Recolhi todas essas imagens pra dentro da minha cabeça e do meu coração (a imaginação tem um duplo lar em nós) e voltei o olhar pra minha rua. Aquele cachorrinho que passava tranquilamente, já não era o mesmo. O menino, meu vizinho, que me acenava da janela, já não era o mesmo. A minha rua, a minha rua simples e comum, como outros milhões de ruas pelo mundo, não era mais somente a minha rua: era um pedaço do universo. Era, na verdade, um universo dentro do universo. E esse universo tão mais próximo, era igualmente complexo e deslumbrante. E eu decidi explorá-lo.
Comecei minha exploração pelo mercadinho do “seu” Alfredo, que fica lá na ponta da rua, na esquina com a avenida que nos leva ao coração da cidade. Podemos com certeza dizer que ver o mercadinho do seu Alfredo é a alegria de chegar em casa, pra quem vem da cidade, e a pontinha de saudade de casa, quando se vai pra cidade. É a esquina do meu cotidiano, o mercadinho.
O mercadinho funciona em uma antiga garagem, convertida e ampliada para loja pelo dono que está morando nos EUA há dez anos – manda dinheiro de lá para os pais, que moram no andar de cima do mercadinho, e vivem da renda do imóvel. Tem verdura na porta, fresquinha, logo de manhã. Tem pão e leite. Tem aquela mortadela que eu adoro. Tem uma maquininha de balas. Tem uma caixa registradora antiga, mas que ainda funciona. Tem macarrão, farinha, feijão, arroz e carnes congeladas. Tem caderno, lanterna, sabão, limão, CD-Rom gravável, ração, alpiste, pimentão, leite condensado, batata chips. Tem também botina “rangideira” e fumo de rolo. Nos rótulos dos produtos tem: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Buenos Aires e São João das Roças Lindas (que fica aqui pertinho).
E tem o seu Alfredo. Seu Alfredo é um mulato de olho verde, filho de um negro nordestino com uma loura francesa, neto de portugueses, índios, escravos e poetas. Seu Alfredo era o Brasil, era o mundo em forma de gente. Seu Alfredo falava mineirês (não sei se disse, mas moro em Minas Gerais, um “Mar de Morros” afogado em gente hospitaleira e gentil) com sotaque brasileiro, o que lembrava de longe o português. De vez em quando, recitava poetas franceses ou cordéis nordestinos: seu preferido era “A chegada de Lampião no Inferno”, que era muito engraçado.
Seu Alfredo nunca tinha viajado mais longe que alguns poucos quilômetros, mas trazia o mundo na alma, na pele. Sabia de Áfricas e Quilombos e Paris.
Entrou no mercadinho a Dona Rosa, pra comprar umas verduras pro almoço. Fui com ela, caminhando até sua casa, pra carregar a sacola. Dona Rosa já coleciona muita vida nos ombros, seus olhos são oásis de vida e quando ela olha pra gente um sorriso nasce em nossos corações.
Dona Rosa morava no outro extremo da rua, do lado oposto ao mercadinho, em uma casa antiga, mas bem conservada, com uma jardineira de margaridas na janela da frente. Dona Rosa, a primeira moradora da rua, diz que já viveu quase de tudo: nasceu em uma fazenda, cresceu cozinhando e lavando, casou na cidade, trabalhou em fábrica e em loja, viu a primeira locomotiva e viu também a primeira transmissão de televisão chegarem à sua cidade. Viu em preto-e-branco, o primeiro homem na Lua; e comprou o primeiro telefone celular da rua. Dona Rosa à vezes tem um tom de tristeza na voz: tem saudades do marido, que já se foi. Tem saudades dos filhos, que moram longe. Tem saudades dos netos que lhe mandam retratos e e-mails (Dona Rosa ganhou um computador do filho mais velho e aprendeu a usá-lo com o neto mais novo, que tem uma paciência danada com ela).
A casa de Dona Rosa tem muitos retratos e cheiro de memória.
Deixei as sacolas de verduras na casa de Dona Rosa e vi o Marquinhos, meu amigo, sentado no meio-fio, fazendo bolha de sabão. Tinha um tempão que eu não via alguém fazendo bolha de sabão. E fui lá, furar umas bolhas, é claro.
Marquinhos é um menino franzino, de óculos, com rosto cheio de sardas, muito branco, muito pálido. Morava na terceira casa a partir da minha, bem no meio da rua. A casa do Marquinhos, na verdade, era um pequeno condomínio: a casa original, de seus avós, havia sido dividida em três residências independentes. Em uma delas, morava o Marquinhos e seus pais, nas outras, seus dois tios com as famílias.
O pai de Marquinhos era engenheiro da empresa mais importante da cidade. Havia se formado há pouco tempo. Começara como um simples operário, mas, apesar de já ter família, batalhou muito, trabalhando durante o dia e estudando à noite, até se formar. Agora, ganhava muito melhor e tinha o carro mais novinho da rua.
Já o Marquinhos, sonhava em ser especialista em computadores. Passava quase todo seu tempo livre fechado no quarto, navegando na internet ou aprendendo a usar os programas mais complicados que o pai dele tinha.
Do outro lado da rua, também observando o Marquinhos estava o Carlão, sujeito meio esquisito, que não fazia nada da vida. Já com seus trinta anos, vivia ainda na casa da mãe e se vestia como um adolescente. O tempo todo de boné, bermuda e chinelo. Passava os dias pelos bares, jogando sinuca e bebendo. A mãe do Carlão era costureira, uma das melhores do bairro. Fazia de tudo, até vestido de noiva. Era ela quem sustentava o Carlão.
A casa do Carlão era mal cuidada, o portão estava velho e solto, caia toda hora. O telhado estava lotado de folhas, que caiam do ficos que havia no pequeno jardim, em frente à casa. A mãe dele não tinha tempo para manter a casa arrumada, e o Carlão parecia não se importar com isso. De vez em quando, olhava pra casa e dizia: “Amanhã eu vou arrumar isso aí”. Mas, amanhã nunca chegava.
Caminhando em direção à minha casa, olhava pra minha rua: casa dos Pereira... Casa da Mônica... Casa daquele vizinho que não conversava com ninguém... O terreno baldio... O predinho onde mora o Paulo, meu amigo... Eu caminhava e pensava em toda aquela gente. Gente de todo lugar, gente de todas as idades, gente que ia e vinha. Eu caminhava e pensava que ali naquela rua, não havia limite para histórias, para vontades, para desejos, para alegrias e tristezas. Não havia limite para o futuro, para mudanças que ainda poderiam ocorrer, com o passar dos anos.
Olhei para a rua novamente, mas agora com meus olhos da imaginação: e vi que minha rua não terminava na avenida que levava à cidade. Minha rua se ligava a uma estrada invisível que levava ao infinito. Minha rua era pequena, é verdade, mas era uma parte desse mundo, estava conectada ao planeta e corria muito além, serpenteando pelo universo, entre os mesmos satélites, estrelas, cometas, planetas, galáxias que eu imaginara ainda há pouco...

E assim, olhando pra lugar nenhum e para todos os lugares, cheguei a uma conclusão: não há nada que possa limitar as pessoas. Nem casas, nem ruas, nem cidades, nem mundos. Nosso único limite está no tamanho que queremos ter.

Murilo Cisalpino

domingo, 1 de novembro de 2015

ODISSEIA DE UM HOMEM COMUM - EPISÓDIO 12 - NA ROLETA DA VIDA

NA ROLETA DA VIDA

Estava no ônibus, outro dia, de Timóteo para Ipatinga. Final de uma tarde do final de outubro. Mais um dia, tudo como sempre, inclusive as situações especiais: de especial, havia o fato de estar indo substituir um colega, que havia sido internado. Mas isso aconteceu muitas vezes, ao longo do ano, trazendo a dupla sensação de alegria, por poder ajudar e preocupação, com o estado de saúde do colega. E de especial, havia também a impressão de entrar em dois lugares, quando entro em Ipatinga: a entrada de Ipatinga me lembra muito Brasília e sempre penso nisso, quando entro na cidade. É sempre como se estivesse entrando em duas partes de minha vida ao mesmo tempo e as memórias se misturam, como se lambesse um sorvete napolitano feito de emoções e histórias.
Era um dia de sentimentos especialmente envolvidos pela normalidade. O sol ainda brilhava às 18 horas, devido ao horário de verão. Mais uma normalidade com sabor especial. Normalmente extraordinário, esse dia.
O ônibus seguia seu trajeto normal, com seus barulhos normais e eu, como normalmente faço, me distraia com o ir e vir da cidade, lá fora. A moça de chapéu, o carro caríssimo, o garoto suicida correndo entre carros, a flor do shopping, o cheiro da usina: tudo como sempre. E eu pensava que nada dessa normalidade ocorreria outra vez, na história da humanidade. Pequenos e banais momentos únicos do universo passando pela janela.
De repente, não mais que de repente, escuto um pequeno gemido, longo e doído, dentro do ônibus. Procurei ver de onde vinha aquela ruído anormal que invadia a minha normalidade: era o trocador. Quando olhei, ele dava um impulso para a frente, levantava a cabeça, tentava segurar-se nas barras laterais e emitia outro gemido, ainda mais gutural e doloroso. Em seguida, suas mãos e braços se retorcerem, suas pernas se esticaram. Ele começou a cair da cadeira, totalmente retorcido, debatendo-se levemente, e salivava profusamente.
As pessoas, no ônibus, se espantaram, imediatamente gritaram para o motorista que o trocador estava passando mal, pedindo para parar. Algumas se aproximaram, na vontade de ajudar. Mas paravam diante do quadro: um homem, adulto, todo contorcido, debatendo-se e "babando". Não é fácil dar o próximo passo.
Sem hipocrisias: não é fácil dar o próximo passo. O que lhe vem à cabeça? "Será contagioso"? Por mais que você seja uma pessoa sempre disposta a ajudar, é isso que você pensa. E contem, ainda que seja por segundos, o próximo passo. Somado a outras dúvidas, por exemplo: "como eu posso ajudar, não sei o que está acontecendo", ou "não sei o que fazer, melhor ficar quieto". É natural, é humano, é compreensível.
Não era o caso de uma jovem senhora, que se aproximou, com ares de quem sabia o que fazia: "Deixa, deixa..." e tomou conta da situação. Não era o meu caso também, já tinha visto aquele quadro diversas vezes. Eu disse a ela: "Você precisa de ajuda"?
E fomos seguindo os procedimentos indicados: afrouxamos a gravatinha, a camisa, o cinto. Desfizemos o "bolinho" e ganhamos espaço. Levantamos o rapaz, que ameaçava cair da cadeira e o colocamos em uma posição mais segura e confortável. Os dentes não estavam cerrados e ele não mordia a língua. Retiramos objetos pessoais que pudessem se perder, quebrar ou feri-lo: óculos, telefone, carteira, etc. Alguém ligou para o SAMU pedindo uma ambulância.
O trocador se debateu por mais alguns segundos e começou a parar...Deu um profundo suspiro e depois permaneceu quieto, olhos fechados...e ofegava. O cansaço e a confusão mental seriam os próximos passos esperados.
Mais alguns minutos e ele começava a voltar: abriu os olhos. A moça falou com ele, perguntou o nome e a idade. O olhar era vazio, olhava mas não entendia o que via. O cansaço era profundo e quase mais consternador do que a convulsão. Ele estava exausto.
Ficamos ali, ao lado dele, por mais alguns minutos. Ele foi voltando. Respondeu o nome, mas ainda não sabia a idade nem onde estava. A primeira resposta à pergunta "quantos anos você tem"? foi "13 anos".
Foi nesse momento que pude tomar pé do que acontecia em volta. O ônibus estava parado no canto direito da avenida, logo em frente a um posto de gasolina, depois do shopping do vale. Eu estava a uns 500 metros do ponto onde desceria para pegar outro ônibus para a cidade nobre. Poderia descer e caminhar um pouco, mas não queria deixar a situação inacabada. Esperaria o SAMU. Algumas pessoas desciam, atrasadas para cuidar de suas vidas. Outras olhavam angustiadamente. Outras contavam o caso pelo telefone. Outras ainda simplesmente esperavam um outro ônibus para seguirem o trajeto e a vida.
O trocador falou alguma coisa, muito baixo e com grande esforço. Nos aproximamos: ele queria saber onde estava. Contamos o que acontecera. Ele pediu que ligássemos para alguém. O motorista, colega de trabalho, apareceu e disse que já estava ligando. Ele então tranquilizou-se novamente, recostou a cabeça na cadeira. E o SAMU chegou.
Duas pessoas desceram da ambulância e entraram no ônibus. Descrevemos todo o acontecido. Me lembro do motorista comentando com o pessoal do SAMU que nunca vira o trocador passar por algo parecido ou mesmo comentar sobre alguma doença que pudesse lhe causar isso.Com o apoio desses dois agentes do SAMU, o trocador desceu do ônibus e entrou na ambulância.
Nesse mesmo momento, outro ônibus estacionou logo atrás, pra pegar o pessoal. Fomos descendo, lentamente, e entrando no outro carro. Seguimos viagem. Calados. Desci no primeiro ponto, logo à frente e caminhei até o outro ponto, na avenida Brasil.
O dia morria, suavemente, dando lugar à noite. A agitação aumentava em carros e pessoas, devido ao horário. Gente indo pra casa, gente indo pra escola, rush, enfim.
Olhei o relógio do telefone: se o próximo ônibus não demorasse, não chegaria atrasado. E, por sorte, ele chegou logo. Embarquei. Sentei. Olhei pela janela: um carro de polícia, uma senhora com carrinho de bebê, um garoto se equilibrando perigosamente em uma bicicleta muito maior que ele, um supermercado lotado, um banco em greve. Tudo normal.
Pensei no trocador. Pensei em como aqueles poucos minutos, dentro do ônibus, poderiam mudar toda a vida dele. Aquilo certamente teria muitas consequências no trabalho e em sua rotina diária. Ele teria que buscar outra normalidade. E isso não é nada simples, pode ser muito complicado: mudar hábitos, se acostumar com novos situações, novos olhares das pessoas, novos julgamentos é uma verdadeira via crucis para a maioria de nós. Ninguém passa incólume por isso.
Nós nos acostumamos com as coisas, nós nos acostumamos com o que chamamos de nossas vidas e geralmente esquecemos a fragilidade absoluta disso tudo. Tudo é, em nossas vidas, natural e normalmente provisório, temporário. Somos criaturas predestinadas ao fim, desde o começo. Qualquer segundo é definitivo.
Devíamos beber a normalidade com a consciência de que tudo o que está não será mais. Nunca mais, Aquele segundo do olhar, do sorriso, do gesto, do vazio...aquele segundo foi e jamais será, novamente. Essa, a nossa normalidade: a convivência diária com o imponderável, com coisas definitivas que simplesmente não podemos prever ou controlar. Alguns preferem que deuses se ocupem dessa condição, dessa fragilidade, desse imprevisível, já que têm tantos planos para hoje, para amanhã, para o futuro com os netos.
Outros preferem não pensar nisso, outros preferem se dizer ocupados demais para pensar nisso. E simplesmente, vivemos.
Enfim, somos apenas isso: seres vivos, organismos que perambulam por aí seu prazo de validade, seja ele biológico, acidental, conjuntural, ou seja lá o que for. A única coisa que podemos escolher é como passaremos por esse período. Essa talvez a grande lição que devemos aprender e pensar nela, a cada segundo. Como se fosse normal, e que de fato é.
Desci no meu ponto na Carlos Chagas, fui dar minha aula, tomando o cuidado de lavar bem as mãos e os braços antes de cumprimentar as pessoas, antes de entrar em sala. E trabalhei, normalmente.